São Paulo prova que um título vai além das quatro linhas

Marcial CortezMaio 24, 20216min0

São Paulo prova que um título vai além das quatro linhas

Marcial CortezMaio 24, 20216min0
O São Paulo saiu da fila. Ao vencer o Palmeiras por 2-0, o Tricolor conquistou seu vigésimo segundo título Paulista. Mas essa conquista começou bem antes da bola rolar no relvado, com mudanças na diretoria e alterações no Departamento de Futebol.

Estádio do Morumbi, Capital Paulista, dia 12 de dezembro de 2012. O São Paulo disputa a final da Copa Sul-Americana contra o Tigre, da Argentina. Após um 0-0 no jogo da primeira mão, a decisão na casa tricolor conta com dois gols do Soberano ainda no primeiro tempo da partida. No intervalo do jogo, uma confusão com a Polícia Militar fez com que o clube argentino decidisse não voltar ao relvado para o segundo tempo. O árbitro chileno, ao tomar ciência do que ocorrera, encerrou a partida e o São Paulo ganhou o título da Copa Sul-Americana.

Mal sabiam os adeptos tricolores que essa conquista abriria uma longa fila de nove anos até que uma nova taça viesse ocupar a Sala de Troféus do Tricampeão Mundial. Ao longo desse tempo, quatro diretores e 22 técnicos, entre interinos e oficiais, comandaram a equipa em busca de uma conquista. Mas o que se viu nos relvados foi uma série de resultados ruins e eliminações vexatórias.

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São Paulo comemora título da Sul-Americana 2012 (Foto: Gustavo Tilio / Globoesporte.com)

Os adeptos apontaram como principal culpado o ex-presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, mais conhecido como Leco. Ele dirigiu o clube por cinco anos, de 2015 a 2020, o pior período da história recente do Tricolor. Mas não foi só em seu mandato que coisas ruins aconteceram com o São Paulo. No período de trevas, equipas como Penapolense, Mirassol, Ponte Preta, Talleres e Defensa y Justicia eliminaram o Tricampeão Mundial em competições estaduais, nacionais e continentais.

O fundo do poço ocorreu na época de 2020. No campeonato paulista, que foi paralisado por um longo período por conta da primeira onda da pandemia de Covid-19, dez entre dez adeptos tricolores acreditavam no título. Mas o que se viu no relvado foi a vitória do Mirassol, com um time formado às pressas para a continuação do certame, pois devido à paralisação muitos contratos já haviam vencido e a equipa estava desfalcada. No Brasileirão, o técnico Fernando Diniz implantou uma filosofia de jogo apelidada de “Dinizismo”, que chegou a levar o São Paulo a abrir sete pontos na liderança da competição, a apenas dez rodadas do final. Mas o time não soube aproveitar esta vantagem e uma série de tropeços sãopaulinos fez com que o Flamengo ficasse com o bicampeonato.

Da demolição à reconstrução: a “Era Casares”

A reconstrução iniciou na época atual, 2021, após a eleição de Julio Casares. Houve uma reformulação de todo o departamento de futebol e a diretoria contratou o ex-técnico Muricy Ramalho para o cargo de coordenador de futebol. Ele chegou a desistir de uma carreira na Rede Globo de Televisão para voltar ao Tricolor. Alguns adeptos o consideram como o Maior São Paulino Vivo da História do SPFC. A direção demitiu Fernando Diniz e em seu lugar chegou o argentino Hernán Crespo, que rapidamente impôs um estilo de jogo aos jogadores e o time respondeu de imediato. Na Copa Libertadores, a equipa se classificou para as oitavas de final com uma rodada de antecedência e ainda briga matematicamente pelo primeiro lugar no grupo.

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Muricy Ramalho, o Maior São Paulino Vivo, quando trabalhava na Rede Globo. Foto: Globo Esporte / TV Globo

Mas a resposta mesmo veio no Campeonato Paulista. O São Paulo Futebol Clube não só ganhou a competição, como também obteve a melhor campanha (sim, caro leitor, aqui em terras canarinhas nem sempre a melhor campanha leva o título), e passou tranquilamente pelas fases de quartos de final e meias finais, goleando implacavelmente seus adversários, Ferroviária e Mirassol, de forma bem diferente dos vexames dos últimos anos.

A final do certame foi contra o Palmeiras. Na primeira partida realizada no Alianz Parque, um empate por 0-0 levou a decisão para o Morumbi. E no relvado, o que se viu foi um Tricolor infinitamente superior. O São Paulo simplesmente ignorou o Verdão e cravou o placar de 2-0, garantindo a Taça no tempo normal, sem a necessidade de decidir nas penalidades.

Como podemos ver, o que ocorre nas salas da diretoria, no conforto do ar condicionado e das máquinas de café espresso, reflete diretamente nos resultados do relvado. Assim, quando a direção não caminha alinhada com o departamento de futebol, o “onze” sofre. E não há técnico que dê jeito em situações como essa. Nós já vimos cenários semelhantes a ocorrer em vários times brasileiros. Cruzeiro, Corinthians, Botafogo, Vasco, são exemplos disso. O São Paulo, ao conquistar o Paulista, mostra que há uma luz no fim do túnel e que é possível sair do grupo decadente e novamente fazer parte do seleto conjunto de clubes que se reergueram, como Flamengo e Palmeiras, que hoje dominam o cenário no futebol nacional.

Vamos, São Paulo, Vamos, São Paulo, Vamos “ser campeão”

Jogadores do São Paulo comemoram título paulista. Foto: Marcello Zambrana/AGIF

O Tricolor Paulista mostra que desta vez acertou a mão e começa a andar por um caminho certo, a gerar um círculo virtuoso que se retroalimenta positivamente: títulos trazem dinheiro, que trazem mais títulos, que trazem confiança, que trazem mais conquistas e mais vitórias. Não é bom para o futebol quando grandes clubes ficam de fora das grandes conquistas. Não é bom para o futebol termos somente uma ou duas equipas a brigar pelos mesmos campeonatos. E há um outro fator nessa equação que o São Paulo consegue eliminar com a conquista do Campeonato Paulista – o fator “fila”. O Tricampeão Mundial entra no Brasileirão, que inicia na semana que vem, sem o peso de ficar tanto tempo sem conquistar uma Taça. Isso torna o time mais leve e diminui a cobrança dos adeptos.

Vida longa ao São Paulo Futebol Clube, Campeão Paulista de 2021!


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