João Henriques, um treinador que merece outros vôos

Francisco IsaacJulho 20, 20205min0

João Henriques, um treinador que merece outros vôos

Francisco IsaacJulho 20, 20205min0
O treinador do CD Santa Clara tem mostrado particularismos que merecem atenção por parte de clubes de maior dimensão. É altura de João Henriques dar o salto para um dos "grandes"?

Da Liga NOS 2019/2020 alguns treinadores destacaram-se durante a época, seja antes da paragem a meio da temporada ou depois, como João Pedro Sousa (para a maioria era visto como um perfeito desconhecido que na maior parte da sua carreira foi adjunto), Rúben Amorim (em 20 jogos garantiu 15 vitórias, sendo o treinador com melhor registo em 2019/2020), Ivo Vieira, Carlos Carvalhal (fez falta ao futebol luso ter o experiente técnico em Portugal), Daniel Ramos e João Henriques.

É precisamente o actual treinador do Santa Clara que merece um destaque especial, depois de ter guiado novamente o emblema açoriano à permanência com um plantel supostamente menos valorizado em comparação com os seus mais directos adversários que estão na luta pelo top-8, onde um futebol estruturado, lógico e que postulava um condicionamento das movimentações no centro do terreno de jogo, sem esquecer a predileção por montar um contra-ataque estupendamente rápido e inteligente que causou problemas contra o SL Benfica, no jogo da 2ª volta.

Podendo ainda não ser detentor de uma grande carreira em termos de número de jogos nos dois principais escalões de futebol em Portugal, a verdade é que nas duas últimas temporadas tem impressionado na Primeira Liga, impondo dificuldades constantes a quem visita o campo do Santa Clara, inclusivé os emblemas de dimensão europeia como o FC Porto, SL Benfica, Sporting CP, SC Braga ou Vitória SC (nunca os bracarenses ou vimaranenses registaram um resultado positivo em Ponta Delgada).

O registo frente a estes cinco clubes não é perfeito e nem é espectacular, já que nunca derrotou os dragõesleões por exemplo, sendo que a vitória história conseguida no campo do actual campeão nacional pode cair no debate de que esse feito foi alcançado devido ao mau momento vivido na altura pelas águias. Contudo, o que não pode ser recusado ou negado é a qualidade de jogo dos açorianos ou da consistência táctica vigorada que tem catapultado o plantel de João Henriques para estar sempre entre os melhores 10 clubes do campeonato, seja a nível de classificação ou de qualquer outro parâmetro. Mas o que permite dizer que João Henriques devia ter (ou merecer) a oportunidade de estar envolvido com um clube que esteja a jogar nas competições europeias?

Se utilizássemos só palavras-chaves para compor a argumentação seria pela competência na liderança de um plantel, a inteligência na avaliação do adversário e no encontrar o equilibrio táctico e a eloquência e cultura futebolística que confere outra confiança aos comandados.

As equipas de João Henriques não são de “viver” encostadas ao seu meio-campo, esperando por um erro ou falha da formação contrária para se aventurar numa rápida incursão no bloco defensivo adversário… não, o futebol que João Henriques procura e impõe é na procura de submeter uma pressão alta no meio-campo ofensivo, no desenhar de movimentações que estimulem um expandir no jogo nos corredores para depois optar por tabelamento que pode gerar uma oportunidade dentro da grande área ou num arrancada da lateral para o centro que depois origina normalmente um remate traiçoeiro.

É uma forma muito simplista de descrever alguns dos processos da mobilidade ofensiva do Santa Clara de João Henriques, já que existem outros pormenores e detalhes que revelam uma profundidade e lógica não só eficiente mas também atractiva, de grande envolvimento de quase todas as unidades para darem outra expressão e dinamismo às incursões até à baliza do adversário.

Na defesa e meio-campo defensivo é fundamental perceber que o controlo expressivo pode ser feito sem a bola nos pés, pois o objectivo é forçar um mastigar da redonda pelo próprio adversário, que mesmo conseguindo um ligeiro avanço pelos corredores, nunca tem de facto uma via aberta clara para a área do emblema açoriano, sendo visto como uma armadilha defensiva de categoria e que na época passada valeu-lhe o 7º lugar entre as  defesas menos imaculada (45 golos sofridos), sendo que na actual temporada desportiva está para já na 7ª posição com apenas 39 golos sofridos, quando faltam se jogar uma jornada. Existe uma subtilidade no mecanismo mais recuado da estratégia do treinador do Santa Clara, que nada tem a ver com agressividade expressiva ou uma fisicalidade desmedida de falta insistente – ocupa o 6º lugar de equipas que menos falta comete, com uma média de 15 por jogo – mas sim com a profundidade dos centrais, várias vezes co-ajudados pelos médios-centros (Rashid é soberbo nesta função, bem partilhada por Anderson Carvalho) encontrando-se aqui um equilibrio quase natural, sempre bem notado nas equipas treinadas por João Henriques.

Ou seja, futebol (bem) pensado com contornos, ardiloso na construção das linhas de passe para o ataque e paciente na forma como processa a missão defensiva, desenvolvendo-se uma composição compacta que tem pautado este CD Santa Clara da Liga NOS. Há um dedo claro e notório de João Henriques no sucesso do emblema açoriano, que garantiu uma manutenção estável nestas duas temporadas e este cenário abre um caminho para a possibilidade do treinador dar o salto – não se trata de desrespeito ao Santa Clara, atenção – para um emblema que tem a visão focada a ir à Europa, colocando-lhe nas mãos um plantel de outro calibre e de um patamar superior como o SC Braga ou Vitória SC ou, porque não, um FC Porto ou SL Benfica?

Podendo parecer estranho avançar com esta ideia de colocar o treinador de 47 anos na rota dos clubes de maior dimensão em Portugal, a verdade é que os ideias de jogo e o brilhantismo da estratégia são determinantes e raros até de ver em território nacional – Ivo Vieira e João P. Sousa encaixam neste perfil também -, e é altura decididamente de se dar a oportunidade a João Henriques para “ouvir o hino da Champions”, como o próprio já fez questão de mencionar.

Uma das melhores exibições da época do Santa Clara


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