Bruno Fernandes dependência: um caso único ou comum em Portugal?

Francisco IsaacDezembro 10, 20197min0

Bruno Fernandes dependência: um caso único ou comum em Portugal?

Francisco IsaacDezembro 10, 20197min0
É um dos melhores jogadores a ter passado por Portugal no século XXI e se os números não provam, então as exibições devem chegar. Mas será o caso de Bruno Fernandes único ou houve mais dependências nos Grandes?

A dependência de um clube pode circunscrever-se a um jogador? Como é que um plantel pode ficar totalmente dependente de um só atleta, sendo que na ausência deste ressente-se a nível de qualidade na exibição, resultados e objectivos a curto/médio/longo-prazo? As perguntas são difíceis e há várias explicações e exemplos, como o caso do super-Barcelona com Xavi-Iniesta-Messi (mas sobretudo o astro argentino) ou do galáctico Real Madrid de Zidane que dependia do impacto de Cristiano Ronaldo nos jogos decisivos, entre outros, provando desde logo que a dependência de um jogador é real.

Actualmente em Portugal, há um clube que está dependente (quase totalmente) da produção ofensiva, espírito de liderança e capacidade de rasgo de um atleta… falamos claro está do Sporting Clube de Portugal e Bruno Fernandes. O médio-centro chegou ao emblema em 2017 e já alinhou em 129 encontros pelos “leões”, apresentando uns incríveis 60 golos e 48 assistências, tendo participado nas conquistas de duas Taças da Liga e uma Taça de Portugal.

Bruno Fernandes é o médio-de-ligação dos verde-e-brancos, munido de um excelente poder de afirmação nas decisões e manobras de ataque do Sporting CP, um “maestro” dos tempos modernos que ainda assume o papel de “goleador” (foi o 2º melhor marcador da Liga NOS em 2018/2019, terminando atrás de Seferovic por três golos) e comandante. Mas isto prova uma dependência total do Sporting CP? Se os golos marcados e assistências realizadas não são o facto decisivo, então é observar que em três épocas falhou só um máximo de 8 jogos no total, o que fica provado da necessidade total em ter o internacional português dentro de campo.

Na temporada actual, a dependência tem se agudizado já que em 19 jogos foi autor de 12 tentos e 10 passes para golo e a tendência deverá se manter. Até que ponto esta dependência vai ser nociva a médio-prazo para o plantel treinado por Silas? Pegando no caso de Bas Dost, um dos avançados mais prolíferos da Primeira Liga nos últimos 15 anos, podemos encontrar pistas para a dependência, desmame e regresso a um patamar de normalidade?

O EXEMPLO DE BAS DOST… DOS PICOS MAIS ALTOS AO DILUIR DO IMPACTO

O holandês foi responsável por 93 golos em 127 encontros nas três temporadas e um mês ao serviço dos “leões”, com as primeiras duas épocas a vincarem a importância do ponta-de-lança na concretização ofensiva e obtenção de resultados: 90 jogos e 70 golos. São números dignos de registo e que deram expressão ofensiva ao Sporting CP de Jorge Jesus, seguindo-se um decrescimento da importância do striker na última época (23 golos em 35 jogos), muito vincada pelas lesões e as opções estratégicas de Marcel Keizer.

O Sporting CP não soube substituir Bas Dost, mas é importante relembrar que o modelo táctico alterou-se fortemente desde a saída de Jorge Jesus, removendo uma boa parte da importância do papel do goleador do sistema de jogo, optando por atletas mais móveis e com capacidade de jogar nas entre-linhas.

Contudo, já para o papel de Bruno Fernandes não há alteração táctica alguma que vá atenuar a ausência que o médio português irá provocar quando sofrer uma lesão, suspensão ou, futuramente, sair do clube verde-e-branco. O ex-Udinese e Sampdoria é o elo de ligação entre o meio-campo defensivo e o bloco dianteiro ofensivo, afirmando-se como o suporte da estratégia de jogo de qualquer um dos treinadores que passaram pelo clube nos últimos anos.

