Um (meio) pedido de desculpas a Sérgio Conceição

Francisco IsaacMaio 17, 201821min0

Um (meio) pedido de desculpas a Sérgio Conceição

Francisco IsaacMaio 17, 201821min0
A temporada acabou com um final feliz para o FC Porto e fizemos um pedido de desculpas a Sérgio Conceição... ou parte dele. A leitura das suas capacidades e falhas neste artigo

Nota prévia ao leitor: ao contrário do que aconteceu com Nuno Espírito Santo, treinador que o Fair Play tinha notado e previsto uma carreira pouco auspiciosa no Dragão, o caso de Sérgio Conceição era à partida algo diferente.

Alguns pontos interessantes e cativantes que prometiam uma época diferente para o FC Porto deixavam em aberto uma temporada de algumas melhorias. Contudo, duvidámos – sem algum problema em o afirmar – que fosse o clube da Invicta o principal candidato ao título por diversas razões… recordemos algumas:

– Ao contrário dos rivais de Lisboa (e mesmo o de Braga) que se reforçaram com alguns milhões, o FC Porto não gastou mais que 1M€ no Mercado de Verão… Vaná (que no final da presente temporada somou 90 minutos) foi o único reforço. Ou seja, enquanto que o tetra campeão SL Benfica gastou à volta de 10M€ e o Sporting CP cerca de 40M€, o clube da invicta investiu praticamente nada no plantel;

– Ao não investir no plantel, a SAD azul-e-branca deixou-ocom algumas carências tácticas/técnicas. Sim, o FC Porto vivia entre a magia, eficiência e força e a mediocridade, mas também tinha de conviver com os erros de casting, as constantes falhas mentais e a falta de qualidade táctica. Sem André Silva e Rúben Neves, que saíram no defeso, os grandes reforços de Sérgio Conceição passavam pelos atletas que tinham sido emprestados;

– O reforçar com activos desacreditados pelas más épocas anteriores deu um trabalho-extra a Conceição na preparação para a temporada, com várias horas, dias e semanas gastas para não só convencer os atletas, como também colocá-los em forma e dentro daquilo que era exigido neste FC Porto à Sérgio Conceição.

Vincent Aboubakar, Moussa Marega, Ricardo Pereira, Hernâni, Sérgio Oliveira (o regresso mais “fácil”), Diego Reyes, Gonçalo Paciência (este só em Janeiro) foram as contratações para o treinador, que teria não só de garantir um bom rendimento dos atletas, bem como o restabelecimento de uma relação positiva com o público;

– A falta de títulos dos últimos quatro anos colocava uma pressão, não monumental, mas nociva para o futuro deste novo elenco, que vivia não só sob a sombra do SL Benfica como  tambémdo Sporting CP, equipas que tinham conquistado a maioria dos títulos nos últimos quatro anos.

O descrédito por parte de alguns adeptos, a constante infelicidade perante os erros da SAD e a ausência de referências ofensivas, colocavam essa pressão como um “veneno” que Conceição teria de transformar em vitamina.

Estes eram pontos mais que suficientes para à partida suspeitar de qualquer candidatura por parte de Sérgio Conceição e o FC Porto ao título de campeão nacional. Porém, ao fim de quase 9 meses de competição (acrescentem mais um para a preparação) o plantel azul-e-branco fez o improvável, numa época em que “abateu” alguns mitos, ultrapassou obstáculos psicológicos e devolveu a glória e a ambição a um clube que estava em vias de perde-la por completo.

O DOMADOR DE DRAGÕES E O FLAGELO DE MITOS

Entre o fim da temporada de 2017 e o início da 2018, o FC Porto tinha uma série de problemas para resolver, a começar pela falta de soluções no plantel… a saída de André Silva e Rúben Neves ainda veio a piorar a situação com que Sérgio Conceição se deparou quando aterrou na cidade do Porto.

A somar a isto, as restrições de orçamento impostas pelo Fair Play financeiro da UEFA (resultado de anos consecutivos de maus investimentos, do aumento do passivo e falta de receitas que liquidassem com as dívidas correntes do clube) deram logo um aviso que não havia espaço para gastos desmedidos ou, como se veio a confirmar, qualquer gasto.

Em suma, Conceição estava de certa forma “desapoiado” no que toca a reforços e no “muscular” da equipa com novas contratações, o que o forçava ir ao “armário dos exilados”. Como já dissemos, foram vários os nomes vistos, revistos e que entraram nas contas na temporada do FC Porto no final de contas.

