Japão: a nova ameaça aos títulos e ouros mundiais no desporto?

Francisco IsaacSetembro 25, 20188min0

Japão: a nova ameaça aos títulos e ouros mundiais no desporto?

Francisco IsaacSetembro 25, 20188min0
O País do Sol Nascente tem despertado para grandes feitos no desporto mundial nos últimos anos mas até onde pode ir o Japão?

Naomi Osaka aos 20 anos de idade sobe a um dos pontos mais altos do Circuito de Ténis Mundial, com a vitória no US Open ante Serena Williams, uma das mais tenistas de todos os tempos. A japonesa conquista assim o seu primeiro Grand Slam, depois de anos de trabalho e de uma afirmação no contexto mundial contínua. Foi, também, a primeira vez que uma atleta japonesa conquistou um torneio do Grand Slam do WTA.

A ascensão meteórica de Naomi Osaka vem em larga medida pelo seu desenvolvimento fora-de-portas, especificamente o seu treino e aprendizagem nos Estados Unidos da América, considerado como um dos países de topo no que toca a essas duas componentes. Contudo, o caso de Osaka não é único uma vez que Kei Nishikori tem sido uma presença regular no top-5/10 mundial do Circuito ATP (agora está no 12º lugar do ranking), uma demonstração clara do crescimento do Japão enquanto “devorador” de torneios e títulos no Ténis mundial.

Em termos de atletas, tanto no top-100 de homens como mulheres, encontramos um total de cinco tenistas nipónicos, um número ainda “escasso” mas compreensível para um país que se está a redescobrir nesta modalidade. Mas os sucessos de Nishikori e Osaka são ilustrativos do desenvolvimento do desporto japonês à escala mundial, ao ponto de estarem a tentar ombrear com outras nações?

O ACORDAR DO NOVO JAPÃO AO SOM DOS ANOS 90

Neste momento, 69% da população japonesa pratica um desporto pelo menos, numa real demonstração da importância da actividade física no dia-a-dia. Um país que sempre procurou manter uma vida sadia e activa, só nos últimos trinta anos começou a deixar a sua marca no que toca a grandes eventos mundiais, apesar de participar nos Jogos Olímpicos desde 1912.

Foi especialmente a partir do final dos anos 90 que começou a singrar a nível desportivo, com destaque para algumas metas alcançadas:

– Mundial de Futebol de 1998 em França, terminando em 31º;

– Mundial de Futebol de sub-20 de 1999, terminando como vice-campeões;

– Jogos Olímpicos de Verão de 1996 em que contabilizaram 14 medalhas, para além de terem entrado 300 atletas (número mais alto desde 1964, quando entraram com 360);

O futebol, que só se padronizou e obteve números interessantes a partir de 1996, foi esta grande novidade naquilo que viria ser um “oceano” de novas descobertas para os nipónicos que no século XXI iriam atingir outros sucessos dentro do desporto. Porém, temos de entender que os anos 90 foram a reviravolta para o desporto japonês, depois de uma final da década de 70 e os anos 80 de profunda recessão económica, com vários desportos a ficarem sem os fundos necessários para atingir outro tipo de desenvolvimento.

reboot revelou-se difícil, tirando o Japão do top-5 do andebol, voleibol, atletismo (seja salto ou corrida), forçando um recomeço quase do zero. Nos últimos 20 anos, vislumbrou-se não só uma recuperação como uma reafirmação das várias modalidades em diferentes provas internacionais.

Nos Jogos Olímpicos conseguiram por uma vez terminar no top-5 (Atenas 2004) e atingiram o seu máximo de medalhas coleccionadas desde sempre (Rio de Janeiro 2016), sendo reconhecidos como um dos contenders neste evento. Este crescimento foi possível devido ao desenvolvimento de infra-estruturas e aplicação de uma nova vaga de investimento no desporto japonês, que tem garantido a presença dos mesmos em competições de atletismo ou natação (Ippei Watanabe detém o recorde de 200 metros em bruços, conquistado em 2016 nos JO).

Se o Japão no judo, luta-livre e ginástica tem um passado (quase) sempre de sucesso, a natação e atletismo começaram a ganhar importância no últimos trinta anos e que vai para lá da obtenção de medalhas ou recordes, mas também de habituação e presença em torneios asiáticos, internacionais e mundiais. Atletas como Kosuke Hagino (natação), Shohei Ono (judo), Misaki Matsutomo e Ayaka Takahashi (badminton), Rie Kaneto (luta-livre), Masato Sakai (natação) e Ryohei Kato, Kazuhito Tanaka, Yusuke Tanka, Kohei Uchimura e Koji Yamamuro (equipa de homens de ginástica artística) têm escrito o seu nome com letras de ouro (ou prata), expondo os resultados da aposta do desporto japonês em diversas modalidades olímpicas.

