O caso Calabote e um final de campeonato com (muito) tempo extra

João Ricardo PedroJaneiro 21, 20194min3

O caso Calabote e um final de campeonato com (muito) tempo extra

João Ricardo PedroJaneiro 21, 20194min3
Em 1958 deu-se um dos casos mais estranhos e polémicos do futebol português com um árbitro a tomar o palanque: Inocêncio Calabote! Conhecias este episódio?

O campeonato nacional de 1958-1959 foi dos mais emocionantes da história do futebol português. 90 minutos de terrível sofrimento em Torres em Vedras e no Estádio da Luz. Benfica e FC Porto estavam empatados em pontos, e o Benfica necessitava de marcar mais quatro golos que os dragões, caso ambas as equipas vencessem os seus respetivos jogos.

Ao intervalo, os azuis e brancos venciam por 1-0, os encarnados venciam a CUF por 3-0. A dois minutos do final do jogo no Campo das Covas, apareceu o segundo golo do FC Porto, para euforia dos seus adeptos, que já estavam descrentes.

No outro lado, vencia o Benfica por 6-1. Logo de imediato, António Mendes fez o 7-1 para o Benfica, e a equipa de Otto Glória estava de novo na rota da conquista do título. Mas ao minuto 90, já com o Torreense reduzido a nova homens, eis que Teixeira fez o golo que haveria de ficar histórico, colocou o FC Porto a vencer por 3-0 e, de novo, em vantagem sobre o Benfica. Na Luz o ambiente era de tensão, contrastando com a euforia que se vivia nas Covas.

Após o apito final houve uma invasão de campo. Os adeptos tentavam abraçar os seus heróis, camisolas rasgadas na euforia, e os jogadores estavam desesperadamente à espera de um sinal, com o sonho em suspenso, suplicando para que fosse possível ouvir o que se estava a passar no Estádio da Luz. Foram minutos de espera que pareceram séculos.

Entretanto na Luz..

Em Lisboa, a luta pela conquista do campeonato continuava. O jogo na Luz já havia começado oito minutos mais tarde que a hora prevista. Mas não foram oito minutos de espera mas sim doze porque o árbitro, Inocêncio Calabote, foi prolongando o tempo de jogo. O árbitro tinha já também assinalado três penáltis a favor da equipa da casa.

Após o apito final na Luz, o ambiente entre os jogadores do FC Porto foi de festa e de lágrimas. Teixeira que marcou o golo que valeu o título, feliz mas em lágrimas, apenas disse: “Deus encarregou-se de dar o título a melhor equipa”.

Carlos Duarte, em jeito de provocação para com o antigo técnico brasileiro, Yustrich, afirmou: “Deus é grande e não é só Yustrich que é capaz de ganhar campeonatos no Porto”. Bella Guttmann, que por esta altura já sabia que seria o próximo treinador do Benfica, desafabou: “Este foi o título mais dramático que conquistei e já ganhei oito um pouco por todo o Mundo”.

O ambiente era de tragédia no Estádio da Luz, dois adeptos do Benfica foram atendidos no posto médico encarnado: uma senhora sofreu uma congestão cerebral e um garoto de 13 anos desfaleceu com sintomas de meningite, quando soube que o campeão nacional foi o FC Porto. No balneário da CUF reinava o espírito de revolta contra a arbitragem de Inocêncio Calabote.

Carlos Teixeira, o técnico da equipa, não se conformava e afirmou: “Só estranhei que Inocêncio Calabote não tivesse arranjado um quarto penálti nos últimos minutos. Não foi árbitro, não foi nada!”.

Em Outubro de 1959, uns meses após a conquista do título portista, Inocêncio Calabote foi irradiado, sem grandes explicações.

A maldição de Guttmann..

Na época seguinte, Guttmann foi substituído pelo italiano, Ettore Puricelli, ironicamente, o mesmo já tinha substituído o técnico húngaro no Milão na temporada 54/55. Os Rossoneri conquistaram o título com sucesso nessa temporada. Mas a estadia de Puricelli na cidade Invicta durou pouco tempo, e em Novembro foi despedido após uma derrota caseira contra o Sporting de Braga por 1-2.

Após a saída de Guttmann, o FC Porto passou por uma espécie de maldição. Ficou 19 anos sem conseguir vencer o título de campeão nacional, sendo que nenhum outro grande do futebol português teve de esperar tanto tempo para voltar a ser campeão. Até que no final de década de 70, com a chegada de Pedroto ao FC Porto, quebrou-se a maldição e o FC Porto voltou a vencer o campeonato nacional de futebol na temporada 77-78.

Bella Guttman (Foto: Wikipedia)

3 comments

  • Pedro

    Julho 27, 2020 at 7:55 am

    E falam de corrupção dá para rir os pênaltis foram feitos faltas dentro da área não fora como já se viu no porto doze minutos não me parece demais já os sete no mesmo dia dados no jogo do porto parece mas ninguém comentou irradiar um árbitro sem explicações também não percebi mas com passagens para o Brasil e meias de leite não MT escurinhas faz sentido etc por isso e mt mais se continua a prática no porto de (uma mentira tantas vezes dita passa a verdade)

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  • Hernâni Simões de Pinho

    Julho 26, 2020 at 12:18 am

    Lembro-me perfeitamente deste episódio. Por acaso estava no Porto com os meus avós e a ouvir o relato no rádio do carro. Foi uma festa louca no fim do jogo. A partir daí sempre fiquei com a ideia é a certeza que o benfica só consegue ganhar com batota…

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  • Pedro Múrias

    Junho 5, 2020 at 2:31 pm

    E Agora falam no dito Sistema. A parcialidade do Senhor Inocêncio Calabote, no jogo na Luz Benfica- Cuf, foi tão escandalosa, que no tempo da “Outra Senhora”, a Federação Portuguesa de Futebol irradiou este Arbitro. E no Jogo Torreense- Porto o Treinador adjunto do Benfica o Senhor Vadevieso sentou-se por acaso… no banco do Torrense!

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