La Liga Scouting #36 – Lucas Boyé (Elche CF)

Bruno DiasMarço 17, 20225min0

La Liga Scouting #36 – Lucas Boyé (Elche CF)

Bruno DiasMarço 17, 20225min0
Edição #36 do "La Liga Scouting", espaço dos jovens e não tão conhecidos talentos do futebol espanhol. Desta vez, vamos até Elche.

Bem no coração da província de Alicante, pertencente à Comunidade Valenciana, Elche é o palco de uma das equipas mais intrigantes da “La Liga” 2021/22. Não são tanto os resultados (à data desta publicação, ocupam a 14ª posição, com 32 pontos) que fazem do Elche CF um foco de interesse. O clube é tradicionalmente modesto na dimensão e nas suas ambições desportivas – um pouco à semelhança do próprio município onde se localiza -, e raras são as temporadas onde existem estrondosos sucessos dentro das quatro linhas ou atractivos talentos individuais, de um nível acima daquele que é comum no estádio Martínez Valero.

Porém, esta temporada apresenta-se como uma excepção a essa regra, e tudo graças a um conjunto de jogadores de um perfil específico que se juntaram no mesmo balneário. Composto actualmente por 10 jogadores sul-americanos, o plantel treinado por Francisco Rodríguez colecciona um número incomum de atletas acima da média no plano técnico e criativo do jogo, e isso é depois naturalmente transposto para dentro das quatro linhas, resultando numa equipa que nem sempre defende da melhor forma, mas que é capaz de criar situações de golo a praticamente qualquer adversário.

Uma das principais figuras dessa “colecção” peculiar é Lucas Boyé. Com 26 anos recém-cumpridos, o avançado formado no River Plate parece finalmente ter encontrado no clube espanhol um contexto estável para uma evolução no seu futebol e para a demonstração do talento acima da média que sempre possuiu.

Nascido na Argentina mas também com nacionalidade italiana, Boyé sai da América do Sul rumo a Itália e ao Torino, em 2016, a custo zero. Embora tendo múltiplas oportunidades, a sua adaptação ao futebol europeu tarda em surgir, e seguem-se sucessivos empréstimos a Celta de Vigo, AEK e Reading.

É então que, em 2020 e depois de uma temporada claramente fracassada em Inglaterra, o avançado argentino chega ao Elche em novo empréstimo. Inserido num futebol tipicamente mais próximo das suas qualidades, relança o seu rendimento nos relvados e termina a época em Espanha com 7 golos apontados e excelentes apontamentos para o futuro.

(Foto: marca.com)

As suas prestações em 2020/21 convenceram o clube valenciano a avançar então para a sua contratação definitiva, pagando cerca de 3M€ ao Torino e garantindo o argentino até 2024. E Boyé tem correspondido dentro de campo a essa aposta, contando já com 7 golos e 3 assistências em 21 jogos, números praticamente iguais aos que obteve na temporada passada, mas aí em 34 partidas. Prova de que também a estatística reflecte o crescimento comprovado que se observa “a olho nu”.

Números e exibições que poderão ser o catalisador para os voos mais altos que outrora se auguraram para este talento argentino.

O futebol de… Boyé

Lucas caracteriza-se, principalmente, por ser um avançado de um perfil bastante abrangente.

Tem a capacidade de actuar como a principal referência da zona central do ataque (num 4x3x3, por exemplo), mas é com maior liberdade posicional e companhia na frente que se sente mais confortável. Muito ligado ao jogo, oferece apoios de qualidade aos colegas para facilitar a progressão no terreno, move-se por toda a frente de ataque e não tem receio de assumir iniciativas individuais e de procurar constantemente receber a bola (mais no pé, entre linhas, do que em profundidade).

Encontra-se completamente à vontade em espaços curtos, pois são situações onde pode dar uso à sua qualidade no drible e à criatividade natural com que procura solucionar problemas aparentemente complicados no meio-campo ofensivo. No entanto, é também um jogador de “campo aberto”, maioritariamente devido à combinação da sua morfologia (possante, utiliza o seu 1,81m para levar a melhor em vários lances aéreos e divididos) e do seu potente arranque, aspectos que lhe conferem mais alguns recursos-extra, como a possibilidade de “galgar” vários metros em progressão nos momentos de transição (acção que “casa” na perfeição com o estilo ofensivo do Elche, baseado numa intenção de contra-atacar de forma sustentada e eficaz) ou a capacidade de criar oportunidades de golo para si próprio, podendo de seguida aplicar o seu forte remate.

A sua maior debilidade não está presente no plano técnico-táctico, mas antes no plano mental. Boyé tem a qualidade técnica e até os índices de trabalho que se exigem a um atleta do seu nível, mas não demonstrou ainda a sólida consistência que separa os bons jogadores (como ele) dos grandes jogadores, que asseguram um alto rendimento todas as semanas. As últimas duas temporadas são um ponto de mudança positiva nesse sentido, mas falta ainda ao argentino uma verdadeira época “de explosão” para que possa ser visto com outros olhos em patamares competitivos superiores.

(Foto: europapress.es)

Estando agora a entrar naqueles que se afiguram ser os melhores anos da sua carreira, é de esperar que Lucas Boyé possa ainda alcançar uma outra dimensão futebolística no futebol espanhol. O talento, sempre esteve lá. E o rendimento é cada vez mais evidente.


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