Porquê é que ir à Europa significa descida para alguns na Primeira Liga?

Francisco IsaacJunho 1, 202110min0

Porquê é que ir à Europa significa descida para alguns na Primeira Liga?

Francisco IsaacJunho 1, 202110min0
Do sonho da Europa até ao pesadelo da descida, quantas situações aconteceram dentro do mesmo padrão? Uma análise a sete casos similares do futebol português

De atingir a qualificação para as competições da UEFA até ao desastre da relegação… o exercício é “fácil” de colocar em prática, com o problema a ser, sobretudo, perceber o porquê de tal queda abismal que se deu com alguns clubes da primeira liga portuguesa, passando da “glória” da Europa para a luta pela sobrevivência, ou seja, fuga à descida de divisão. Para a análise aqui realizada, recuámos até à época de 1999/2000, analisando a partir desse ponto todas as épocas até à que findou há poucos dias, uma vez que será mais prático na tentativa de construir uma rede de pensamentos e argumentos lógica e inteligível.

Por isso, nestas 20 temporadas observadas encontrámos seis casos idênticos, adicionando um extra que tem significativas diferenças no seu desfecho, mas que devem contar para o “cálculo” analítico aqui elaborado. Então que situações temos de equipas apuradas para uma competição europeia numa época e que na seguinte enfrentaram a descida de divisão?

SETE EXEMPLOS DO IR À EUROPA ATÉ À DESPROMOÇÃO

O primeiro caso desta lista vai para o CD Santa Clara, que em 2001/2002 disputou a Intertoto (o antigo 3º nível das competições europeias da UEFA) e acabou relegado nessa mesma temporada. Na Intertoto 2002, os açorianos chegaram à segunda-fase da competição, perdendo aí para o Teplice num agregado de 2-9, com estes jogos a terem sido disputados no fim de Junho e início de Julho (eliminação dá-se a 13 de Julho). A época da primeira liga começou a 25 de Agosto, o que forçou ao plantel entrar muito cedo na pré-época com vista a disputar a Intertoto, seguindo-se uma breve pausa após a eliminação e um duro recomeçar em meados/fins de Julho, sofrendo a despromoção como penúltimo classificado, somando 35 pontos.

O segundo caso encontrado cabe ao Vitória SC, que sofreu este peculiar destino de Europa-Descida numa só situação: 2005/2006. Em toda a sua história, os vimaranenses conseguiram 22 apuramentos para Liga dos Campeões, Taça UEFA/Liga Europa, Taça Intertoto e Taça das Taças/Taça das Cidades com Feira, tendo só por uma vez descido em ano de ida a uma destas competições referidas, o que demonstra um pormenor diferente em comparação com os seus opositores. O Vitória ficou em último no seu grupo da Taça UEFA desse ano, com esses desaires a assinalarem já algumas das preocupações e razões pelo qual viriam a descer no fim da época: falta de qualidade no capítulo ofensivo, terminando como o 2º pior ataque dessa edição da primeira liga, e demasiada instabilidade na gestão de jogo, que levou a algumas derrotas pela margem mínima. A queda para o segundo escalão possibilitou uma reflexão profunda que viria a dar frutos não só nesse ano (2º lugar e subida), como no seguinte, já que terminariam num espectacular 3º lugar, com esta posição a garantir um apuramento para a Liga dos Campeões (seriam eliminados pelo Basileia) de 2008/2009. Coincidentemente, em 2007 chegou à presidência do clube Emílio Macedo da Silva, que ficaria à frente dos destinos do emblema de Guimarães até 2012, num dos melhores períodos vividos na história do clube.

Seguindo a lógica temporal, a terceira vítima dos efeitos do apuramento para a Europa e de uma gestão menos cuidada foi o União de Leiria, que trocou de lugar com o Vitória SC em 2007/2008, ano em que caíram para a segunda liga, após realizarem um campeonato paupérrimo, fechando na cauda da Bwin Liga com só 3 vitórias, 53 golos sofridos e 25 marcados. A participação na Intertoto valeu um bilhete para a Taça UEFA, isto depois de terem derrotado o FK Hajduk, seguindo-se uma vitória frente ao Maccabi Netanya já na 2ª competição mais importante de clubes da Europa, com a eliminação a chegar logo a seguir às mãos do Bayer Leverkusen (agregado de 4-5). Esta força e resiliência mostrada na Europa não foi vislumbrada em Portugal, onde chegaram a registar uma sequência de 15 encontros sem ganhar, lançando uma grande dúvida em relação ao que se passou com um plantel que detinha Maciel, Toñito, Éder Gaúcho, Arvid Smit ou Modou Sougou, mas sem grande qualidade colectiva para garantir uma manutenção. Em jeito de quase cópia dos seus adversários de Guimarães, o União de Leiria desceu para subir logo na época seguinte, mantendo-se na primeira liga até 2012.

A 4ª situação não terminou com a descida de divisão graças à introdução do playoff, salvando-se o Paços de Ferreira nessa eliminatória a duas mãos frente ao Desportivo das Aves (3-1), isto depois de ter disputado o acesso à fase-de-grupos da Liga dos Campeões, perdido para o Zenith, abrindo a “porta” da Liga Europa. A má preparação do plantel, a estreia demasiado cedo de Costinha como treinador (treinou o SC Beira-Mar em 13 encontros e nada mais) e a falta de capacidade para lidar com um calendário mais duro, valeu aos pacenses um campeonato manchado por uma defesa sofrível (a pior, com 59 golos sofridos) que só não acabou pior porque o Olhanense, último classificado, foi incapaz de fazer um mero ponto na última jornada, que poderia ter invertido toda a situação. A 3ª experiência europeia do emblema da capital do móvel foi interessante, sem nunca ser na realidade compacta ou positiva, e serviu de lição para as duas épocas seguintes, conseguindo um 7º e 8º lugar – viriam a descer 2018.

