Racismo no futebol brasileiro: até quando teremos que vivenciar isso?

Marcial CortezAbril 18, 20226min0

Racismo no futebol brasileiro: até quando teremos que vivenciar isso?

Marcial CortezAbril 18, 20226min0
Prestes a completarmos um quarto do novo século, casos de racismo ainda despontam no futebol brasileiro. Mais da metade da população brasileira é preta. O racismo no país está em todos os lugares. Até quando teremos que conviver com isso?

O Historiador Denaldo Alchorne de Souza, autor do livro “O Brasil Entra em Campo! Construções e Reconstruções da Identidade Nacional (1930 – 1945)” escreveu em artigo recente num site específico sobre questões raciais brasileiras, que vivemos “um racismo movediço e escorregadio, pra não dizer hipócrita”.

Mais da metade da população brasileira tem suas origens na África. Pretos e seus descendentes compõem cerca de 53% do total de habitantes do país. Mesmo assim, o racismo continua a imperar em terras tupiniquins. E por quê isso acontece? As razões estão na História.

Futebol é para brancos

No início do Século XX, quando o futebol chegou ao Brasil trazido por Charles Miller, somente as elites praticavam o desporto. Os clubes desta época atuavam no amadorismo, e todos eles eram formados por atletas brancos. Aos pretos, que haviam sido recém libertos da escravidão, só restava viver ao largo da sociedade, e isso incluía o futebol.

O técnico Lula Pereira já ouviu a frase “desculpe, mas você é preto”. Foto Djalma Vassao Gazeta Press

Enquanto as elites praticavam o futebol, os operários das fábricas que eram quase em sua totalidade imigrantes brancos europeus (ingleses, espanhóis, portugueses, italianos, franceses e outros) começaram a gostar daquele estranho desporto em que onze jogadores tentavam levar a bola ao gol adversário usando somente os pés. Com isso, o futebol se popularizou no país como nenhuma outra modalidade desportiva conseguiu até hoje.

Bangu e Vasco, os pioneiros

Foi o Bangu Atlético Clube, do Rio de Janeiro, o primeiro time a escalar um atleta preto, o jogador Francisco Carregal, em 1905. Isso despertou a ira das demais equipas, e a Federação que organizava a Liga da época proibiu a inscrição de atletas de origem africana. Com isso, o Bangu se desligou da Federação dois anos depois, em 1907. Essa proibição foi se afrouxando ano a ano, até que em 1923 o Vasco se tornou campeão com 12 atletas pretos em sua delegação, a maioria deles originária dos campos do Bangu. No ano seguinte, as equipas de Botafogo, Flamengo, Fluminense e outras fundaram sua própria Liga, na qual eram proibidos os jogadores de raiz africana.

O racismo seguia firme inclusive na Seleção Brasileira. Em 1921, o então presidente Epitácio Pessoa não queria jogadores pretos na delegação, porque um ano antes o Brasil foi a Buenos Aires e os argentinos criticaram a quantidade de jogadores “de cor” na equipa brasileira. Um jornal da época retratou os jogadores com “caras de macaco”. Epitácio Pessoa disse então que por motivos de “prestígio pátrio”, a Seleção deveria ter somente atletas brancos “para projetar no exterior uma imagem composta pelo melhor da Sociedade Brasileira”.

Jornal argentino do início do século passado retrata a Seleção Brasileira como macacos. Racismo explícito, aceito naqueles tempos.

No entanto, mesmo com esse terrível cenário, a participação dos pretos no futebol foi aumentando gradativamente à medida que o futebol se profissionalizava. E foi quando surgiu um dos melhores jogadores de futebol que já pisou nos relvados desse lado do Atlântico: Arthur Friedenreich, filho de um alemão com uma brasileira, costumava esticar o cabelo rente à cabeça “para parecer mais branco”.

Fluminense, o pó de arroz

Tática semelhante utilizou o jogador Carlos Alberto, que atuou no Fluminense em meados de 1915. Para evitar o contraste entre o tom de sua pele e a camisa branca do Tricolor, ele utilizava pó de arroz, que com o suor ia derretendo ao longo da partida e deixava a camisola toda manchada.Tal estratégia rendeu até os dias de hoje o apelido de “pó de arroz” ao clube carioca.

No Governo de Getúlio Vargas (1930 – 1945), o futebol foi profissionalizado no Brasil e com isso o número de jogadores pretos aumentou consideravelmente. Na maioria dos clubes, a entrada de sócios elitizados brancos era feita por portões diferentes dos jogadores, que eram funcionários do clube. Essa macabra “hierarquia” diminuiu o furor do preconceito.

Pelé e a negação do racismo

O racismo e o futebol caminharam lado a lado pelos anos que se seguiram, muitas vezes de forma velada e hipócrita. Na Copa de 1950, por exemplo, a maior culpa pela derrota do Brasil foi atribuída aos atletas “de cor”: Barbosa e Bigode.

Pelé: o melhor jogador do mundo alega que nunca sofreu com o racismo. Foto : Aldo Liverani / Icon Sport

Até que surgiu no cenário um jovem jogador no Santos Futebol Clube: Édson Arantes do Nascimento. Perfeito em todos os fundamentos do desporto-rei, Édson se tornou Pelé, simplesmente o maior jogador de todos os tempos do futebol brasileiro. Ele é preto, mas apesar disso alega que nunca sofreu nenhum tipo de discriminação racista. Difícil de acreditar, tendo em vista que as manifestações racistas no futebol ocorrem até hoje.

O futebol reflete a Sociedade, e vice-versa

Ora, mas se o racismo é realidade e existe na nossa sociedade, no futebol não poderia ser diferente. Pretos não conseguem cargos importantes nas empresas, não conseguem ser eleitos para cargos políticos, não conseguem um acesso digno a elementos básicos como educação, emprego, moradia, renda e dignidade. Os números brasileiros nos envergonham. Mesmo sendo a maioria da população, o preto no Brasil é discriminado em todas as esferas.

Jovens de origem africana assassinados no Brasil apresentam um índice 132% maior quando comparado a jovens brancos. A população carcerária é majoritariamente preta. As razões disso são profundas, mas certamente passam pela questão do racismo. A Sociedade Brasileira é racista e é difícil admitir isso, mas essa questão está enraizada de forma profunda em cada cidadão brasileiro. Cabe a cada um de nós lutar contra isso diariamente. Afinal, já estamos a caminhar rapidamente para completarmos um quarto do Século XXI, e não podemos mais repetir atitudes de cem anos atrás.

Obina já foi alvo de manifestações racistas. Foto: Bruno Cantini / Atlético MG

Finalizo a parafrasear o historiador Denaldo, que citei no início do texto: “no país do racismo hipócrita, é imprescindível que nós estejamos atentos ao preconceito do dia a dia  para podermos trabalhar não o racismo dos outros, mas o nosso próprio”.

 

 

 


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