José Mourinho e Rui Borges: aguardar ou renovar?
Nas últimas semanas, as renovações de contrato de José Mourinho e Rui Borges têm sido tema de conversa. Fazendo capas, movendo debates, dividindo adeptos. É quase certo que nenhum destes técnicos vai cumprir o objetivo principal, o de ser campeão nacional, com Francesco Farioli a levar o FC Porto de novo ao primeiro lugar. Contudo, os dois treinadores alcançaram micro-objetivos, dentro do que foi a temporada, o que faz com que alguns elementos defendem o prolongamento dos seus vínculos, ambos válidos até 2027.
No caso do treinador do Benfica, José Mourinho viu-se com um plantel que não foi montado para si, que continha certas debilidades e moralmente vivia um mau momento. O seu primeiro mérito foi conseguir ‘renascer’ grande parte do grupo de trabalho, ao mesmo tempo que olhou para a formação, lançando alguns nomes na equipa A, embora tenha faltado insistência. Daniel Banjaqui, José Neto, Gonçalo Moreira e Anísio Cabral podem afirmar que foi José Mourinho o primeiro a colocá-los de águia ao peito, mas a falta de continuidade não permite a que chamemos a isto de aposta.
O Benfica também logrou a passagem ao playoff da Champions League, onde conseguiu inclusivamente fazer frente a um Real Madrid longe de outros tempos, que se prepara para viver um processo de mudança. Rui Costa confiou em José Mourinho, mesmo quando o próprio já era criticado pelos adeptos e pode conseguir a qualificação para a próxima edição da Champions League.
Um novo contrato para o setubalense não está nos planos da estrutura das águias, pese embora o interesse do Real Madrid no regresso do special one. A meu ver, o pensamento de Rui Costa está correto. José Mourinho, por muito que tenha conseguido algumas coisas de positivo em 2025/26, fez um trabalho mediano, sem acrescentar qualquer troféu ao palmarés. Outro faria melhor? Possivelmente não, mas a época realizada não lhe dá direito a pedir um novo vínculo. Caso apresente resultados positivos no começo de 2026/27, poderão existir alguns contactos exploratórios nesse sentido, mas com cautela.
Já do outro lado da Segunda Circular, Rui Borges arrancou a época como o digno sucessor de Ruben Amorim, o homem que iria conquistar o tricampeonato para o Sporting. O entusiasmo no universo leonino era justificado e durou até aos últimos dias, quando se percebeu que os verde e brancos podem acabar a época somente com uma Taça de Portugal. Frederico Varandas venceu as eleições sem prometer o prolongamento do contrato do técnico, mas deixou a entender que tal compromisso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.
Rui Borges mostrou um Sporting potente na Champions League, brilhando frente ao Bodo/Glimt e dando uma boa imagem contra o Arsenal (sem mencionar a excelente fase de liga realizada), mas na Primeira Liga ficou aquém. Os leões não se conseguiram destacar nos jogos em que o rival possuía armas semelhantes e acabou por dar um tropeção quase anedótico contra o AVS SAD, já despromovido. Uma equipa recheada de lesionados, mas que nunca pareceu muito entusiasmada a lutar pelo 2-1, autoconvencendo-se que seria impossível ganhar e continuar a lutar pelo título, dando de bandeja o primeiro posto ao Francesco Farioli. Com este resultado, o Sporting desceu mais um andar e vê-se envolvido na luta pela segunda posição, onde não depende de si.
Falhar a próxima edição da Champions League é prejudicial para o projeto do Sporting, que se tentava afirmar como o líder do futebol português. Jogar a Europa League é pouco entusiasmante, não dá dinheiro e prestígio. Os adeptos dos verde e brancos reconhecem o retrocesso que é ficar em terceiro lugar, depois de dois anos no topo, mesmo que a ‘enfermaria’ tenha estado cheia toda a temporada (o departamento médico deveria sofrer uma revisão profunda). Pode haver festa no Jamor, mas não enche o coração dos sportinguistas.
Tal como no caso de José Mourinho, a direção deveria aguardar o começo da próxima época para renovar com Rui Borges, já que no computo global, a sua continuidade está mais do que justificada, mas não com um prémio. O Sporting fez uma ótima figura na Champions League, mas na Primeira Liga pode não cumprir o mínimo que lhe foi exigido.
As direções deverão ter cada vez mais cautela com o tempo contratual oferecido aos treinadores, já que as próprias estão cada vez com menos paciência para resultados inferiores ao esperado. Nos últimos anos, Roger Schmidt, Bruno Lage (primeira passagem) ou Martín Anselmi foram demitidos quando ainda tinham tempo a cumprir. As indeminizações não são baratas e as estruturas têm que ser mais cautelosas na hora de mostrar um novo contrato.
No caso de José Mourinho e Rui Borges, existem mais formas de Benfica e Sporting demonstrarem que confiam neles para os próximos tempos. Contratar jogadores que encaixem nas suas ideias, ouvirem as ideias dos treinadores, fazê-los uma referência no projeto desportivo. Renovar um contrato não é a única forma de afirmar ‘contamos contigo’. A prova disso é que os vínculos são válidos até 2027.
Benfica e Sporting deveriam assim aguardar até ao começo da próxima época (já que contam de facto com José Mourinho e Rui Borges), analisar os resultados e o começo de temporada. Em caso de tudo estar a correr na normalidade, avançar com as propostas, dentro das condições das instituições.



