22 Mai, 2018

Onde os técnicos não tem vez

Victor AbussafiAgosto 31, 20179min0

Onde os técnicos não tem vez

Victor AbussafiAgosto 31, 20179min0
Em 22 rodadas, 16 demissões. O Campeonato Brasileiro certamente não oferece estabilidade para os treinadores. Mas esse alto turn-over é reflexo de um problema muito maior.

É sintomático. Todos os anos discutimos esse cenário, mas parece que em 2017 ficou mais evidente. O cargo de treinador está oficialmente desvalorizado no futebol brasileiro e 2017 mostra-nos uma das piores crises da profissão.

Com duas rodadas, a primeira troca. Paulo Autori virou diretor no Atlético-PR e deixou o cargo de técnico para a chegada de Eduardo Baptista, que havia sido demitido do Palmeiras antes da estreia, após ser contratado em Janeiro. Exatas 10 rodadas depois, Eduardo foi demitido.

A última troca ocorreu no Vasco, que demitiu Milton Mendes, contratado em Março para o lugar que era de Cristóvão Borges, contratado para começar a época em Janeiro e demitido menos de 3 meses depois. Para o lugar de treinador, o clube que passou de surpresa positiva nas primeiras rodadas ao flerte com a zona da degola nas últimas, trouxe Zé Ricardo, demitido a menos de um mês do rival Flamengo.

Zé Ricardo, de dispensado no Flamengo à solução no Vasco (Foto: site oficial do Vasco da Gama)

Ameaçados, Dorival Júnior, Gilson Kleina e Pachequinho podem ser os próximos. Dorival, inclusive, chegou no São Paulo há 10 rodadas para ajudar o clube na briga do rebaixamento e já vê sua demissão ser cogitada pelo desespero do grande clube na luta contra a Série B.

Pois é. A dança das cadeiras tem ritmo alto e repete sempre as mesmas caras. Treinadores estrangeiros chegam como salvadores da pátria e saem sem ter tempo de nem entender o campeonato. E, mostrando sinais de corporativismo, treinadores brasileiros tentam se unir para cobrar algum controle da CBF. Mas focar apenas nos motivos dados para as demissões esconde os reais problemas por trás dessa crise da profissão.

Plano esportivo e a importância de saber o que se quer

No livro “A bola não entra por acaso”, escrito por Ferran Soriano e que retrata os bastidores da construção do Barcelona desde o crescimento da época de Rijkaard e Ronaldinho até ao time revolucionário e campeão de tudo de Guardiola. O belíssimo livro, para quem gosta de futebol e de entender os outro do lado do jogo, foca-se inicialmente na visão dos dirigentes do clube, no planejamento e na seleção do seu treinador. Guardiola não era a única opção, mas a sua chegada fazia todo o sentido quando enquadrado em algo chamado Plano Esportivo.

O Barcelona era gerido por um grupo de pessoas bem preparadas, que hoje está a frente do Manchester City e suas filiais, e uniu aos políticos do clube uma visão estratégica do negócio e do campo. Fizeram uma grande avaliação do mercado, das suas finanças e planejaram como trabalhar com o seu produto e marca sem esquecer do mais importante. O futebol começa no campo e o resultado é muito importante.

Para eles, para o Barcelona continuar a ser “mais do que um clube” deveria unir dois grandes pilares da sua história e do seu povo catalão. O compromisso social, mantendo o clube presente na vida dos sócios, tendo ações humanitárias e lembrando-se sempre de ser o clube do povo. Somado a isso, a grande lição da passagem de Cruyff pela cidade – o futebol espetáculo, que para eles era representado pelo jogo limpo, voltado ao ataque, com grandes estrelas jogando em equipe.

Depois dos anos de sucesso liderados por Ronaldinho, chegaram a conclusão que era de renovar a equipe, dentro da sua filosofia de talento e compromisso. E para uma nova equipe era preciso um novo líder. Mas o Barcelona sabia quem era, que estilo de futebol queria praticar e sabia claramente quais eram as características necessárias em seu novo líder:

  • Respeitar a hierarquia do clube e trabalhar em conjunto com a Secretaria Técnica ou Direção de Futebol – Não era um treinador com plenos poderes, mas parte de uma engrenagem muito bem azeitada;
  • Estilo de jogo – Construir por sobre a base deixada por Rijkaard, procurando um jogo equilibrado entre atratividade e eficiência, baseado no controle da partida e no sistema de 4-3-3;
  • Fomentar valores chave no time principal: Trabalho, meticulosidade, solidariedade e trabalho em equipa versus o virtuosismo da individualidade
  • Continuar a fomentar as camadas jovens como sinal de garantia de continuidade, identidade do clube e coesão do vestiário;
  • Gerir o trabalho de treinamento, com intensidade – jogar como se treina
  • Gerir o vestiário ativamente
  • Ser uma boa imagem para o clube perante aos meios de comunicação
  • Ter experiência – como jogador e treinador
  • Conhecimento da língua espanhola, do clube e ter experiência internacional

Guardiola foi entrevistado em Barcelona, já que era treinador do time B do clube, e Mourinho, que era o favorito, também passou pelo mesmo escrutínio. No final, todos sinais apontavam para Guardiola e a decisão mostrou-se acertada. Qual foi a última vez que o seu clube no Brasil pensou tanto na contratação do seu treinador?

