“East London Derby”: como a história influenciou a rivalidade entre West Ham e Millwall

João FreitasFevereiro 11, 20197min0

“East London Derby”: como a história influenciou a rivalidade entre West Ham e Millwall

João FreitasFevereiro 11, 20197min0
Sabes o que é o East London Derby? Uma rivalidade entre West Ham e Millwall que já ascende os mais de 100 jogos entre estes "adversários" Fica a conhece-lo melhor!

O “East London Derby” – que opõem Millwall e West Ham – tornou-se conhecido pela abundante cinematografia que o romantiza (The Firm, 1989 e a posterior versão de 2009, e o americanizado Green Street Hooligans de 2005).

A violência é o leitmotiv destes filmes, com argumentos similares a filmes do Jean Claude Van Damme, com uma divisão vincada entre bons e maus, acabando sempre com a vitória das “forças do bem” sobre as do “mal” num devir lógico do destino. Porém, as pouco abordadas origens deste derby prendem-se com dois dos mais importantes fenómenos sociais e políticos do Reino Unido, as eleições de 1924 e a greve geral de 1926.

De uma forma sintética, a revolução de Outubro de 1917 gerou um binómio de terror e esperança na sociedade do século XX. Se por um lado diversos operários e camponeses reconheceram na revolução uma forma de tomar nas suas mãos os destinos de suas vidas, as classes possidentes assustaram-se com as possibilidades (reais) de contágio da revolução social.

A verdade é que de 1917 a 1926 aconteceram mais de 10 tentativas de revoluções e um infindável número de greves e protestos de dimensão considerável – seja a famosa greve geral de 1917, no Brasil, ou a de 1918, em Portugal.

Como o historiador William J. Baker denota, no período imediatamente após a primeira guerra mundial (1914-18) ocorre, definitiva e irreversivelmente, a massificação do Futebol como um fenómeno que abrangia todo espetro social e a sua transformação num importante componente cultural da classe operária.

O principal motivo está ligado com o horário de trabalho, a conquista da jornada de 8 horas – seguindo a lógica do movimento socialista do horário repartido em três períodos, 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer – permitiu ao operariado urbano ter o tempo livre disponível para praticar, ver e desfrutar do Futebol.

Uma prova dessa relação entre o crescimento do consumo operário e do futebol é precisamente o cântico mais conhecido dos adeptos do West Ham, “I´m forever Blowing Bubbles”. A música é uma das mais populares do musical “The Passing Show of 1918”, que apesar de originalmente ter sido produzido nos Estados Unidos, popularizou-se pelos Music Halls londrinos, especialmente os da East End essencialmente frequentados pela classe operária urbana.

Nas eleições de 1924, o Partido Trabalhista (Labour) fez uso da popularidade que o futebol tinha como forma de atrair o voto operário. Se foi esse o motivo ou não, a verdade é que o número de eleitores aumentou, conseguindo 191 assentos no parlamento e, mais importante, formar um governo de apoio minoritário. No dia 22 de Janeiro de 1924 – dia da nomeação do governo – o Labour reuniu-se no Albert Hall e celebrou a nomeação do seu governo cantando a Marselhesa e “The Red Flag” (“A Bandeira Vermelha”).

Este primeiro governo socialista da Grã-Bretanha duraria pouco, sendo vítima de uma operação de sabotagem operada pelo MI6, num episódio conhecido como “A Carta de Zinoviev”. Por ser um governo minoritário, haviam sido marcadas novas eleições para Setembro de 1924. Mas dois dias antes da votação foi publicada no jornal conservador Daily Mail uma carta que, supostamente, havia sido escrita por Zinoviev – uma das figuras mais proeminentes da URSS – dando instruções ao Partido Comunista Britânico para controlar o Labour Party e iniciar a revolução no Reino Unido.

Nesse ato eleitoral, o Labour Party perdeu mais de metade dos votos e Partido Conservador conquistou as eleições nesse ano. A veracidade da carta sempre foi contestada pelo Labour Party e sempre foi um tema tabu. Numa investigação recente (2009) promovida pelos serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico concluiu que os documentos relativos a esse acontecimento haviam sido perdidos pelo que não se podia concluir nada sobre o assunto.

Mas seria a acção política do governo conservador eleito em 1924 que conduziu ao segundo evento que marca o extremar da rivalidade futebolística. O chamado “Plano Dawes” – programa económico de Charles Dawes, ministro da economia – conduziu à queda abrupta dos preços do carvão e o regresso ao padrão ouro – medida de Winston Churchill – provocou uma redução das exportações e dos salários acompanhado de um aumento das horas de trabalho e do custo de vida.

Com uma situação insuportável, os Sindicatos, o Labour Party, Mineiros e o Partido Comunista Britânico iniciam uma greve geral a 3 de Maio de 1926. Apesar de a Greve Geral ter durado até 12 Maio, nas Minas e nos Estaleiros manteve-se por meses. É, precisamente, entre os trabalhadores dos estaleiros londrinos que o conflito atinge um patamar desportivo. A maioria dos estivadores grevistas em 1926 eram adeptos do West Ham, ao passo que os que furaram a greve eram, na sua maioria, do Millwall.

Ambos os clubes têm a sua origem em operários de duas companhias londrinas, a Thames Ironwork Shipbuilding Co. Ltd e a J.T. Morton Millwall Shipyard. Os trabalhadores da primeira fundaram o Thames Ironwork F.C. em 1895, disputando os seus jogos perto da estação de metro de West Ham, com o tempo a toponímia do local de jogo foi se sobrepondo ao nome do Estaleiro, mas ainda hoje esse passado assume uma importância na nomenclatura do clube, muitas vezes apelidado de “Irons” (Ferro) ou “Hammers” (Martelos).

Já os trabalhadores da J.T. Morton Shipyard, situada na Isle of Dogs (Ilha dos Cães), fundaram o seu clube em 1885, a sua cor azul prende-se com a maioria dos seus jogadores serem migrantes escoceses que se fixaram em Londres à procura de trabalho.

 

A rivalidade sempre existiu devido à proximidade geográfica dos dois bairros e estaleiros, mas foi a greve de 1926 que a fez catapultar para outro nível de intensidade. Porém, seria nas décadas de 1970 e 1980 que atingiria o zénite da violência. Com uma conjuntura económica, social e politica ruinosa provocada pelo governo Thatcher e a guerra das Malvinas, o Reino Unido foi se tornando na “Ghost town” (Cidade Fantasma), tão bem cantada e contada pelos The Specials (“This town is coming like a ghost town/ Why must the youth fight against themselves?/ Government leaving the youth on the shelf/(…)/No job to be found in this country/(…)/The people are getting angry”).

Duas das bandas carismáticas e com ligação a estas equipas também surgiram neste períodos: os Cockney Rejects, que proclamavam em todo lado a sua simpatia com os Irons e com a Inter City Firm; e os Sham 69, que chegaram a gravar uma música chamada “Millwall Boys” para um álbum organizado para recolher fundos para o Millwall chamado “We Fear No Foe – No one like us, but we don´t care” (Não tememos nenhum inimigo – Ninguém gosta de nós, mas nós não queremos saber).

Dentro das quatro linhas, nas 101 partidas que opuseram os dois rivais londrinos registaram-se 38 vitórias para o Millwall, 36 para o West Ham e 27 empates.


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