“Underrated” ou simplesmente “esquecíveis”? – Ernesto Farías

Francisco IsaacMaio 2, 20206min0

“Underrated” ou simplesmente “esquecíveis”? – Ernesto Farías

Francisco IsaacMaio 2, 20206min0
Nesta nova rubrica do Fair Play, trazemos-lhe alguns dos jogadores que a História do Futebol "esqueceu". Simplesmente "underrated" ou "esquecíveis", estes jogadores marcaram uma era do futebol, à sua maneira. Hoje é a vez de Ernesto Farías

Foram 227 golos em quase 550 jogos na carreira de um ponta-de-lança que podia perfeitamente ter sido uma referência no futebol argentino não fossem alguns detalhes retirarem-lhe a possibilidade de subir a um patamar amplamente superior… Ernesto Farías, um prolífero matador de área fez carreira na América do Sul e Europa, conquistou sete troféus a nível de clubes e deixou constantemente uma marca pelos emblemas que passou, a começar no “seu” Estudiantes de la Palma.

Mas realmente, Farias pode ser relembrado como um artilheiro underrated, um jogador interessante mas longe do nível de inesquecível ou cairá para sempre no esquecimento do futebol argentino e mundial? Para quem viu Ernesto Farías a jogar, não há dúvidas que vai assentar na primeira categoria sendo que é admissível que com o tempo caia desapareça quase por completo da memória dos adeptos. Contudo, voltando à questão de ser um avançado underrated que merece uma atenção redobrada quer pelo futebol que produzia ou pela forma como eficientemente ajudou os seus clubes a atingirem certos objectivos, o argentino tem direito a uma espécie de revisão da carreira para demonstrar que teve mais impacto do que a memória colectiva atribui.

O FELINO “EL TECLA” FARÍAS… ESTUDIANTES DE LA PLATA

Entre 1997 (ano em que se estreou oficialmente no escalão sénior) e 2004 vestiu a mesma camisola durante 8 épocas consecutivas ao serviço do mítico Estudiantes de la Plata. Num conjunto total de 206 jogos, Farías fez 95 golos e uma série de assistências que nunca surtiram qualquer título para o emblema de La Plata, apesar de ter vivido algumas das suas melhores temporadas durante as épocas em que Farías alinhou. Mortífero dentro da cancha, onde a rápida velocidade de movimentos combinava com perfeição na finalização expressiva, o ponta-de-lança foi somando bons registos épocas atrás de época, tendo mesmo conseguido ser o melhor marcador do Torneo Apertura de 2003 (quando a liga argentina oferecia aquela dualidade especial entretanto perdida para um campeonato “normal”), o que lhe garantiu um interesse do Palermo.

O emblema italiano, recém-promovido à Serie A, viu em Farías características que encaixavam na perfeição na tipologia de jogo da principal divisão de futebol italiana, uma teoria que acabaria por esbarrar na dura realidade… 16 jogos e 2 golos (ambos na Coppa de Italia), valendo-lhe uma saída em Janeiro para o River Plate. Luca Toni mostrou-se em grande forma e lançou uma sombra impossível de sacudir para o ponta-de-lança argentino, que perante as dificuldades em convencer Francesco Guidolin a utilizá-lo, optou por regressar à sua terra natal com o grandioso Milionarios do River Plate a apresentar uma proposta aceitável para assegurar os seus serviços, depois do Palermo ter gasto 4M€ em Janeiro de 2004.

Nos três Torneos Clausura e dois Apertura que participou pelo emblema de Buenos Aires, encaixou 49 golos em 95 encontros, envergando aquela letalidade reconhecida durante o tempo em que jogou pelo Estudiantes, para além de uma articulação inteligente nas operações ofensivas e vitalidade insistente no jogo aéreo, pormenores importantes para um River Plate já meio desconfigurado e que só conquistaria um título em 2008 para depois descer três anos a seguir. De qualquer forma, Farías atingiu o patamar de referência no centro do ataque do River Plate – ao lado de Gonzalo Higuain, com 18 anos de idade – e em 2007 foi uma das contratações sonantes do FC Porto, à época treinado por Jesualdo Ferreira, sabendo desde o 1º momento que teria uma missão difícil pela frente com Lisandro Lopez a ocupar a titularidade no esquema de jogo dos dragões.

O BICAMPEONATO NO DRAGÃO… POSITIVO OU NEM POR ISSO?

Se uma pessoa avaliar a passagem de Ernesto Farías pelo FC Porto só pelos golos que marcou no total de aparições, vai ter a vontade de adjetivá-lo como um semi-fracasso ou, pelo menos, considerá-lo como um jogador banal e que não teve uma importância significativa tanto para os títulos de 2007-2008 ou 2008-2009, quando na verdade foi essencial em certos momentos. Lisandro López era um avançado de trabalho-pesado, que gostava de carregar para cima do adversário com ou sem bola no pé, procurando abrir caminho pela fisicalidade e uma vontade/querer que davam outra dicotomia ao ataque azul-e-branco, não sendo um goleador reconhecido atenção.

Quando Farías entrava em campo, ajudava a criar espaços nas movimentações dentro da grande área, abria brechas e causava constantemente problemas no jogo aéreo, possibilitando que os seus colegas se tornassem mais ameaçadores na abordagem à grande área, com estes elementos a conferirem uma incidência ofensiva superior aos homens então comandados por Jesualdo Ferreira, que como todos sabem não era um treinador voltado para o risco e persistência ofensiva constante.

A primeira época não foi boa em termos de minutos jogados devido a uma série de lesões complicadas, mas 2008/2009 foi um ano cheio com 11 golos em 25 encontros oficiais, vincando um futebol bem perfumado, onde as roturas defensivas aplicadas eram bem vislumbradas especialmente no jogo aéreo ou na antecipação aos adversários na pequena-área, conseguindo ainda ser uma unidade de qualidade na criação de oportunidades. Farías sabia ter a bola no pé, com uma atitude calculista e apaixonante que foi criando uma empatia e carinho especial com os adeptos do FC Porto, sempre apaixonados pela costela argentina que morou no Dragão durante algumas épocas – de Lucho Gonzalez a Fernando Belluschi, passando por vários e outros nomes.

Na última época na Invicta, pouco correu bem a Farías que acabaria por só apontar 8 golos em 24 jogos, caindo fisicamente cada vez mais e sem capacidade de aguentar com a fisicalidade que tanto a Primeira Liga ou provas da UEFA impunham ou do futebol mais ritmado e agressivo do próprio FC Porto, onde Hulk começava a despontar. Saiu para o Cruzeiro, onde novamente pouco jogou devido às lesões, seguindo-se uma boa experiência no Independiente (15 golos) e depois uma viagem até ao Uruguai (Danubio) e Colômbia (o histórico América de Cali, no qual subiu de divisão com o argentino como melhor marcador), colocando um ponto final em 2017 numa carreira que começou em 1998.

O que faltou então a Ernesto Farías? Maior disponibilidade física, capacidade de aguentar uma temporada sem sofrer uma lesão minimamente prolongada, uma boa forma consistente e que lhe permitisse ser 1ª opção durante toda uma temporada, problemas que foram surgindo em diversos momentos da carreira do ponta-de-lança. Fica para a história o facto de ter chegado a jogar pela Argentina por uma ocasião, de ter feito parte do tetra do FC Porto e de mais alguns troféus. Mas 227 golos é um mérito que merece recordação constante de um ponta-de-lança requitado, felino e inteligente, alcunhado de El Tecla! Underrated, correcto?


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