Mas ninguém deve ou pode esquecer-se do tamanho trabalho que o técnico teve na recuperação de Vincent Aboubakar, Moussa Marega, Diego Reyes ou Ricardo Pereira, que por uma ou outra razão não estavam interessados em regressar ao Dragão.

FAZER DA ARGAMASSA DE FRACA QUALIDADE ATLETAS ÚTEIS

Por isso onde estivemos mal? Na assumpção que Sérgio Conceição ia falhar no lidar com o plantel, no criar um grupo forte sem novas contratações e no discurso para dentro da equipa.

Não incluímos Sérgio Oliveira nesta secção, devido a exactamente ao que o leitor está a pensar: o médio-centro esteve emprestado Nantes de Sérgio Oliveira. Nesses poucos meses foi fácil para o treinador perceber as valências, qualidades e aonde se encaixava o português. Sérgio Oliveira sempre foi prata da casa e o seu retorno era um dado adquirido com Sérgio Conceição.

Posto isto, Ricardo foi o mais fácil de trazer, já que nunca teve uma situação complicada com o clube, tendo lhe sido prometido que seria colocado no plantel ano após ano. Os dois anos de excelência em França garantiram uma cobiça que subiu ao ponto do Tottenham querer dar 30M€ pelo lateral. A transferência nunca se confirmou e o lateral ficou no Dragão.

Diego Reyes já era outro caso algo mais complicado… “humilhado” pela opção táctica de Julen Lopetegui, o mexicano foi afastado do FC Porto e ganhou lugar em Espanha, correspondendo, geralmente bem, pelo Real Sociedad e Espanyol. Novamente, Junho de 2018 várias informações foram veiculadas que o central iria abandonar o clube, uma vez que o seu passe terminava no ano seguinte… e como Ricardo, ficou como opção para o eixo defensivo de Conceição.

Hernâni garantiu um lugar, oferecendo algumas “armas” ao flanco do FC Porto, apesar de ser um jogador etiquetado como “limitado”. Mercado também não faltava ao extremo, que já sabia do problema da competição dentro do plantel.

As conversas sistemáticas de Conceição com o plantel e com os jogadores a nível individual podem ter funcionado em proveito do plantel e clube… mas bastariam umas poucas palavras com Aboubakar e Marega para os convencer a ficar?

O camaronês tinha ficado desiludido com o comportamento de Nuno Espírito Santo e com a direcção dos azuis-e-brancos, afirmando mesmo que não voltaria ao clube. Chegado a Junho, facilmente ficou convencido com o discurso e postura do treinador/clube e aceitou vestir a camisola, mesmo com uma série de pretendentes ao seu redor.

Marega idem idem, apesar de ter levado um “puxão de orelhas” ainda antes de ter chegado do período de férias – alargado, sem autorização. Em poucas semanas, ganhou destaque e confiança, isto quando ainda vivia na sombra de Soares e Aboubakar.

No final de contas o que garantiram estes reforços? A nível de números: 59 golos, 26 assistências e cerca de 14000 minutos pelo clube. Ricardo Pereira foi autor de 2 golos, Reyes 3, Hernâni 1, Oliveira 4, Aboubakar 29 e Marega 26. Outro dado importante: Ricardo, Aboubakar e Marega fizeram parte do onze base do clube na maioria dos jogos tal como Sérgio Oliveira, sendo que Reyes meteu Felipe em sentido, sentando o brasileiro a certa altura, com Hernâni a jogar muito pouco em toda a temporada.

A participação no marcar golos ou de assistir correspondeu a quase 50% dos golos/assistências do FC Porto. Esta foi uma das chaves para o sucesso de Sérgio Conceição, não há dúvida alguma. A recuperação de jogadores, o desenvolver ou aprimorar de certas capacidades e o devolver da confiança destes mesmos são traços decisivos no trabalho do treinador no plantel.

Foto: Lusa

REGRESSO DA MÍSTICA AO UNIVERSO DO FC PORTO

Neste caso, e como poderão ler, o futebol imposto por Sérgio Conceição seria o ideal para este FC Porto: raça, velocidade, domínio atacante e concentração. Duvidávamos que se aguentaria tanto tempo como aconteceu.

Mas isto é a “ponta do icebergue” de certa forma, uma vez que a principal melhoria, que todos os adeptos sentiram por completo, foi a forma como a equipa jogava e assumia agressivamente o jogo.

O futebol de posse de bola excessiva, de lateralização e de pouco risco junto da grande área de Lopetegui tinha sido “removido” por completo… o mesmo para a estratégia algo caótica de Nuno Espírito Santo, em que o centrar por centrar era um problema constante.

