Jovens estrelas que caíram cedo demais: Agostinho Cá

Francisco IsaacJunho 25, 20225min0

Jovens estrelas que caíram cedo demais: Agostinho Cá

Francisco IsaacJunho 25, 20225min0
Um talento imenso, um futebol especial mas uma carreira complicada que valeu de pouco a Agostinho Cá, que Francisco Isaac relembra

Quantas jovens estrelas atingiram o patamar mais alto do futebol mundial para depois caírem abruptamente ou, pior, devagar sem nunca encontrarem um rumo de regresso aos títulos internacionais e aos grandes palcos (como é o caso de Agostinho Cá)?

Nesta rubrica não procuramos descobrir quem tem culpa, mas sim as razões desse desaparecimento, perceber onde foram parar e se há alguma hipótese de redenção. E atenção, não dissemos desaparecemos porque ainda jogam seja numa primeira, segunda ou terceira divisão.

Se conheces mais casos deixa nos comentários para investigarmos e falarmos desses nomes.

AGOSTINHO CÁ, DO BARCELONA PARA O VITÓRIA SERNACHE

O fim da primeira década dos anos 2000, trouxe uma vaga de alguns dos melhores jogadores jovens a actuar por Portugal, com a geração de 1993/1994 a despontar pela selecção nacional sub-18 e sub-20, destacando-se diversos nomes, caso de João Mário, Edgar Ié, André Gomes, Bruma, João Cancelo, Ricardo Esgaio, José Sá, Ricardo Pereira, entre outros, sendo que alguns não conseguiram manter os bons indícios mostrados nas categorias jovens, ou nos primeiros anos como profissionais séniores, e exemplo disso foi o que aconteceu com Agostinho Cá. Uma dos “diamantes” em bruto mais interessantes da Academia de Alcochete, Agostinho Cá, chegou aos verdes-e-brancos em 2009 depois de ter despontado no AD Oeiras, ganhando rapidamente protagonismo e atenção dos scouters e de alguns clubes internacionais.

A que se devia este interesse? Desde cedo, o polivalente médio-centro apresentava certos detalhes físicos que conseguiam esgotar os seus adversários ou forçá-los a tomar más decisões tácticas, possuindo um pé bem trabalho e uma capacidade para se envolver da melhor forma no processo de contra-ataque ou ataque da sua equipa, algo vislumbrado nos sub-19 do Sporting CP e, especialmente, na selecção Nacional de sub-19 (mais de 20 internacionalizações) e sub-20.

Um talento juvenil de belo calibre que aparentava ter uma margem de progressão larga e fiável, acabando por isso não se confirmar nos anos vindouros… Mas antes de irmos ao fatalismo, é importante referir que em Julho de 2012, deu o salto do Sporting CP (sem ter feito qualquer jogo oficial pela equipa sénior dos “leões”) para o FC Barcelona a troco de 1,5M€, um valor minimamente interessante para quem ostentava apenas 18 anos. Porém, a ida para um dos clubes mais emblemáticos do futebol mundial acabou por ser uma decisão “errada” ou um presente envenenado, já que Agostinho Cá nunca passou da equipa “B” dos blaugrana, sendo isto o início da estagnação técnica e táctica de um atleta com talento, mas que necessitava de uma atenção redobrada, de um tempo de jogo maior num clube em divisões profissionais, e de talvez estar junto do seu “meio”, ou seja em Portugal, para atingir um patamar superior.

Se a época de 2012/2013 foi passada ao serviço da formação secundária do FC Barcelona, o ano seguinte repetiu-se a dose, acabando por fazer poucos minutos, significando isto uma queda no esquecimento por quase todos, ficando o médio cada vez mais longe dos holofotes principais que alguns antigos de selecção iam conquistando. Em 2013/2014 ainda foi cedido ao Girona da La Liga 2, realizando somente um encontro por este satélite dos culés, com o somatório de minutos em três anos a rondar os 100 no total, um número preocupante e que acabou por ser um dos toques fatais para que Agostinho Cá não passasse de uma jovem promessa que não conseguiu ultrapassar a barreira final.

Para os interessados, o internacional jovem português ainda passou pelo Lleida das divisões inferiores espanholas em mais um empréstimo promovido pelo FC Barcelona, terminando o contrato em 2016, altura em que assinou pelo Stumbras da A Lyga da Lituânia, voltando finalmente a Portugal em 2018, para jogar pelo Cova da Piedade (meramente dois jogos, já que rescindiu contrato passado 4 meses por motivos pessoais). Entre o fim do ano de 2018 e 2020, Agostinho Cá chegou no Líbano, optando por retornar a “casa” quando o Fontinhas mostrou interesse em si, actuando aí até sair para o Vitória Sernache, do Campeonato Portugal, somando já diversos minutos pelo emblema da região do centro de Portugal.

Há explicação para uma carreira tão tumultuosa e em que o brilho rapidamente se desvaneceu? Lesões, falta de acompanhamento e mais tempo para se poder divertir. Alguns problemas nos meniscos limitaram o número de oportunidades de Agostinho Cá no FC Barcelona, o que acabou por significar um dano irreparável no seu desenvolvimento como jogador, isto quando chegou até treinar pela equipa principal. A ida para a “capital” da Catalunha necessitava de outro apoio emocional e mais forte, acabando por sucumbir à pressão, algo similar ao que se passou com outros talentos do futebol mundial e português. Por fim, é só ver como Agostinho Cá jogava pelos sub-19 ou sub-20 de Portugal para perceber que quando tinha o seu espaço, nutria uma dinâmica especial e um gosto apaixonante pelo futebol, traduzindo isso em exibições de qualidade pelas Quinas, algo que motivaria o tal interesse de um dos titãs do futebol mundial.

O talento estava lá, as oportunidades até surgiram, mas por vezes é necessário algo mais para se afirmar num dos palcos mais difíceis do desporto mundial, como demonstra o exemplo de Agostinho Cá.


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