FC Porto dominou o Clássico. E agora?

Rui MesquitaAgosto 29, 20197min0

FC Porto dominou o Clássico. E agora?

Rui MesquitaAgosto 29, 20197min0
O FC Porto dominou e venceu o Clássico na casa do rival SL Benfica mas como? E que ilações podemos tirar deste jogo entre dois dos candidatos ao título?

O primeiro grande jogo da Liga NOS 2019/2020 jogou-se ontem no Estádio da Luz e terminou com uma vitória do FC Porto sobre os campeões nacionais na sua casa. Interessa agora perceber como esta vitória no Clássico surgiu e o que ela implica para o resto do campeonato.

Uma pressão e um Clássico ganho

A vitória do FC Porto num dos terrenos mais complicados do campeonato frente ao maior rival na luta pelo título não surgiu por acaso. A vitória foi mais que merecida e apareceu pela estratégia montada por Sérgio Conceição. O Porto de Conceição teve e tem um futebol assente nas transições rápidas e no futebol vertical que jogadores como Marega dão à equipa. A previsibilidade de que é várias vezes acusado surge da zona do terreno onde começam essas transições. A aposta em passes longos torna a tarefa mais fácil aos defesas adversários.

No jogo de frente ao Benfica a estratégia foi outra. Recuperar a bola perto da área adversária e criar a verticalidade logo aí. Não só isso tornou o futebol mais rápido e imprevisível como anulou uma das forças deste Benfica de Bruno Lage: a construção. Com a pressão alta e sufocante que fez durante os 90 minutos, o Porto obrigou os centrais e os dois médios do Benfica a decidir muitas vezes mal e tirou partido disso.

No duelo tático venceu Sérgio Conceição (Foto: Record)

Vimos várias vezes o meio-campo do Porto sufocar o “miolo” encarnado e, sem grandes demoras, apontar setas à baliza adversária. Danilo e Uribe secaram as saídas do Benfica e, com a bola disponível em zonas altas do terreno foi deixar os da frente brilhar. Diaz e Alex Telles cilindraram Nuno Tavares e Marega conseguiu sempre baralhar os centrais do Benfica.

Sim, o primeiro golo surge de um ressalto na bola parada mas o jogo teve maioritariamente um sentido graças a isso. O Porto teve mais oportunidades e mais perigo com um par de boas defesas de Vlachodimos a evitar outro resultado. O Porto jogou melhor e de forma mais inteligente limitando as forças dos encarnados e potenciando as suas.

O segundo golo nasce da capacidade de meter velocidade e verticalidade em zonas altas. É certo que a lesão de Chiquinho contribuiu mas a rapidez com que Corona lança Marega é elucidativa da estratégia de Sérgio Conceição para o Clássico.

Um relógio parado acerta as horas… zero vezes

O Benfica de Lage é um relógio que esta época ainda não tinha parado. Mas como qualquer relógio, basta uma roda dentada parar para o aparelho bloquear. No Clássico essa roda foi o eixo Pizzi-Rafa que tem sido o abono desta equipa. Os dois portugueses são os jogadores que mais jogam e fazem jogar a equipa encarnada. O Porto contou com os dois pouco inspirados e limitou a bola que, sobretudo Rafa, teve durante todo o jogo.

Como foi falado acima, o Porto tentou bloquear sempre o centro do terreno do Benfica, obrigando a jogar pelas linhas. Apesar disso, os encarnados insistiram no centro porque é onde criam mais desequilíbrios. Foi assim na época passada com João Félix e Lage quer manter isso. O senão é que Raúl de Tomas não tem essa capacidade de desequilibrar e Seferovic muito menos. Daí a dupla Pizzi-Rafa ter começado tão bem a época. Os dois “extremos” fletem muito para o meio para ocupar o espaço deixado pelos dois avançados nas suas costas e fazem a diferença. No Clássico faltou paciência a jogar com os laterais abertos até se abrir o espaço para um dos dois ou para RDT no meio.

Sobravam as alas e com elas o Benfica fez pouco. Muita impaciência que resultou em cruzamentos fáceis para uma dupla forte como Pepe e Marcano.

A lesão de Gabriel deixou o Benfica com uma falha no “miolo” (Foto: Record)

A criação de que já falamos foi outro problema para Bruno Lage. O técnico encarnado admitiu que a entrada de Taarabt pretendia melhorar a circulação mas a aposta inicial numa dupla paralela de Florentino e Samaris mostrou-se parca para um jogo desta exigência.

A lesão de Gabriel tirou aos encarnados muito poder de construção que Bruno Lage terá de encontrar. A lesão aparentemente grave de Chiquinho agrava ainda mais o problema e poderemos ver Taarabt assumir a titularidade em breve. O médio marroquino parece contar a sério para Bruno Lage e pode ser uma boa solução.

Nada ficou decidido mas muito ficou mostrado

Os dois treinadores foram bem claros antes e depois do encontro: este jogo não era/é, de todo, decisivo. Ainda falta muito campeonato e há muito por jogar. Apesar disso, há muito que se pode retirar deste encontro.

Quem achava que o Benfica ia ter um passeio no campeonato teve uma surpresa, uma dupla surpresa. O Benfica mostrou-se não tão forte como seria de esperar e o Porto mostrou-se mais capaz.

A dupla RDT-Seferovic teima em não encaixar e, apesar de Lage se ter mostrado despreocupado, a situação é problemática. A saída de João Félix não abriu apenas um lugar no 11 mas também um buraco no sistema que tornou o Benfica campeão. Falta um homem a jogar e decidir entre linhas. Tanto Pizzi como Rafa tentam ser esse homem a partir das alas mas nenhum dos avançados parece ter essa capacidade.

Zé Luís está em grande forma e foi preponderante no Clássico (Foto: Record)

A aposta em Chiquinho pode ser uma boa solução (a lesão contraída inviabiliza a aposta) mas Lage parece querer manter esta dupla que ainda não deu frutos.

No caso do Porto, depois do caos do início de época a equipa mostra que é um sério candidato ao título. Um 11 agressivo e capaz de manter durante 90 minutos uma intensidade essencial para este sistema. Zé Luís está numa forma fantástica e Luís Diaz tem o talento e a “ingenuidade” caraterística de um extremo sul-americano. Os dois aproveitaram bem a fragilidade de Nuno Tavares e criaram sempre problemas à baliza adversária.

Como os dois timoneiros frisaram, o Clássico foi tudo menos decisivo, mas foi muito elucidativo. Mostrou que os dois rivais estão mais equilibrados do que parecia e há muito trabalho a fazer de ambos os lados. Resta-nos esperar e ver qual das equipas trabalha melhor e chega na frente ao próximo Clássico e, claro, ao final do campeonato.


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