O novo técnico do FC Porto substituiu estas tácticas por algo mais ofensivo, com mais velocidade, de lançamento em profundidade, dando espaço a Brahimi para explodir, a Marega e Aboubakar para criarem mecanismos curiosos e diferentes (impondo um misto de físico e raça com magia e detalhes técnicos), com uma participação acentuada pelos laterais (algo que Layún já o tinha feito anteriormente com Lopetegui, mas desta vez ambas as faixas participaram activamente) e um meio-campo defensivo bem equilibrado com Danilo/Oliveira-Herrera.

Foi o repor da “mística”, palavra que foi repetida exaustivamente nos últimos anos, aplicada agora à forma de jogar… o FC Porto tornou-se mais dominador, cansativo para os adversários e procurava outra insistência dentro da grande área. No final de contas foi o melhor ataque do campeonato (88 golos), o 5º melhor na Champions League na fase-de-grupos (15 golos) e dos melhores da Taça da Liga e de Portugal.

Conceição aproveitou o trabalho e desenvolvimento defensivo vincado por Nuno Espírito Santo (e que já tinha sido esboçado por Julen Lopetegui na primeira época no FC Porto). A defesa foi mais totalitária, houve menos espaço para erros infantis (mesmo assim houve ainda algum vislumbre de alguns gritantes como por exemplo na derrota por 2-0 no Restelo, com Osorio a ficar mal nos dois golos, partilhando a culpa com Felipe) e a confiança da dupla de centrais subiu para números interessantes.

A baliza assegurada por Iker Casillas e José Sá ficou livre de golos em 27 dos 52 jogos em que ambos os guardiões disputaram (Vaná nunca sofreu um golo pelo clube), registo praticamente idêntico em relação a 2016/2017 que terminou com o cômputo final de 29 jogos sem sofrer em 49 jogos totais.

O FC Porto melhorou em todos os aspectos individuais e globais, provando que com “pouco” se pode fazer muito. Ao contrário do que se veiculou, o plantel que terminou a época tinha 27 jogadores, com média de quase 27 anos. Isto significa uma aposta num tipo de jogador mais experiente, com mais calo e que consegue processar as ordens e comandos do treinador de outra forma.

A forma como abordou os clássicos foi outro segredo de Conceição: para o campeonato duas vitórias e dois empates, mantendo uma invencibilidade fundamental para assegurar o título (Rui Vitória foi o treinador que pior registo teve no século XXI frente aos rivais directos, mas que conseguiu levantar o título com as três derrotas e uma vitória em 2015/2016). Na Taça de Portugal, uma vitória e derrota no cômputo final, e na Taça da Liga um empate decidido nas grandes penalidades.

Ou seja, em 630 minutos o FC Porto sofreu apenas uma derrota, sofreu 2 golos e marcou 4. Foram números suficientes e que ficaram à porta do registo de André Villas Boas (4 vitórias e 1 empate), o melhor nos últimos dez anos.

Houve uma mudança total na forma como a equipa abordava o jogo a nível psicológico, com mais consistência, equilíbrio e outra ferocidade que se tinha perdido nos últimos anos. Possivelmente, a experiência acumulada de Sérgio Conceição enquanto jogador ajudou na parte da atitude e discurso com o plantel… a roda final após os jogos prova que existia uma nova mentalidade e espírito dentro da equipa.

A somar a isto, o discurso com os jogadores, a forma directa como resolvia os problemas com o plantel, com os casos de Iker Casillas, Felipe, Soares a ficarem na retina. Três jogadores que na época passada foram (quase) sempre titulares, estiveram entre 5 a 10 jogos no banco dos suplentes em virtude da sua falta de entrega (Casillas), erros despropositados (Felipe) e postura em certas situações (Soares).

Este tipo de situações aconteceram com os seus antecessores, especialmente com Julen Lopetegui e Nuno Espírito Santo, com ambos a fracassarem por completo na forma de lidar com o grupo de trabalho. Se o espanhol não conseguia defender os seus atletas perante o seu fracasso (caso de Diego Reyes em Munique) e tinha uma postura de “ditadura de ideias” que criou problemas (Ricardo Quaresma ou Josué sofreram neste parâmetro) ou o caso de NES de ter criado um muro entre si e os jogadores, com Conceição isto foi bem diferente.

Estes foram só alguns aspectos do que Conceição fez na sua primeira época na Invicta, que permitiu no final de contas chegar às meias-finais da Taça de Portugal e Liga, oitavos da Liga dos Campeões e campeão do campeonato. Os 88 pontos conquistados igualam o registo do SL Benfica de Rui Vitória de 2015/2016, o melhor de sempre da (actual) Liga NOS em termos de pontos acumulados (todavia, André Villas Boas detém o melhor registo em termos de pontos/jogos).

