O regresso dos “verdiblancos”: Manuel Pellegrini e o Real Betis

Bruno DiasAbril 15, 20216min0

O regresso dos “verdiblancos”: Manuel Pellegrini e o Real Betis

Bruno DiasAbril 15, 20216min0
Depois de um período menos positivo, o Real Betis parece estar de volta aos lugares cimeiros da "La Liga". O mérito é de uma "velha raposa".

A cidade de Sevilha tem sido o palco de grandes momentos e grandes conquistas no futebol, nos últimos anos. Porém, esses momentos e essas conquistas têm vindo, quase sempre, para a “metade vermelha” da cidade, associadas a um Sevilla que tem crescido exponencialmente em épocas recentes para um patamar superior no panorama do futebol espanhol e europeu.

Não é, então, de estranhar que na “metade verde” da cidade exista uma ambição semelhante àquela que orientou os “rojiblancos” para a conquista de duas edições da extinta Taça UEFA, e de quatro edições (recordista da prova) da Liga Europa. Há vários anos que o Real Betis procura assumir-se como um clube europeu, deixando assim de parte um estatuto de clube médio do futebol espanhol que persegue o clube há várias décadas.

Para tal, e depois de um projecto atribulado com Quique Setién – com vários pontos muito positivos, mas igualmente com alguns momentos negativos -, medianamente sucedido por Rubi, o escolhido para “relançar” a visão desportiva do clube foi Manuel Pellegrini, a “velha raposa” chilena, já com um histórico recheado de trabalhos bastante meritórios ao mais alto nível, como o Manchester City ou o Málaga.

 

Como joga o Betis de Pellegrini

Não desdenhando a sua capacidade de criar um modelo de jogo sólido e competente “a partir do zero”, Pellegrini é um mestre na arte de potenciar as bases de qualidade que encontra em cada clube por onde passa. A sua chegada ao Betis não foi excepção, sobretudo tendo herdado vários jogadores que trabalharam ainda com Quique Setién, o precursor de uma filosofia assente no controlo do jogo através do controlo da bola, e do ritmo a que esta é jogada.

A essa base bem definida, Pellegrini decidiu incutir uma maior segurança defensiva. É um facto que, em certos momentos, Setién (que, embora tenha sido depois sucedido por Rubi, teve claramente uma mão bem mais influente do que o catalão em vários princípios de jogo que ainda hoje são bem visíveis na equipa) conduzia o Betis para um futebol algo desequilibrado, partido e que não se preparava da melhor forma para a perda de bola. É também verdade que essa equipa não reflectia em golos a sua capacidade de criar oportunidades de finalização (em parte pela ausência de um finalizador de qualidade, algo que no entanto não justifica totalmente esse facto).

Foi portanto natural que, embora com algumas dificuldades iniciais, o Betis de Pellegrini esteja agora a encaminhar-se para uma estabilidade ao nível da qualidade de jogo e dos resultados obtidos. Para tal, muito contribuem as excelentes temporadas de elementos defensivos como o experiente guarda-redes chileno Claudio Bravo (do alto dos seus recém-realizados 38 anos), o central Aissa Mandi, o médio-defensivo Guido Rodríguez (que conquistou definitivamente um lugar no 11 em detrimento do português William Carvalho, assolado por várias lesões que o têm impedido de jogar regularmente) ou a “jóia” Emerson Royal, lateral-direito emprestado pelo FC Barcelona, que cresce a olhos vistos e que apresenta um potencial massivo.

No ataque – para além da figura da equipa, de quem falarei mais abaixo – sobressai o colossal talento de Nabil Fekir, criativo francês de qualidade inegável. Também importante é a sagacidade de Borja Iglesias na frente de ataque, a irreverência e a verticalidade de Cristian Tello ou Diego Lainez e, claro, a classe e consistência do “eterno” Joaquín, capitão e lenda do clube que, com 39 (!!) anos, mantém um nível exibicional impressionante e invejável.

Um misto de qualidade individual e de organização colectiva, sempre presente no 4x2x3x1 de Pellegrini, que facilmente se desdobra noutros sistemas consoante o adversário e as necessidades da equipa perante o contexto do jogo, e que todos os elementos interpretam de forma cada vez mais natural. Os resultados, esses, começam a estar à vista.

(Foto: talksport.com)

 

A figura: Sergio Canales

Aos 30 anos, e depois de graves lesões que comprometeram irremediavelmente a dimensão da sua carreira, Canales encontrou no Benito Villamarín uma “casa” que lhe tem permitido explanar todo o seu futebol. Aquele que é jogado de pantufas, quase deslizando sobre o relvado, pintando todos os lances de uma cor positiva, alegre, animada. O tipo de cor que atrai de imediato até o mais indiferente dos adeptos.

A partir do meio-campo ofensivo, pauta toda a posse de bola dos “verdiblancos, gere o ritmo a que a partida se joga quando a bola está consigo, organiza as possibilidades de ataque da sua equipa e cria lances altamente prometedores mesmo a partir de situações aparentemente inofensivas e inócuas.

Para tal, muito contribui uma superlativa qualidade técnica, repleta dos mais variados recursos ao nível do passe e do drible, combinada com uma leitura e visão do jogo que, em tempos – noutros tempos, já algo longínquos, de maior pujança atlética e irreverência – fizeram de Canales um dos mais antecipados e promissores jovens talentos do futebol espanhol, numa era em que este brilhava mais alto do que nunca.

A essa elegância e requinte técnico, o médio criativo nascido em Santander foi adicionando também uma maior capacidade finalizadora, que se vai reflectindo agora numa maior influência directa nos resultados conquistados pela sua equipa.

Estatisticamente a realizar a melhor época da sua carreira (conta já com 9 golos e 6 assistências em 27 jogos, divididos entre campeonato e taça), tem sido absolutamente preponderante na caminhada do Betis rumo aos lugares europeus, ambição há muito perseguida pelo clube, sobretudo depois do já referido estrondoso sucesso europeu que o seu grande rival Sevilla tem alcançado em anos recentes. Se os “verdiblancos” de Pellegrini conseguirem manter o actual lugar da classificação na “La Liga” – que os qualifica para o ambicionado regresso à Europa – é certo que muito o deverão ao génio e ao talento de Sergio Canales.


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