Santa Clara e João Henriques, uma combinação ideal que tem futuro?

Francisco IsaacSetembro 18, 20187min0

Santa Clara e João Henriques, uma combinação ideal que tem futuro?

Francisco IsaacSetembro 18, 20187min0
O início da experiência do Santa Clara e João Henriques na Liga NOS não está a ser perfeita, mas há sinais positivos que devem ser relevantes! O que achas dos açorianos?

REGRESSO À PRIMEIRA LIGA MAS EM QUE CONDIÇÕES?

2018 marcou o regresso de uma equipa açoriana à Primeira Liga ao fim de quase duas décadas. Melhor, marcou o retorno do Santa Clara junto dos maiores de Portugal depois de uma luta dura, longa e de grande sofrimento na Ledman LigaPro, mas que terminou da melhor forma possível, com a tal promoção à Liga NOS ao fim de 16 anos.

No meio do rebuliço provocado por União da Madeira (o emblema madeirense tentou de tudo para evitar a descida, apesar dos vários problemas internos com jogadores e faltas de pagamento e salário) e Académico de Viseu, os açorianos sobreviveram e foram confirmados na Primeira Liga.

Entre o final da temporada e o início da pré-época, algumas coisas mudaram no plantel do Santa Clara, desde logo a saída de Carlos Pinto (o treinador da controvérsia, que foi o grande responsável pela promoção em 2017/2018) e a entrada de João Henriques, técnico que fez um bom trabalho pelo SC Leixões mas foi incapaz de salvar o Paços de Ferreira da descida à segunda liga.

A mudança não foi de todo negativa, até deve ser vista como uma troca positiva e que vai mexer com a forma de jogar dos açorianos para esta temporada, necessário para garantirem pontos essenciais na luta pela manutenção.

O ano passado assumiam uma postura reservada, de controlo de bola no meio-campo, sem subidas muito arriscadas dos extremos, onde o trabalho pelo centro do terreno era essencial para chegar ao último terço. Existia uma combinação de processos bem ágeis e simples que tornavam o Santa Clara uma formação equilibrada e desafiadora, merecendo justamente a subida por esses motivos.

Não foram o melhor ataque (3º/4º com 55 golos) nem a defesa mais segura (entre a 2ª e 6ª, com 40 golos sofridos), mas foram sem dúvida umas das formações mais consistentes durante toda a liga. Todavia, os bons argumentos da fase Segunda Liga não são suficientes para garantir a sobrevivência num campeonato mais rápido, onde existem desníveis entre orçamentos e qualidade de plantéis.

Nesse sentido para 2018/2019, João Henriques parece estar a adicionar alguns traços diferentes à formação açoriana sem descurar o trabalho que foi feito no plantel por Carlos Pinto. No encontro contra o SC Marítimo, na abertura da Liga NOS, os açorianos foram um osso duro de roer para a formação verde-rubra que até podia ter acabado da melhor forma não tivesse Amir defendido remates de Bruno Lamas, Rashid e Santana. Apesar da insistência ofensiva, um penalti mesmo no final do encontro ditou uma derrota no retorno à Primeira Liga.

Na Taça da Liga foram derrotados pelo Aves nas grandes penalidades depois de um 2-2 no tempo regulamentar… mais uma vez, foi a equipa que melhor atacou, com dois golos marcados perdendo essa vantagem na segunda metade da eliminatória.

Porém, a falta de frieza e segurança acabou por levar a uma igualdade. O que isto significa? Que existem pontos fracos preocupantes e que podem ser problemas nocivos à continuidade do projecto de João Henriques no Santa Clara, mesmo que estejamos ainda no início da competição.

Mas nos últimos encontros a situação melhorou de uma forma extraordinária: empate a três com o SC Braga, para depois ir a Portimão também conseguir um empate a dois. Nestes dois encontros estiveram a perder por uma desvantagem de dois golos, para depois recuperarem e conquistarem um precioso ponto. A primeira vitória na Liga NOS chegou na última jornada… 4-2, em casa, frente ao Boavista.

