O Diário do Treinador – Paulo Meneses e o salto de jogar para treinar

Fair PlayMarço 26, 201810min0

O Diário do Treinador – Paulo Meneses e o salto de jogar para treinar

Fair PlayMarço 26, 201810min0
O treinador português volta a contar as suas experiências no Mundo do futebol explicando as mudanças e do dia que deixou de jogar para treinar!

AS LIÇÕES COMO JOGADOR QUE FICARAM PARA O FUTURO

Joguei Futebol durante 14 anos, oficialmente, em 9 clubes diferentes. Comecei a jogar muito tarde, iniciei aos 17 anos de idade. Mesmo sem ter formação no Futebol, consegui jogar em equipas de 3ª Divisão Nacional e 2ª Divisão B (actual CNS).

Mas, para chegar a esse níveis, tive que trabalhar muito, pelos clubes que passei anteriormente – clubes ainda mais modestos de divisões distritais.

Sempre vivi o Futebol com muita paixão, intensidade e compromisso.  Não me lembro de falhar um treino, tal era o meu grau de compromisso com a equipa, com os colegas, clube, adeptos, treinadores, etc.

E apesar de ser um nível semi-profissional, eu sempre encarei toda a minha vida, diária, sempre com grande rigor, com grande auto-exigência e sempre com máximo foco na minha carreira desportiva.

Tinha uma característica muito própria, era bastante auto-crítico comigo mesmo. E auto-exigia sempre o máximo de mim próprio, todos os dias. Queria sempre aprender mais e mais (com os colegas mais experientes, com os treinadores, e até com os adversários).

Penso que, tudo isso que me moldou enquanto jogador de futebol, foi determinante enquanto estudante e aspirante a treinador, porque eu sempre fui muito atento, sempre  fui muito curioso em busca de informação, sempre tratei de aprender mais e mais.

Também o rigor e a auto exigência enquanto aluno, foi importante para me preparar um pouco todos os dias.

Com todos os Treinadores aprendi bastante, e sempre estava disposto a aprender mais e mais. Para isso, falava com os treinadores e perguntava-lhes algumas coisas.

O facto de ter jogado em 9 clubes, também me deu uma bagagem importante, no que diz respeito ao funcionamento e organização que cada clube tinha em cada um dos departamentos.

Decidi tirar um curso Universitário enquanto ainda era jogador de futebol. Eu costumava dizer que, durante o dia estava em contacto com a teoria, e ao final do dia, ia aos treinos contactando, assim, com a prática.

No 1º curso de Educação Física, na Universidade Jean Piaget – Viseu, sempre fui muito dedicado e interessado. No entanto, ainda não tinha acabado esse curso e já me tinha despertado o interesse, de estudar na Faculdade de Motricidade Humana, onde tinha estudado José Mourinho – isso porque foi por esse ano, que o fenómeno Mourinho explodiu no FC Porto.

Foto: Arquivo Pessoal

OS PRIMEIROS PASSOS COMO TREINADOR… A FMH!

Passados alguns anos, com 31 anos, ingressei na Faculdade de Motricidade Humana, para cursar outra Licenciatura: Ciências do Desporto – Treino Desportivo em Futebol.

Durante esse curso, aproveitei ao máximo para me preparar nas mais diversas áreas. Até porque, a FMH tem Professores de excelência.

Na Faculdade, temos duas cadeiras de Estágio. Nesse momento, os Estágios que os alunos realizavam, eram em equipas de formação. Como eu já tinha sido treinador da formação (Sporting Club de Portugal – Academia de Talentos), queria mais.

Para o 1º Estágio, falei com o Professor de Futebol – Ricardo Duarte (excelente trabalho que realizou nas cadeiras de Futebol, foi ele quem revitalizou o ensino das cadeiras de Futebol na FMH – e de realçar que cada vez que visitava a FMH, tinha a sensação que melhorava ano após ano) e demonstrei-lhe a minha ambição em fazer o Estágio numa equipa Sénior. Então decidi fazer estágio numa equipa sénior, da 2ª Divisão B – Real Massamá.

Já o 2º Estágio, a minha decisão estava tomada, queria uma equipa de 1ª Divisão. Realizei o meu Estágio no União de Leiria, onde fiquei a trabalhar essa temporada na equipa de Scouting.

Durante o tempo que trabalhei no União de Leiria, além de ter observado adversários, o meu principal objectivo, era observar a própria equipa.

Foto: Arquivo Pessoal

SCOUTING, UM PRINCÍPIO DE CARREIRA

Era um projecto que o Mister Pedro Caixinha me pediu para desenvolver. Eu tinha que filmar todos os treinos, todos os jogos e depois fazer uma observação individual dos jogadores, para posteriormente, segundo o Modelo de Jogo, melhorar  em treino o que estivesse menos bem e pontenciar o que de bom já tivesse. Tudo com o intuito de melhorar / potenciar a prestação de cada jogador.

Embora fosse Scouting, não me limitei só ao meu trabalho de Scouting.  Estava atento a todos os pormenores, desde a planificação dos treinos, à organização do treino, às regras do grupo de trabalho, ao funcionamento geral da equipa técnica e do grupo de trabalho, etc. etc.

Devido à minha curiosidade, quando eu tinha alguma duvida ou curiosidade, sempre perguntava aos treinadores, ou aos membros da equipa médica (por exemplo, questões relacionadas com dietas competitivas, suplementos para futebolistas ou até questões com as técnicas de recuperação dos atletas).

Aí, senti e vivi por dentro, o que é trabalhar no dia a dia  numa equipa técnica de alto nível. Não é por acaso, que o Mister Pedro Caixinha foi campeão no México, treinou uma equipa grande no Qatar, depois treinou uma das melhores equipas na Escócia (Glasgow Rangers), e recentemente, mudou-se para o Cruz Azul, umas das grandes equipas do México.