Mas será este caso uma excepção à regra ou algo que já aconteceu recentemente no futebol português? Abrindo espaço para a discussão, apontamos dois jogadores que foram essenciais em diversas temporadas dos clubes que representaram, como Giovanildo de Souza, mais conhecido por Hulk, e Jonas Oliveira, lembrado simplesmente por Jonas. Vejamos não só os números mas também tentarmos perceber se ficou um vazio no FC Porto e SL Benfica quando ambos saíram.

HULK – MONSTRO COM FOME POR GOLOS E EXIBIÇÕES EXTRAORDINÁRIAS

O extremo brasileiro chegou ao Dragão envolto num manto de dúvidas em relação ao seu potencial, uma vez que proveio do Tokyo Verdy em 2008. A verdade é que ao fim de quatro temporadas com o símbolo do FC Porto ao peito, Hulk foi responsável por 77 golos e 61 assistências em 169 jogos, conquistou quatro campeonatos nacionais, uma Liga Europa, três Taças de Portugal e três Supertaças, sendo um dos jogadores com mais títulos nesta última década dos azuis-e-brancos.

Mas efectivamente existia alguma Hulk-ó-dependência? Olhando para o que se seguiu, sim. O emblema da Invicta não foi capaz de contratar um extremo que produzisse metade da qualidade ofensiva e números do internacional brasileiro, abrindo um constante problema tanto na definição de jogadas, poder-de-fogo na frente e na mistura de velocidade-intensidade no corredor. Não estamos a dizer que a seca de títulos que o FC Porto passou foi só pela ausência de jogadores do nível de Hulk, mas não há dúvidas que a inexistência de um jogador com essas qualidades e capacidades fez a diferença em determinados jogos.

Foi um extremo que se notabilizou no FC Porto em todos os parâmetros, seja na marcação de livres, cantos, no jogo aéreo, eficácia quer com o pé direito ou esquerdo, entre outras qualidades, algo que não se tem visto nos últimos 5 anos no Dragão.

JONAS – GOLOS MAIS CERTOS QUE UM RELÓGIO SUÍÇO

É sem dúvida alguma um dos melhores e maiores goleadores da Primeira Liga dos últimos 20 anos, possuindo um registo incrível de 137 golos e 42 assistências em 183 encontros realizados como atleta do SL Benfica. Mesmo que não tenha apresentado o instinto felino nos jogos ditos grandes, Jonas foi essencial para a conquista de quatro campeonatos nacionais pelas “águias”, tendo levantado o título de Bola de Prata por duas ocasiões (2015/2016 e 2017/2018) com detalhes técnicos geniais e inesquecíveis.

O brasileiro chegou a custo-zero e depois de cinco temporadas em Lisboa, deixou uma marca tão profunda que se tornou um problema… Seferovic conseguiu concretizar 23 golos na temporada transacta mas não chegou aos calcanhares exibicionais de Jonas, Raúl de Tomás não parece ser solução (e para já está na galeria de atletas espanhóis que desapontaram em Portugal) e Carlos Vinicius ainda está longe de ter o mesmo peso que o avançado tinha.

Dificilmente o SL Benfica vai encontrar um avançado com uma taxa de jogo/golo igual à de Jonas, que apesar de ser o maior goleador da história recente dos encarnados, não entra no Top-10 do clube (Oscar Cardozo é o ponta-de-lança estrangeiro com mais golos, com 172 remates certeiros em 292 jogos).

Posto estes dois exemplos, o que se augura para o Sporting Clube de Portugal quando perder o seu maior produtor de golos seja neste final de época ou no próximo? Uma nova dependência terá de ser inventada para repor os índices de confiança na equipa. Contudo, e apesar de existir efectivamente esta Bruno Fernandes-ó-dependência, não deixa de ser incrível ter um jogador destas proporções e valências a deslumbrar na Primeira Liga.

50 dos 60 golos de Bruno Fernandes no Sporting CP


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