A mudança (total) de paradigma do actual CS Marítimo

Francisco IsaacNovembro 21, 20197min0

A mudança (total) de paradigma do actual CS Marítimo

Francisco IsaacNovembro 21, 20197min0
O Marítimo está em apuros com uma constante dança de treinadores nas últimas três épocas... mas será este um bom ou mau sinal para os madeirenses?

Questões iniciais: tem o Marítimo piorado as suas prestações na Liga NOS nos últimos 5 anos? E 10? Os recentes maus resultados são indícios que há uma má gestão por detrás da SAD dos rubro-vermelhos?

Para a primeira questão os dados são os seguintes (a temporada actual não consta por ainda restar mais de 2/3 do campeonato para se jogar):

2014/2015: 44 pontos, 12 vitórias, 8 empates, 14 derrotas, 46 golos marcados e 45 golos sofridos – terminaram em 9º (Leonel Pontes e Ivo Vieira) ;
2015/2016: 35 pontos, 10 vitórias, 5 empates, 19 derrotas, 45 golos marcados e 63 sofridos – terminaram em 13º (Ivo Vieira e Nelo Vingada);
2016/2017: 50 pontos, 13 vitórias, 11 empates, 10 derrotas, 34 golos marcados e 32 sofridos – terminaram em 6º (Paulo Gusmão e Daniel Ramos);
2017/2018: 47 pontos, 13 vitórias, 8 empates, 13 derrotas, 36 golos marcados e 49 sofridos – terminaram em 7º (Daniel Ramos);
2018/2019: 39 pontos, 12 vitórias, 3 empates, 19 derrotas, 26 golos marcados e 44 sofridos – terminaram em 11º (Cláudio Braga e Petit);

Ou seja, o Marítimo tem vivido uma autêntica montanha-russa em termos de resultados, posicionamento final no campeonato e de trocas de treinadores. Só entre o Outono de 2016 e a chegada ao Verão de 2018 é que houve uma real estabilização de classificação na Liga NOS com um 6º e 7º lugar conquistados por Daniel Ramos, um dos grandes responsáveis pela “construção” de uma autêntica “muralha” defensiva no emblema madeirense.

Contudo, o desgaste com a direcção e a vontade do próprio treinador acabaram por forçar a a sua saída depois de ter levado ao clube insular a somar as duas melhores temporadas do Marítimo na Primeira Liga nos últimos dez anos – o Desportivo de Chaves apresentou uma proposta melhor, mas ficou no ar o “como” se permitiu uma saída tão fácil.

O BAILINHO DOS TREINADORES VERDE-RUBROS

Se olharmos então para os resultados entre 2008/2008 a 2018/2019 notamos que a direcção de Carlos Pereira não tem prescindido do chicote, tendo contratado e prescindido de 12 treinadores em 10 temporadas, lembrando que só Mitchell van der Gaag (12 meses consecutivos), Pedro Martins (quatro anos) e Daniel Ramos (quase dois anos) foram os de longa duração… ou seja, Lori Sandri, Carlos Carvalhal, Leonel Pontes, Ivo Vieira, Nelo Vingada, Paulo Gusmão, Cláudio Braga, Petit e Nuno Manta ficaram entre dois e oito meses (no máximo), saindo depois pela porta pequena – só Nelo Vingada abandonou com palmas, uma vez que veio como o objectivo de salvar o clube da descida de divisão, conseguindo essa meta em Maio de 2016.

Curiosidade para o facto que é recorrente os períodos de maus resultados durante uma ou duas épocas, para depois seguirem-se no mínimo duas de retoma, sendo que entre Van der Gaag e Pedro Martins deu-se o momento de maior estabilidade (o holandês conseguiu um 5º lugar em 09/10 mas Pedro Martins registou duas épocas com mais pontos) e com Daniel Ramos foi o período de maior brilhantismo em termos de estratégia de jogo e obtenção de resultados na liga.

Todavia, a última temporada e o início desta revelaram novamente os tais sinais de caos completo, tendo o clube já contratado quatro treinadores diferentes no espaço de 12 meses (já estamos a contar com a chegada do novo técnico-principal, seja ele José Gomes ou outro nome), ficando no ar ainda os discursos mal preparados de Carlos Pereira, especialmente quando é o convidado principal, como aconteceu no Canal 11 em Setembro de 2019.