Os dois últimos casos curiosamente encontraram-se na luta pela sobrevivência/glória no playoff da Liga NOS 2020/2021, mas recuemos até Maio de 2017, momento em que um europeu Arouca escorregou na última jornada do campeonato e acabou por iniciar uma pequena descida aos “infernos”, pois acabou no Campeonato Portugal em 2019. Lito Vidigal guiou um plantel bem articulado do Arouca ao apuramento para a Liga Europa, depois de uma extraordinária temporada em que fecharam no 5º lugar, a melhor posição alguma vez alcançado na história do emblema do distrito de Aveiro.

Num ponto curioso, os arouquenses não perderam os seus principais jogadores (só Lucas Lima, David Simão e Maurides saíram no fim da época de 2015/2016), reforçando o plantel com algumas contratações de suposta boa qualidade, o que deveria conferir um equilíbrio e capacidade ainda maior/melhor, mas que acabou por significar o contrário. De uma temporada em que registaram 13 vitórias, 15 empates e 6 derrotas, para na seguinte se ficarem em 9 vitórias, 5 empates e 20 derrotas, passando de um cenário idílico para um pesadelo autêntico, que acabou por significar alguns anos longe da ribalta da primeira liga.

EXPLICAÇÕES PARA O RÁPIDO DECLINIO… EXISTEM?

Porém, esse “inferno” terminou em 2021, com a conquista da promoção às custas do FC Rio Ave, numa eliminatória que terminou num agregado completamente surpreendente de 5-0, a favorecer os arouquenses. Na lista destas vítimas, os vilacondenses são os últimos a sofrerem este destino, e a exemplo do Vitória SC, vieram de um cenário similar mas melhor: épocas de sucesso na primeira liga, em que andaram quase sempre entre os 7 primeiros classificados (nos últimos sete anos terminaram por 5 ocasiões nessa secção cimeira da tabela) , atingindo diversas meias-finais ou mesmo finais de Taça de Portugal/Liga e realizando até boas prestações na Europa, como aconteceu nesta temporada.

Todavia, o passado-recente glorioso de nada valeu, e mesmo com um plantel recheado de referências como Francisco Geraldes, Fábio Coentrão, Tarantini, Carlos Mané, Pelé ou Diego Lopes, nunca foram capazes de encontrar o rumo certo, figurando como o pior ataque dos 18 participantes da Liga NOS 2020/2021 (25 golos marcados), tendo o plantel passado pelas mãos de quatro treinadores diferentes durante toda a época: Mário Silva entre Agosto e Dezembro; Pedro Cunha em Janeiro; Miguel Cardoso regressou em Fevereiro e foi despedido em Maio; e Augusto Gama terminou a época a dar a cara pela equipa sénior.

Pegando na situação do Rio Ave, será que este tipo de queda tão agressiva advém das trocas de treinadores? Bem, se formos analisar o Arouca de 15/16, quatro treinadores passaram pelo clube na mesma temporada: Lito Vidigal, Manuel Machado (demitido em Março), Jorge Leitão e Pedro Emanuel. Já o União de Leiria só despediu por uma vez na época da descida, rescindindo contrato com Paulo Alves para seguidamente contratar Vítor Oliveira, que não foi capaz de salvar o emblema do Lis. Paços de Ferreira, CD Santa Clara ou Vitória SC viveram em situações similares, mas os casos mais extremos couberam ao Rio Ave e Arouca, o que não permite concluir que a queda para a segunda liga adveio exclusivamente da falta qualidade ou de erros do staff técnico, ou na escolha deste mesmo. E uma combinação de factores?

Vejamos alguns elementos que combinados podem ter construído a base para a queda destes clubes:

– O iniciar a época mais cedo poderá ter criado um impacto físico de maior amplitude que a médio/longo-prazo foi nocivo (desgaste e fadiga);
– A eliminação na Europa pode ter provocado algum tipo de reação mental negativa, com parte do plantel a perder o “foco” porque já não têm a possibilidade de se mostrar nas competições internacionais;
– A necessidade de reforçar a equipa para conseguir apresentar uma equipa minimamente mais compacta, poderá ter apressado o processo de avaliação de jogadores, o que precipitou a contratação de jogadores de qualidade dúbia;
– As boas épocas rubricadas, que permitiram o apuramento para a Europa, provocou a saída de alguns jogadores nucleares, carenciado a equipa em experiência, qualidade e sincronia;

Porém, e apesar de termos postulado estes potenciais quatro factores, poderão ainda existir outras potenciais explicações para estas crises que terminaram numa descida de divisão, mas é pela combinação de elementos que estes clubes foram empurrados para o destino final da relegação, mesmo tendo, supostamente, um plantel superior aos clubes que subiram de divisão ou os que terminaram numa posição mais fraca na época anterior. De qualquer das formas, o caso do FC Rio Ave em 2020/2021 não é único, e no alcance dos últimos 20 anos vimos sete situações similares a terem lugar, ficando mais dúvidas que certezas em relação à pergunta de “como um clube passa da qualificado para uma competição europeia para tentar sobreviver à descida de divisão?”.


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