Mas onde é que o treinador errou?

Uma das melhores exibições do FC Porto 2017/2018

BRINCAR COM O FOGO POR VEZES QUEIMA…E INCENTIVA OS RIVAIS

Apesar das situações que se verificaram, a nossa primeira ideia seria de algo ainda mais conflituoso e agressivo. No final de contas, o treinador foi mais equilibrado e ponderado do que muitos achavam que o ia ser.

Pelo título da secção é fácil perceber um dos principais erros do técnico: palavras agressivas/duras e/ou despropositadas para com os rivais. Se Francisco J. Marques teve aquelas acções no Porto Canal de demonstração que existia uma espécie de estrutura de influência de um dos rivais do FC Porto através dos tais e-mails (algo que só pode ficar comprovado em sede própria e sob o selo da justiça portuguesa) que foram “cravando” algum dano na imagem do SL Benfica, já Sérgio Conceição conseguiu fazer, por vezes, o oposto, dando força aos seus mais directos adversários.

O primeiro discurso mais quente foi com Abel Ferreira, com os dois técnicos a engajarem-se de uma forma agressiva e directa. A esta altura é difícil de recordar quem começou, mas a parte mais importante da discussão ficou assente que o treinador dos bracarenses não tinha tido qualquer contacto com Conceição nem antes ou depois da saída deste do SC Braga, desconhecendo-o por completo e que não gostava de elogios hipócritas.

A resposta foi imediata, com o técnico dos Dragões a provar que as declarações de Abel Ferreira para além de erradas, estavam recheadas de alguma mentira, sem saber qual o propósito. O ambiente aqueceu, mas após o jogo do FC Porto-SC Braga a situação esmoreceu, com ambos a cumprimentarem-se mutuamente.

Sérgio Conceição sempre foi conhecido pelo seu carácter directo e franco, com “poucas papas na língua”, como se costuma dizer. Quanto mais irritado está, pior o seu discurso fica, entrando num remoinho de emoções. Isto aconteceu em Coimbra, Braga e Guimarães. É a personalidade muito própria de um treinador que nunca escondeu que sente o jogo de uma forma calorosa, apaixonada e comprometida.

Todavia, durante esta primeira época de azul-e-branco ao peito, o técnico raramente se descontrolou e primou sempre por um discurso cativante, motivador e que passava por falar directamente com os jornalistas, sem se negar a corrigir quando sentia que alguma injustiça estava a ser cometida para com algum jogador ou equipa.

ENTRE BONECOS E JOGUINHOS…

Com os rivais directos era natural que ia querer entrar nos mind-games… acertámos que nem sempre isto correu-lhe correr da melhor forma.

Se a batalha com Abel Ferreira ficou sanada, quase ao mesmo tempo partiu em direcção a Rui Vitória, com uma crítica ao treinador do SL Benfica pela sua postura que parece estar dependente do que a direcção diz ou deixa-lhe dizer. A crítica podia ser válida, não fosse Conceição fazer uma comparação infeliz, que fazia alusão a um “boneco” que mudava os seus comportamentos mediante a ocasião.

Este discurso, válido na crítica e inválido na forma como foi expressa, flamejou as Águias de certa forma, já que entre 13 de Janeiro e 14 de Abril ganharam 11 dos 12 jogos disputados, entre eles frente ao SC Braga (fora), FC Paços de Ferreira (fora), Vitória FC (fora), isto só para nomear alguns. Para os que duvidam que isto possa ter ou não motivado em parte as hostes do SL Benfica, basta recordar a temporada de 2015/2016 quando Jorge Jesus consecutivamente atacou Rui Vitória nos momentos mais oportunos, acabando por dar uma bitola de motivação extra.

Esta batalha ficou sanada a certo ponto e na véspera do Clássico entre o campeão em título e o FC Porto, Sérgio Conceição mediu bem as palavras, esboçou um discurso correcto sem deixar de ser directo e ambicioso, o que acabou por não dar qualquer dose de motivação extra ao SL Benfica.

Seguindo esta linha de tempo, relembrar o jogo que opôs o FC Porto ante o Sporting CP, em Alvalade para a 2ª mão das meias-finais da Taça de Portugal, começou mal na conferência de imprensa de Jorge Jesus. O técnico dos Leões afirmou que “o Sporting está no limite e o Porto fez um joguinho no fim-de-semana e vai fazer outro agora, nós andamos há meses nisto!”.

