As linhas inultrapassáveis de um projecto: o caso de Pepa e o Vitória SC

Francisco IsaacJulho 15, 20227min0

As linhas inultrapassáveis de um projecto: o caso de Pepa e o Vitória SC

Francisco IsaacJulho 15, 20227min0
Pepa foi demitido do Vitória SC num caso estranho e que remete para um confronto entre objectivos pessoais, colectivos e do clube que vale a pena olhar

Linhas intransponíveis ou inultrapassáveis, ou, como disse António Miguel Cardoso “há linhas que não se podem cruzar.”, em relação ao assunto Pepa, que acabou com a demissão do treinador quando estamos perto do arranque oficial da época, lembrando da qualificação para a Conference League, do qual os vitorianos participaram no final deste mês de Julho.

O projecto de uma direcção versus o projecto do treinador-principal, é este o cenário apresentado neste caso que deixou alguns poucos perplexos, não sendo, no entanto, uma total novidade no futebol português, isto porque em 2004 o FC Porto demitiu Luigi Del Neri quando os Dragões estavam prestes a fechar a pré-época. Antes de irmos a esse momento que acabou por ser crítico para uma nova boa temporada dos azuis-e-brancos, é importante perceber ou, pelo menos tentar entender, o que está nas entrelinhas desta rescisão imediata de Pepa do comando do Vitória SC. Retornando às palavras do actual presidente do emblema vimaranense,

“Havia claros sinais de que havia desalinhamento em termos do projeto do Vitória. Isso foi muito claro. A partir do momento em que aconteceu este desalinhamento, tivemos de ser flexíveis [nos últimos tempos]. Mas ontem tivemos uma reunião para falar de uma potencial contratação e o treinador Pepa excedeu determinados limites. A partir desse momento, a linha foi ultrapassada, e eu não tinha outra hipótese a não ser trocar de treinador. O caminho estava perfeitamente desalinhado e acabou ontem. O Pepa merece todo o nosso respeito pelo trabalho que fez, mas há linhas que não se podem cruzar.”.

O que é perceptível neste excerto do comunicado oficial da direcção do Vitória SC? Em primeiro lugar, que Pepa é demitido não por não estar dentro da lógica pensada ou idealizada por António Miguel Cardoso e a restante direcção, mas porque continuamente fez críticas públicas à gestão e abordagem ao mercado de transferências (seja contratações, saídas, renovações ou manutenção de jogadores), considerando que o treinador estaria a trair, de certa forma, um compromisso apalavrado aquando da entrada desta nova administração.

Em segundo lugar, o facto de Pepa ter excedido determinados limites que vão para lá do exequível, e que cairão sempre dentro do reino das conjeturas perante a falta de esclarecimento total dos intervenientes, não valendo a pena tentar “inventar”, sendo mais importante perceber que ambos estavam no fim-da-linha da sua relação profissional.

A cisão chegou, ambas as partes decidiram seguir cada um o seu caminho e o Vitória SC vê-se forçado a entrar na segunda metade da pré-época com uma mudança ligeira de paradigma – Moreno, o novo treinador-principal, já afirmou que não fara alterações profundas ao plano de Pepa -, não sendo um elemento encorajador para quem procura continuar no top-6 da Primeira Liga portuguesa. Porém, terá Pepa alguma réstia de razão perante as críticas e observações realizadas em relação ao plantel que estava a ser-lhe apresentado (ou forçada?)?

Possível, sobretudo porque caso o “seu” Vitória realizasse uma má temporada ou arranque, acabaria por ser o técnico a dar a cara e a enfrentar as consequências de não ter sido capaz de guiar um histórico como o Vitória SC a um bom momento de forma ou classificação, apesar de ter conseguido sobreviver uma época com um elenco que não tem capacidade para ir além de um 8º ou 10º lugar, isto num cenário hipotético. Ou seja, a direcção poderia sempre imputar responsabilidades pelos resultados a Pepa, mesmo sabendo esta que o plantel fornecido não era o melhor para garantir os objectivos pretendidos pela administração ou treinador, oferecendo uma espécie de “fruto envenenado”.