A AFIRMAÇÃO DO EXÓTICO NO FUTEBOL E O IMPROVÁVEL NO RUGBY

Para além destas, há os casos claros do futebol ou rugby. A nível de futebol 11, o Japão não falha uma participação num Mundial desde 1998 e já chegou ao 9º posto do ranking geral das selecções em Mundiais (África do Sul 2010). A liga japonesa de futebol, J-League, é considerada uma das mais animadas, dinâmicas e exóticas do Planeta, tendo  sempre uma boa quantidade de futebolistas brasileiros e sérvios nos últimos trinta anos, algo que conferiu um sabor especial à competição.

Na Liga dos Campeões da Ásia, estão atrás da Coreia do Sul como país com mais conquistas, superando os clubes milionários da Chinese Super League. O Urawa Red Diamonds tem sido o grande representante na prova, com dois títulos levantados nos últimos 11 anos. O futebol de clubes possui uma qualidade satisfatória, em que se identifica o futebol de posse, velocidade e aposta no excentricidade do ataque.

Para além disso, a selecção japonesa já ganhou por diversas vezes a AFC Asian Cup (só no século XXI são a formação com mais títulos nesta competição, com três), tem impulsionado diversos nomes-fortes para o contexto internacional (Shinji Kagawa, Genki Haraguchi, Hiroki Sakai e Gotoku Sakai são, neste momento, as grandes estrelas do futebol japonês, com os quatro em boas equipas europeias).

Em relação à bola oval, o Japão participou desde 1987 nos Mundiais de rugby, muito pelo facto de não existirem grandes nações asiáticas a singrar na modalidade. Apesar disso, o desenvolvimento dos últimos 15 anos foi fenomenal, ao ponto que no Mundial 2015 conseguiram derrotar a super-favorita África do Sul, terminando num histórico 3º lugar da fase-de-grupos.

Essa vitória por 34-32 ante uma selecção que conquistou o título mundial por duas ocasiões, não foi o início de algo fantástico, mas foi a demonstração que o investimento japonês no rugby estava a dar os “frutos” de um trabalho de qualidade a nível de formação, captação de jovens atletas e afirmação do Campeonato de Rugby do Japão, este que tem atraído vários nomes conhecidos da oval, como Dan Carter (um dos melhores All Blacks de sempre), David Pocock, Matt Giteau, Duane Vermeulen, entre outros.

O fenómeno de atletas de reconhecida qualidade às mais variadas ligas de desporto japonês não é um caso raro, uma vez que Andrés Iniesta saiu do FC Barcelona para assinar pelo Vissel Kobe. O Japão é um país que não só garante bons salários, como confere uma vida estável e segura, algo que tem atraído não só atletas em actividade, como técnicos e dirigentes, desenvolvendo gradualmente as técnicas de treino, formação especializada entre outros pormenores fundamentais para o crescimento nipónico.

Em suma, o século XXI tem sido bom para o desporto japonês que tem não só obtido títulos e recordes de elevado gabarito, como tem provado que o País do Amanhecer voltou a acordar de um longo sono para atingir novos topos tanto nos Jogos Olímpicos, Mundiais de Futebol, Mundiais de Rugby, Mundiais de Natação, Grand Slams de Ténis, as Competições Internacionais de Judo, entre outros.

Num país com 127 milhões de pessoas, praticamente 70% pratica pelo menos uma modalidade e a larga maioria não abdica de uma vida activa em que o desporto encaixa-se no seu quotidiano. A cultura desportiva japonesa é uma das mais apaixonantes e animadas, munida de um espírito de Fair Play e companheirismo sensacional que tem influenciado positivamente o desporto mundial. Lembrar que o desporto com mais adeptos e praticado é o baseball (e softball), para além do Judo, luta-livre, sumo, desportos motorizados, só para citar os mais importantes.

Resta a pergunta: conseguirá o Japão aumentar o seu pecúlio de medalhas nos próximos Jogos Olímpicos ou competições mundiais? Será impossível chegarem às meias-finais de um Mundial de futebol ou de rugby?

O Acordar do Japão no Mundo do Rugby 


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