Jogo imenso de Osama Rashid, Bruno Lamas, Fábio Cardoso, Accioly e Thiago Santana para dar uma vitória categórica a João Henriques. Em quatro jornadas, 5 pontos amealhados, uma derrota nos últimos minutos de jogo e… muito tempo de futebol útil.

ERROS “NORMAIS” QUE PODEM CONDICIONAR A ÉPOCA?

Tanto na Vila das Aves, como no Estádio dos Barreiros, o Santa Clara foi permeável na sua faixa esquerda, abrindo boas possibilidades de ataque aos seus adversários que por acaso na Madeira não foram aproveitadas, mas ante a formação de José Mota a história foi diferente como já referimos.

Depois de chegar a um 2-0 confortável, os açorianos abriram espaço suficiente para a resposta do Aves que chegou através de perfurações pela lateral e insistência em centros rasteiros… o golo do empate por Braga, foi régua e esquadro das fraquezas do Santa Clara… bola colocada em profundidade pela direita, Rodrigo recebe, “passeia” pela ala e atira um cruzamento para os pés do médio. Não há dúvidas que é um problema neste arranque de temporada e talvez a questão não esteja tanto no lateral (Patrick à esquerda), mas sim no apoio prestado tanto pelo meio-campo defensivo como pelo extremo.

Parece muito fácil de analisar e de reparar, sendo que não há uma solução de simples aplicação, uma vez que para tal era necessário mudar o esquema táctico e optar por um pivô mais rápido, físico e estratégico… não avançando com essa ideia, é necessário que Pacheco e Rashid desenvolvam auxílio à defesa mais dinâmico e de maior acompanhamento aos seus colegas no eixo defensivo.

Outras fraquezas vão para a falta de mais frieza na hora de decidir junto da área ou na hora de colocar o esférico nos pés de Thiago Santana, o ponta-de-lança de serviço desde 2017. Notou-se nos jogos de início de época, uma falta de passes para dentro da área e de colocação de bola no homem mais à frente, o que confere algum sossego nesse aspecto aos adversários. Não ajuda que Santana tente ser ao mesmo tempo um combinador e um goleador.

Aliás, essa é outra questão deste Santa Clara, o facto do bomber brasileiro por vezes a actuar longe da sua área de incidência e não ter a velocidade de reacção suficiente para chegar à área logo no imediato.

Este “erro”, é por outro lado uma demonstração da solidariedade do elenco açoriano que procura mais o protagonismo colectivo do que individual, movendo-se bem como um bloco trabalhador.

Com o Boavista assistiu-se precisamente a esse pormenor, de uma constante compensação solidária do ataque açoriano, procurando fomentar não só bons passes a Thiago Santana (infelizmente vai estar afastado durante 5-6 meses), como originar entradas no ataque de Bruno Lamas, Osama Rashid, Fernando Andrade dando uma dimensão superior ao ataque.

Em suma, Bruno Lamas e Osama Rashid executam com qualidade o manobrar de jogo e lançamento de linhas de passe (o brasileiro podia arriscar um pouco mais em remates de longe, até porque tem qualidade nesse sector), Zé Manuel detém alguns argumentos na hora de criar problemas na cabeceira, os centrais combinam bem (Accioly tem 37 anos e é daqueles veteranos a respeitar) e Marco Rocha é seguro entre os postes (actuou pelo Trofense na Primeira Liga há 10 anos atrás). Uma equipa completa sem ter jogadores de alta craveira mundial.

João Henriques tem condições suficientes para garantir uma época calma para os lados de São Miguel, bastando para isso ter um pouco mais de sorte do que teve ao serviço do Paços de Ferreira. O CD Santa Clara é uma formação a respeitar, com um estádio carismático e com um plantel pouco conhecido mas esforçado, dedicado, trabalhador e motivado. Mas até que ponto o plantel actual baseado neste esquema de jogo mais “aberto” vai sobreviver a uma época dura na Liga NOS?


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