A somar a este aspecto, temos de considerar outra variante: de não sabermos o que foi discutido e apalavrado em privado. Contudo, pela reacção negativa de Pepa perante a forma como o Vitória se mexia/mexe no actual mercado de transferências – ausência de reforços dignos desse nome, saídas a custo-zero, vendas apressadas, etc -, adicionando ainda a possibilidade de se dar a venda de outros activos de importância, como o médio André Almeida, é possível que exista um desencontro perante as pretensões da direcção e do treinador, chegando esta discussão ao âmbito público, algo que António Miguel Cardoso quis evitar, não só para proteger os jogadores jovens, como disse no comunicado oficial, mas também para blindar, de certa forma, a sua administração de potenciais críticas por parte dos adeptos e sócios do clube.

Afastando-nos deste caso em específico, se observamos de “cima”, é possível perceber que a existência de um diferendo entre direcção e equipa técnica é algo nocivo para o clube, e quanto mais tempo se deixa arrastar, pior o será, como foi o caso com Jorge Jesus e o SL Benfica – exigência constante de novos reforços e reformulações do plantel que iam contra a vontade do departamento de futebol -, ou a tal situação entre Luigi Del Neri e o FC Porto, que acabaram por chegar a um acordo de rescisão em virtude do treinador exigir um certo tipo de reforços que não eram vistos como necessários pela direcção liderada por Jorge Nuno Pinto da Costa quando se tinha terminado o estágio fora de Portugal (primeiros dias de Agosto de 2004).

Do espectro oposto temos a harmonia e sinergia comum, que podemos encontrar, por exemplo, no Sporting, entre a SAD liderada por Frederico Varandas (e Hugo Viana) com Rúben Amorim, existindo um discurso concertado e combinado, onde nunca são vistas/ouvidas informações negativas para a comunicação social sobre a relação entre estes dois lados, mesmo que os objectivos de A ou B não estejam a ser atingidos/totalmente cumpridos, seja por não se ter ganho troféu X, ou por não ter vindo o jogador Y.

Perante isto, a situação actual do Vitória SC acabou por forçar uma saída a frio de um treinador que tinha traçado outra ideia e estratégia para esta época, muito por conta dos interesses e possibilidades do clube não conseguirem ir de encontro à ambição de Pepa, encapotada, no entanto, por um despique contínuo entre as partes que forçou esta conclusão. Curiosamente, o Vitória SC já acumulou mais de 10M€ em vendas neste defeso de 2022, gastando só 500m€ em contratações – pelo menos as anunciadas -, onde se registaram ainda quatro saídas a custo-zero e que não haverá para já preenchimento das vagas com atletas de igual ou superior craveira, estando aqui um potencial desinvestimento fruto das dívidas que os vimaranenses padecem, e do qual António Miguel Cardoso nunca escondeu.

A questão máxima está dividida em três mini-interrogações: porque é que Pepa aceitou ficar após o fim da temporada se António Miguel Cardoso tinha comunicado o apertar do cinto? Qual é o projecto actual do Vitória SC, para além do querer se tornar sustentável com corte de várias “gorduras”? E quais são os limites que um treinador pode transpor na procura de atingir os seus objectivos? A todas elas, dependerá se o antigo treinador dos minhotos decidir revelar os acontecimentos factuais, sendo que a segunda questão só o próprio clube terá capacidade de resposta, enquanto a terceira e última fica a cabo de quem concebe os departamentos de futebol e desportivos.

No meio disto tudo, a direcção de António Miguel Cardoso terá de mostrar que tem projecto e ideias isto depois de terem despedido o director-desportivo (Diogo Boa Alma) e treinador-principal, permitindo ainda a venda de diversos activos, podendo se dar a saída de mais uns quantos, sem terem capacidade de encontrar contratações de quilate para corresponder com as lacunas deixadas no plantel.


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