De referir que, quando decidi fazer o meu 2º Estágio, eu tinha bem delineado o perfil de treinador com quem queria estagiar:

Alguém que tivesse uma experiência prática, de preferência, alguém que tivesse estado em equipas técnicas em grandes equipas (trabalhou com Peseiro no Sporting CP, depois ainda passou pelo Al Hilal, Panatinaikos, Rapid de Bucarest e Seleção Nacional da Arábia Saudita), e, ao mesmo tempo, alguém que tivesse um perfil Académico – Pedro Caixinha deu aulas na Universidade!

Foi uma experiência incrível, não só por ter estado numa equipa técnica de Divisão, mas principalmente porque sabia que estava rodeado de profissionais de altíssimo nível.

Mas, como o União de Leiria tinha muitas dificuldades financeiras, acabei por sair do clube. O próximo passo, foi a decisão de ir estudar no estrangeiro através do programa Erasmus.

Senti a necessidade, mais que, saber mais, o que eu queria, era saber “melhor”. Ou seja, queria ter contacto com um outro tipo de ensinamento, queria saber outros tipos de Metodologia de Treino. Ao saber que o INEF de Madrid tinha um conjunto de Professores com grande experiência no terreno em termos de Futebol de Alto Rendimento:

  • Javier Miñano – Adjunto de Vicente Del Bosque no Real Madrid e Seleção Espanhola, campeão do Mundo e campeão da Europa;
  • José Angel – Adjunto no Atlético de Madrid nos tempos de Futre e Simeone como jogadores;
  • Carlos Martinez – Treinador de várias equipas profissionais;
  • Fernando Mata – Preparador Físico do Real Madrid na década de 80.

Tentei aproveitar ao máximo do perfil de Professores que o INEF tinha.

Então, a minha vida em Madrid, era entrar na Faculdade às 8h da manhã e sair às 21h. Ir para casa, descansar para o dia seguinte. Aproveitei ao máximo para aprender, para tirar dúvidas e satisfazer as muitas curiosidades que tinha e outras que iam surgindo relacionadas com Futebol.

Frequentei as aulas de Futebol do primeiro ano, e ia às aulas do meu grupo e às aulas dos outros grupos (só porque era leccionadas por Professores diferentes).

Também frequentei as aulas de Futebol de Alto Rendimento do Master de Ciências do Desporto.  Em ambas cadeiras aprendi bastante, mas foi nesta última onde consegui extrair mais proveito.

De referir que, depois das aulas (terminavam às 16h), almoçava na cantina do INEF – Em Espanha almoça-se muito mais tarde – e ia para a Biblioteca fazer os trabalhos para as cadeiras.

E foi aqui que consegui desenvolver e melhorar o meu Espanhol, superando-me, porque cheguei a fazer trabalhos de 120 páginas, ao contrário de outros colegas que apresentavam trabalhos de 20 páginas. Quantidade não é sinónimo de Qualidade, mas as notas de todas as cadeiras que recebi no fim dessa etapa de Eramus, falam por si. Valeu a pena o esforço.

Como já deu para perceber, ao contrário de quase todos os colegas, (que escolhiam Polónia, Brasil, etc para estudar fora do país, desfrutando assim o seu tempo Erasmus) eu escolhi um lugar para crescer futebolisticamente, e que me desse, qualitativamente, um “plus” para a minha aprendizagem e um pequeno salto da minha carreira.

Então, a opção por Madrid, não foi somente pelo perfil dos professores do INEF.

Eu tinha claro que queria fazer Estágios profissionais em grandes Clubes. E como sabia que havia portugueses nos clubes de Madrid, escolhi Madrid, na esperança de poder contactar com Tiago e Pizzi da parte do Atlético de Madrid, e com a equipa técnica de Mourinho no Real Madrid.

Para conseguir realizar o Estágio no Atlético de Madrid, cheguei à conclusão que teria que ter a iniciativa de me apresentar a alguém que pertencesse à equipa.

Então, consegui conhecer o Tiago à porta do centro de treinos em Majadahonda – Madrid. Apresentei-me, disse-lhe que tinha trabalhado no União de Leiria, e que estava ali para poder comparar Metodologias de Treino de equipas da 1ª Liga Portuguesa e Espanhola.

Ele perguntou ao Diego Simeone, e consegui fazer a observação dos treinos do Atlético de Madrid durante 1 mês, até à semana anterior da Final da Europe League que ganharam ao Atlétic de Bilbau.

No caso do Estágio no Real Madrid, consegui através do adjunto Rui Faria. Eu sabia que o Rui iria falar num congresso de Futebol que se realizou na Faculdade de Desporto no Porto.

Fui ao congresso, e “provoquei” o encontro com o Rui Faria. Apresentei-me, disse-lhe que ia estudar para Madrid, e transmiti-lhe que gostaria de realizar um Estágio profissional com o José Mourinho no Real Madrid.

Depois de vários meses à espera e de alguma paciência e persistência, foi possível estagiar com eles no Real Madrid. Como devem calcular, ambos os Estágios foram muito importantes para o meu entendimento do treino que tenho hoje em dia e também bastante enriquecedores.

Nos próximos diários, apresentarei a minha estadia em Madrid, que surgiu com o convite de Javier Miñano para trabalhar com ele (em projectos da Seleção Espanhola, também nas aulas de Futebol Alto Rendimento do Master da Universidade – INEF), a minha experiência no AD Alcorcón, e a auto-formação quase diária que um treinador tem / deve fazer, etc.

Com Vicente Del Bosque (Foto: Arquivo Pessoal)

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