A resposta de Conceição chegou de forma peremptória e agressiva, não virando a cara ao debate dizendo “que esperava que o Sporting fizesse o mesmo joguinho que o Porto fez frente ao Benfica.”. Para o leitor comum, é natural que isto pareça uma troca de palavras normal no futebol, porém, naquele momento tudo o que técnico do FC Porto não podia fazer era dar razões de motivação ao Sporting CP.

Jogo dividido, com claro ascendente dos Dragões na primeira parte, que na 2ª metade do jogo caíram abruptamente (por vários factores, desde equipa pouco fresca, ausência de algumas peças e soluções de banco) abrindo espaço para uma maior intensidade por parte do Sporting CP. Resultado final? Derrota do FC Porto, frente a uns verde-e-brancos que ganharam o tal “joguinho” quase da mesma forma que o FC Porto ganhara na Luz… perto dos 90 minutos.

Foto: A Bola

JOGAR À DEFESA NÃO É O CAMINHO

Nesse jogo de Alvalade houve também outro aspecto negativo por parte do técnico português: o recuar das linhas, baixar da pressão nas alas e a aposta em músculo invés de génio. As substituições não foram as melhores, com Aboubakar a entrar a frio e a aposta num quase-duplo pivot mais baixo que só veio a piorar com a entrada de Diego Reyes para o lugar de Oliver.

Esta postura mais de “medo” e “resultadista” funcionou muito a favor da equipa da casa que aproveitou a deixa para se superiorizar. Sempre que o FC Porto baixou linhas ou arriscou menos do que o costume, correu quase sempre mal, como aconteceu no jogo para a Taça da Liga.

O risco, o sair para o ataque de forma célere e expedita, a aposta numa equipa mais dominante foram segredos para várias das vitórias dos azuis-e-brancos nesta temporada.

A adulteração ao ADN deste FC Porto de Sérgio Conceição correu sempre da pior forma possível e isso é uma lição a tirar para o futuro. As derrotas em Paços de Ferreira e Restelo podem ser explicadas não pelo carácter resultadista mas pela perda do foco no caso do jogo com os “castores” (penalti de Brahimi poderia ter dado a força necessária para a reviravolta) ou com o CF “Os Belenenses” (o erro de Osorio e Felipe desconcentrou a equipa, que teve várias oportunidades para empatar, mas faltou o factor X).

Duas derrotas quase consecutivas podiam deitar o plantel para baixo, contudo, Conceição soube sempre dar a volta por cima e a vitória na Luz (sorte ou não, o 1-0 fixou o resultado final) é uma prova dessa ambição, paixão e querer que tem representado o FC Porto de Sérgio Conceição.

Em suma, Sérgio Conceição foi o treinador que o FC Porto precisava para o momento actual e deverá continuar com os pés bem firmes no Dragão. Competente, agressivo, ambicioso, directo, minimamente inteligente e motivador, o técnico-principal dos agora campeões nacionais promete fazer ainda mais “dano” na próxima temporada, dependendo se há reforços ou não para a equipa.

O Fair Play consultou três adeptos do clube para saber a opinião do bom mau que ficou desta temporada. A pergunta é fácil: dois a três elementos que o adepto apreciou em Sérgio Conceição e uma a três que foram mais censuráveis ou a melhorar.

A PALAVRA DO ADEPTO

Sebastião Sequeira (Controlador Aéreo)

Gostei do facto de o treinador ter conseguido recuperar a identidade do clube, invictos em casa, a forma de jogar que foi sempre para ganhar e a união no balneário. Recuperou jogadores que eu, nem quase ninguém acreditava neles e lidou muito bem com os problemas internos como o caso do Iker Casillas e o Soares. Apenas acho que se precipitou na chamada do Paciência… verdade que foi campeão mas perdeu muitos minutos de jogo importantes para a carreira dele.

Ricardo Maia (Estudos de Mercado)

Coisas boas: relação com os jogadores, representante da cultura do clube e obsessivo pela vitória. Más: por vezes apresentou um discurso que se pode de catalogar como “mal educado” e por extensão a relação com o Rui Vitória.

João Isaac (Consultor Financeiro)

Positivo: postura, cabeça fria, sem papas quando tinha que sentar jogadores e que tinha que os colocar a jogar. O maior exemplo é Casillas. A adicionar que, fez isso sem nunca perder a motivação dos jogadores… aliás, fez com que os motivasse sem excepção. Sentar um jogador normalmente desmotiva, mas alguma coisa fez para que os conseguisse recuperar mentalmente.

Negativo: decisões menos acertadas no que toca a substituições. Tivemos muitas lesões e pergunto-me se foi azar ou exagero nos treinos/jogos. Ganhámos o campeonato quando podíamos ter ganho mais alguma coisa.

Foto: Lusa

 


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