Na altura o líder máximo do Marítimo falou sobre os adeptos do clube (especificando que não acredita em claques e que ter adeptos debaixo de uma mesma organização associativa poderia ser perigoso para o bom espectáculo), da contestação à recente gestão (notando que o seu principal ofício não é o Marítimo, que o clube tem vivido mais no sucesso do que no insucesso, entre outros pormenores), dos objectivos atingidos (instalações e modalidades), entre outros temas. A reacção por parte de um secção de sócios do clube foi imediata, questionando a postura e palavras do presidente, suscitando logo um baixo-assinado para a demissão da actual direcção.

CARLOS PEREIRA…ANTES A SOLUÇÃO, AGORA O PROBLEMA?

Os resultados da última época e início da actual não têm ajudado em nada a Carlos Pereira disfarçar os claros problemas que o Marítimo enfrenta, seja em investimento em potenciais jogadores de qualidade incontestável (longe vão os tempos em que passaram atletas como José Sá, Pablo Santos, Raul Silva, Moussa Marega, Dyego Sousa, Sami, etc), na contratação de treinadores que não estão à altura da dimensão do emblema, ou até às questões orçamentais que têm levantado perguntas constantes por uma parte dos associados.

Carlos Pereira tem sido uma das peças-chave para o crescimento constante do clube madeirense, não há dúvidas, tendo conseguido oferecer algum prestigio no futebol e poucas mas relevantes conquistas nas modalidades. Porém, não é um presidente de discurso afável ou de bom desportivismo, tendo até dito para adeptos do SL Benfica juntarem-se aos do CS Marítimo e apoiarem os maritimistas no estádio nos jogos frente ao Sporting CP e FC Porto, elevando aqui um semblante negativo e que colocam sérias constantes na forma de estar de um presidente que lidera o emblema há 22 anos.

Outra das frases que reuniu várias dúvidas em relação à gestão na equipa sénior masculina de futebol foi a forma como rebaixou as capacidades de Nuno Manta Santos,

“Sinto que ele está com dificuldades e que precisará de ser ajudado e isso não significa impor o quer que seja. Ou todos nós ajudamos, ou estamos perante um facto quase consumado. Esperava mais em termos de espetáculo, esperava mais de equipa, esperava mais pontos, mas não temos e há que analisar porque não temos.”.

Se quisermos recuar alguns meses, a questão com Petit foi um caso crasso na gestão de Carlos Pereira… o treinador garantiu a permanência, apesar do mau futebol apresentado durante os seis meses que esteve à frente do clube, terminando a temporada com 39 pontos, um a menos em relação aos objectivos que supostamente teriam sido traçados na altura em que o antigo internacional português foi contratado. Petit explicou que existia e existe um profundo amadorismo na forma como o Presidente trabalha com o departamento de futebol, como contado ao Tribunal Expresso,

“Queria meter-se nas minhas escolhas, processou vários jogadores, colocava-os na equipa B, eu chegava e não tinha dois ou três no treino… Se tu és contratado para treinador, és tu que decides. Se não, ia ele para o banco, mas sujeitava-se a ser despedido por ele próprio. Estas pessoas têm de ser desmascaradas.”

O Marítimo vive portanto num momento amplamente delicado em que o apoio dos adeptos já não é assim tão constante (vão aos jogos mas nota-se uma caída constante no número de cadeiras preenchidas nos jogos), os activos profissionais não reúnem tanto interesse como em outras épocas e a liderança de Carlos Pereira é vista como um perigo para o futuro do emblema insular.

Neste momento, ocupam o 14º lugar da Liga NOS, com duas vitórias, cinco empates e quatro derrotas, 12 golos marcados e 17 sofridos, eliminados da Taça de Portugal pelo Beira-Mar e praticamente de fora da Taça da Liga, evidenciando que algo se passa e não é só em campo no que concerne ao departamento de futebol. Dos reforços que chegaram ao clube, só o Daizen Maeda, Franck Bambock e Dejan Kerkez é que têm convencido, numa clara demonstração que faltaram chegar soluções credíveis para todos os sectores da equipa verde-rubra.

Será que a próxima temporada será de remontada ao estilo do que aconteceu com Pedro Martins e Daniel Ramos, ou este é o novo paradigma do CS Marítimo, um dos emblemas históricos do futebol português?

Entrevista a Carlos Pereira que suscitou alguma constestação


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