Dois exemplos contrastantes:

O Palmeiras foi campeão com Cuca, ao montar um plantel com as características do jogo direto do seu treinador. Cuca saiu por motivos pessoais e Eduardo Baptista foi contratado. Com ele, vários reforços chegaram e tanto os novos jogadores quanto o novo treinador tinham como característica um jogo de marcação por zona e posse de bola – o oposto do perfil da equipe campeã. Até aí, tudo bem. É aceitável querer-se alterar o padrão de jogo e evoluir para um estilo de maior controle. Entretanto, após 4 meses o novo treinador foi demitido após a oscilação natural de um novo trabalho e Cuca foi chamado de volta para socorrer o clube, agora com um plantel sem sua característica. Resultado de 2017, 19 jogadores contratados, decepção nas competições que disputou e um ano perdido para quem era apontado como favorito ao título continental.

Cuca sofre pressão no Palmeiras (Foto: MARCOS BEZERRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

O seu maior rival, Corinthians, vive uma de suas piores crises financeiras e políticas recentes. Voltou a conviver com sallários atrasados, mas no campo tudo vai bem, obrigado. Desde o retorno à Série A com Mano Menezes, as duas passagens de Tite e, agora, com o novato Fabio Carrile (seguidor da escola de Tite), vê-se um padrão de jogo e uma proposta clara, que pode até mudar ligeiramente a cada temporada, mas mantém características chave. A intensidade do treino, a escalação justa dos melhores nos treinos, o jogo com linhas defensivas sólidas e próximas, com passes mais diretos e agressivo. Mesmo com anos menos bons no período, o clube ruma ao seu terceiro título brasileiro em 8 anos, ganhou a Libertadores e o Mundial. Pela má gestão fora do campo, os resultados não refletem o estado financeiro do clube, mas o campo permanece estável.

É o que tenta fazer o Flamengo, bem fora de campo e ainda à procura de melhores resultados dentro das quatro linhas. É o que marcou o período de soberania do São Paulo tri-campeão com Muricy Ramalho. Planos bem feitos, executados com paciência e confiança no planejamento. A tão necessária constância de propósito.

Formação e a importância da preparação

A verdade é que essa qualidade do planejamento do Barcelona no auge é rara mesmo no futebol europeu e já não é verdade absoluta no próprio clube blaugrana. Exige um clube gerido por profissionais bem preparados e precisa de um treinador capacitado para dar vida à estratégia em campo. A formação acadêmica ou técnica, o estudo e a experiência são fundamentais.

Mas quando um clube é gerido por um diretor amador, mais torcedor do que gestor e mais preocupado com a política do que com o equilibrio da instituição fica muito difícil de se pensar de forma diferente e mudar o ciclo vicioso que os clubes vivem. É o que se vê no São Paulo, é o que pode acontecer com o Corinthians em breve (se não souber capitalizar no trabalho do Carrile) e com o que sofreu o Palmeiras até recentemente e cogita voltar a sofrer novamente, para citar apenas os clubes de São Paulo.

Por outro lado, em campo, as críticas aos treinadores brasileiros cresceram muito desde o 7×1 de 2014. As velhas caras perderam espaço, mas a juventude parece ainda mal preparada ser esse diferencial. No começo do ano muitos apostaram no trabalho do Rogerio Ceni mais do que no de Fabio Carrile (incluindo este que vos escreve) e erramos feio. Mas fora essa boa novidade, pouco se vê por aí. Os treinadores rodam entre as cadeiras e pouco deixam de legado para o clube.

Por que os treinadores brasileiros não são assediados pelo mercado internacional tanto quanto os jogadores? Seria só por que os cursos de treinadores do Brasil não são aceitos como compartivos aos níveis UEFA? Ou apenas a questão da língua? Improvável. Há um diferencial entre a preparação dos treinadores brasileiros para os seus vizinhos argentinos, por exemplo, e é evidente quando vemos o impacto que causam alguns treinadores estrangeiros quando passam pelos clubes. Osorio é até hoje exaltado pelos atletas do São Paulo.

Treinadores se reúnem na CBF para cobrar reconhecimento do curso no exterior e limite de demissões. (Foto: Daniel Mundim)

A recente tentativa de alguns treinadores, em reunião com CBF, de tentar regulamentar o mercado, limitar o número de troca de treinadores e a entrada de estrangeiros soa como corporativismo e protecionismo despropositados perante esse cenário. Quando a solução passa por proteger o status quo e inibir a liberdade do mercado, preocupa-me.

Concluindo, foi-se o tempo dos supertécnicos no Brasil. Até se reinventarem, estamos longe da possibilidade de ver um novo caso como o de Luxemburgo no Real Madrid, por mais estranho que possa parecer. E até lá, torçamos para que os clubes passem a ser geridos com mais razão, parcimônia e inteligência. Por que se dependermos do exemplo da CBF, estamos num mato sem cachorro e eu precisarei de outro artigo apenas para reclamar de casa-mãe da bola brasileira.


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