Brasil: Campeão Moral do Mundial 1978

Virgílio NetoJaneiro 13, 20204min0

Brasil: Campeão Moral do Mundial 1978

Virgílio NetoJaneiro 13, 20204min0
A Argentina foi a grande campeã do Mundial FIFA de 1978, mas o Brasil foi declarado pelo seu treinador como o "Campeão Moral", por haver terminado o torneio de maneira invicta e por outros factos que ocorreram durante aquela Copa do Mundo. Afinal, por que aquele torneio é ainda polémico?

Os anos 1970 foram conturbados na política da América do Sul. Governos autoritários, sem liberdade de imprensa e muita perseguição a opositores dos regimes em cada país. Era assim no Chile, no Uruguai, no Paraguai, no Brasil e na Argentina, que neste contexto foi a anfitriã do Mundial FIFA de 1978. Desaparecimentos, os “voos da morte”, execuções, as “Mães da Praça de Maio” que reclamavam o sumiço de seus filhos. Não foram poucos. Não foram centenas. Mas sim dezenas de milhares.

Algumas equipas quase não disputaram aquele mundial. A estrela batava, Cruyff, recusou-se a jogar e não viajou com a selecção do seu país. O governo argentino buscava mostrar ao mundo que o país estava sob calma e numa inabalável ordem. Na televisão, uma campanha de que os argentinos eram “Direitos e Humanos”. Internamente, o regime procurava a aprovação popular em meio a severa crise económica. Nada melhor que a conquista de uma Copa do Mundo para “acalmar” a população.

Os grandes favoritos da Copa de 78 eram sul-americanos. O Brasil tinha uma grande equipa, com Zico, Rivellino, Nelinho, Leão, sob comando de Claudio Coutinho, um treinador bastante novo e com ideias inovadoras. “Dona da casa”, a Argentina tinha estrelas como Fillol, Tarantini, Ardiles, Kempes e Alonso. Mesmo sendo derrotada na estreia, a selecção das Pampas avançaram de fase e enfrentariam o Brasil. Os Canarinhos, sem convencerem (na estreia tiveram um golo anulado que daria a vitória ante os suecos), também foram adiante e fariam uma final antecipada contra a Argentina.

O jogo, conhecido como “A Batalha de Rosário” não saiu do zero. Foi uma partida nervosa, tensa, porém equilibrada. A jornada seguinte era a decisiva. Argentinos e brasileiros estavam empatados em pontos. Em uma vitória das duas equipas, o saldo de golos era o factor a determinar o finalista daquele mundial. Chegava assim o dia 21 de Junho de 1978. Os jogos (Brasil-Polónia e Argentina-Peru) deveriam ter acontecido no mesmo horário, às 16:45h locais. No entanto o jogo da Argentina contra o Peru aconteceu à noite, ou seja, os alvi-celestes já saberiam do resultado do confronto entre polacos e brasileiros. E assim foi. Os Canarinhos superaram a Polónia, à tarde, em Mendoza, por 3 a 1. Precisavam portanto – à noite na cidade de Rosário – os argentinos vencerem os peruvianos por quatro golos de diferença. Fizeram 6 a 0. Um resultado que surpreendeu a todos, afinal o Peru não tinha uma equipa ruim. Enquanto os argentinos celebravam a classificação para a final contra a Holanda, a imprensa e adeptos brasileiros criavam teorias e suposições a respeito de um marcador tão expressivo: de que alguns futebolistas da selecção andina receberam dinheiro para facilitar o desempenho argentino; de que o guarda-redes do Peru era argentino naturalizado e logo após o mundial fora contratado pelo clube Rosário Central; que o presidente da Argentina, Jorge Videla, havia entrado no balneário peruviano e feito um discurso de intimidação; e que do momento do quarto golo os “Montoneros” (grupo armado de oposição ao governo de Buenos Aires) explodiram uma bomba na residência do Ministro do Interior argentino. Nada comprovado até hoje.

Pois bem, a Argentina foi para a decisão e venceu a Holanda no prolongamento por 3 a 1 e, pela primeira vez, conquistou um Mundial da FIFA. O Brasil venceu a Itália por 2 a 1 e terminou a competição em terceiro lugar, de maneira invicta. Diante de todas as teorias de conspiração, algumas evidências e o desempenho da equipa brasileira, o seu treinador, Claudio Coutinho (mencionado no primeiro parágrafo) declarou a Canarinha como sendo a “campeã moral” de um Mundial que até hoje incomoda seus adeptos.


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