Jovens estrelas que caíram cedo demais: Sebastian Deisler
Quantas jovens estrelas atingiram o patamar mais alto do futebol mundial para depois caírem abruptamente ou, pior, devagar sem nunca encontrarem um rumo de regresso aos títulos internacionais e aos grandes palcos (como é o caso de Jean-Sebastian Deisler)?
Nesta rubrica não procuramos descobrir quem tem culpa, mas sim as razões desse desaparecimento, perceber onde foram parar e se há alguma hipótese de redenção. E atenção, não dissemos desaparecemos porque ainda jogam seja numa primeira, segunda ou terceira divisão.
Se conheces mais casos deixa nos comentários para investigarmos e falarmos desses nomes.
FINESSE, EFICÁCIA E… DEPRESSÃO, A HISTÓRIA DE UM QUASE ASTRO
Começo por falar de Sebastian Deisler não a partir dos factos históricos, mas do impacto que o médio podia ter tido no futebol mundial. Deisler era um médio muito à frente do seu tempo, especialmente considerando o que era o futebol alemão naquele período do início dos anos 2000. Parecendo quase uma mescla de Toni Kroos com Jamal Musiala, Deisler respirava futebol autêntico, com uma capacidade vertiginosa para fazer a bola girar e ir na direção que queria sem ‘ses’ ou ‘mas’. Chegou à Mannschaft com apenas 20 anos e conquistou o lugar no 11 titular de imediato, jogando em 9 jogos na temporada de 2000, tendo sido convocado para o Euro – um Euro de má memória para o futebol alemão já que terminaram em último grupo, tendo sido derrotados por Portugal por 3-1. Sabem aquele tipo de jogador que quando toca na bola o mundo fica congelado por momentos, com esse mesmo jogador a manipular o tempo e espaço para fazer o que quer dos seus adversários? Isso era Sebastian Deisler.
Infelizmente, esses poderes vertiginosos e espetaculares acabaram por ruir no espaço de seis anos, com o médio-centro germânico a passar de coqueluche do Hertha e Bayern para um atleta deprimido e que decidiu pôr fim à sua carreira do nada no ano de 2007, quando tinha só 27 anos de idade. Sim, as duas lesões graves ao nível do joelho ajudaram a dar um empurrão final para que Deisler acabasse por tomar essa decisão unilateral de colocar um ponto final precoce à carreira, mas o criativo nascido na pequena cidade de Lörrach já tinha deixado várias críticas à indústria do futebol, dizendo repetidas vezes que sentia que não tinha nascido para sobreviver numa indústria tão brutal como a do futebol. Formado em diversos clubes, Deisler acabou por chegar ao Borussia Mönchengladbach em 1995, tendo feito a estreia pela equipa sénior com 18 anos.
A forma como domava o esférico acabou por atrair o Hertha de Berlim, clube que na altura disputava a Bundesliga. Assinou em 1999 e rapidamente não só conquistou um lugar no 11 titular, como conquistou o coração dos adeptos do emblema da capital alemã, demonstrando uma visão do futebol do que estavam habituados. Foi chamado à selecção da Alemanha em 2000 e foi brilhando a espaços, apesar de ter sofrido uma grave lesão no joelho que o tirou dos campos durante grande parte da época de 2001/2002, ao ponto que acabou por lhe retirar a hipótese de jogar no Mundial de 2002 – o mesmo iria acontecer com 2006. O Bayern de Munique, como sempre, não deixou escapar um dos maiores talentos da geração e contratou Deisler a troco de 12M€, um valor alto para alguém que estava ainda a recuperar de uma lesão no joelho.
Todavia, antes do fim precoce, Deisler gozou de alguns anos positivos ao serviço dos bávaros, somando vários jogos a titular, realizando um oceano de assistências sem esquecer os 13 golos marcados em 90 jogos. Só que em 2004 atacou a depressão, uma doença que acabou por fazer ruir todas as defesas do médio, que se sentiu a colapsar perante a pressão de aguentar as exigências de jogar pelo Bayern, de manter o seu joelho a salvo e de garantir um nível de qualidade exibicional de topo. A administração do Bayern tentou ajudar o internacional alemão, mas uma nova lesão no joelho em 2006 acabou por fazer com que sentisse que a sua hora tinha chegado, apesar de ter apenas 26 anos à altura. Aguentou até 2007 e, depois com apoio da direção do Bayern, pôs um fim à ligação contratual e vida de jogador profissional, saindo completamente de cena.
Deisler continua hoje em dia longe das câmeras e fora do alcance da imprensa, tendo optado por um estilo de vida que lhe permitiu sobreviver a uma depressão profunda. Apesar de nunca ter mais ter tido qualquer contacto com o futebol profissional, o antigo internacional alemão participou em vários estudos e ensaios sobre a depressão na alta competição, ajudando decisivamente outros atletas que se encontravam ou que estão na mesma situação, mostrando que a classe é eterna, independente se está dentro ou fora do campo.



