Real Sociedad, um mágico e a arte do bom futebol

Bruno DiasNovembro 29, 20206min0

Real Sociedad, um mágico e a arte do bom futebol

Bruno DiasNovembro 29, 20206min0
Um ano depois da nossa última análise, o que mudou na Real Sociedad? Vamos descobrir.

Há sensivelmente um ano atrás, escrevia por aqui sobre um projecto jovem e entusiasmante no futebol espanhol, originário de um clube histórico em Espanha. A Real Sociedad coleccionava um interessante conjunto de talentos em tenra idade, não só provenientes da sua formação (que anualmente alimenta o plantel principal com muita qualidade e potencial) mas também vindos do estrangeiro.

Pouco mais de um ano depois, o projecto atinge porém um novo marco positivo. Com 10 jogos realizados, a Real Sociedad soma 23 pontos e é líder da “La Liga”. Mais impressionante ainda, a equipa que continua a ser treinada por Imanol Alguacil leva já 6 vitórias consecutivas na competição, podendo daqui a poucas horas somar a sétima no seu terreno, frente a outra das equipas-sensação desta temporada espanhola, o Villarreal.

Um registo que certamente colocará os adeptos a sonhar com voos bem altos, sendo que as fracas prestações de Real Madrid e Barcelona no campeonato, até ao momento, fazem acreditar na possibilidade da Real regressar à Liga dos Campeões, competição onde já não participa desde a época 2013/14.

Mas será que mudou assim tanto, no espaço de um ano, para que este registo vitorioso encontre na mudança a sua justificação?

O plantel

Em relação ao plantel e à estrutura-base da equipa, as mudanças são ligeiras e, na maioria dos casos, pouco significativas. Imanol mantém-se no comando técnico e o plantel não sofreu grandes alterações. Saiu Martin Odegaard e chegou o seu substituto (do qual falarei melhor abaixo), e saiu também Diego Llorente para o Leeds, que pagou 20M€ pelo espanhol após confirmar o regresso à Premier League. Em sentido contrário, as contratações chegaram… da formação, pois claro. Martin Zubimendi e Roberto López (de quem falamos recentemente, no “La Liga Scouting“) são mais dois jovens talentosos da formação da Real Sociedad, que continua a encontrar em “casa” aquilo que provavelmente custaria vários milhões de euros para encontrar no mercado de transferências.

A baliza está entregue a Asier Remiro que, aos 25 anos, se assume cada vez mais como uma solução segura e para largos anos na baliza dos bascos de San Sebastián, podendo até, porventura, almejar chegar às convocatórias da selecção espanhola. À sua frente, o quarteto defensivo é normalmente constituído por Zaldua à direita e Nacho Monreal à esquerda, com Elustondo e Le Normand a assumirem o eixo defensivo. Gorosabel, Aihen Muñoz e Modibo Sagnan são as restantes opções para esta zona do terreno.

No miolo, há um nome que se destaca: Mikel Merino. Aos 24 anos, o médio é o barómetro de todo o futebol da Real Sociedad, tendo-se assumido como uma peça indispensável à frente da defesa. Ander Guevara, Illarramendi, Zubimendi e Zubeldia complementam as opções para este sector. Mais à frente, Roberto López é alternativa na posição “10”, com as alas entregues a Portu, Barrenetxea, Januzaj e ao “craque” desta formação, o internacional e capitão Mikel Oyarzabal. Já no ataque, Alexander Isak e Willian José assumem as despesas como “goleadores de serviço”, sendo que o sueco continua a demonstrar um potencial massivo mas que, porém, ainda não surge de forma consistente.

Uma mistura saudável de talento e experiência, num plantel que já se conhece e que já joga junto há algum tempo, o que também contribui para um aprimorar das rotinas e da qualidade de jogo colectiva.

(Foto: junipersports.com)

 

A figura

Tal como no artigo original, a figura da equipa mantém-se na mesma zona do terreno. É o “10”, o mago, o maestro do conjunto, que assume a batuta e a utiliza para ditar a forma e o ritmo a que esta formação joga. Altamente criativo, os espaços curtos são o seu habitat natural, e a capacidade de simultaneamente associar e desequilibrar através do passe é tão incomum quanto brilhante.

No entanto, o jogador de quem falamos aqui já não é o mesmo. Martin Odegaard demonstrou toda a sua infindável qualidade e talento na La Liga 2019/20, e regressou a Madrid, para ser opção no Real Madrid de Zinedine Zidane. Para o seu lugar, chegou uma autêntica lenda do futebol espanhol. Após uma década em Inglaterra, onde construiu um legado praticamente inigualável no Manchester City, David Silva regressou a Espanha para viver os últimos anos da sua carreira futebolística, e fê-lo de forma surpreendente, ao assinar pela equipa basca quando todos esperavam um regresso a Valencia, onde despontou para o futebol.

Uma contratação fantástica, que encaixa na perfeição no espaço vazio deixado pelo dinamarquês e que mantém o nível altíssimo no que à qualidade e talento diz respeito. Com Silva, a Real perde um pouco na capacidade de quebrar linhas através do drible e na explosão que Odegaard – mais jovem e noutro patamar atlético, em virtude de também se encontrar numa fase bem distinta da sua carreira – trazia para o jogo. Por outro lado, ganha na gestão do ritmo, na forma como escolhe o momento certo para acelerar e abrandar. Ganha também no critério com que faz a bola circular, na forma como descobre as melhores opções para prosseguir a jogada, dentro da sua estrutura ofensiva.

Com Silva – cujas qualidades quase dispensam apresentações -, a Real tem-se transformado numa equipa mais coesa e fluída quando tem a bola, algo que não acontecia de forma tão consistente com Odegaard. E isso tem feito toda a diferença na forma como a equipa controla o rumo das partidas, tanto com bola como nos momentos em que não a tem. É discutível se o espanhol será ainda um melhor jogador do que o dinamarquês em muitos aspectos, mas é inegável que a sua experiência e sabedoria transformou, por sua vez, a Real numa equipa mais madura e estável.

(Foto: theathletic.co.uk)

Aos 34 anos, Silva ainda é sinónimo de qualidade, espectáculo e magia. E não só a Real Sociedad sai a ganhar com isso, como saem igualmente todos aqueles que gostam do jogo e que apreciam… a arte do bom futebol.


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