Goleadores ou não goleadores, o problema actual do FC Porto

Francisco IsaacSetembro 19, 20209min0

Goleadores ou não goleadores, o problema actual do FC Porto

Francisco IsaacSetembro 19, 20209min0
A ausência de um homem-golo pode ser o problema que actualmente (e nos últimos anos) que define o FC Porto? Terão os goleadores assim tanta importância na equipa de Sérgio Conceição?

Há ou não em Portugal, e no FC Porto, uma crise de goleadores que se tem intensificado nas últimas temporadas? No caso do futebol português tem se observado o surgimento de cada vez mais médios prolíferos (Bruno Fernandes e Pizzi), com alguns avançados a entrarem no Hall of Fame como Bas Dost (93 golos em 127 jogos pelo Sporting CP, divididos em três temporadas), Jonas (nas cinco épocas de águia ao peito chegou quase aos 140 golos) ou Mitroglou (52 tentos em 82 encontros, tendo uma média interessante), com qualquer um destes três a conseguirem chegar ao top-3 dos melhores marcadores em duas temporadas diferentes, nas últimas cinco épocas, considerando a actual neste conjunto.

TIQUINHO SOARES… UM JOGADOR DE MONTANHAS-RUSSAS EXIBICIONAIS

Ou seja, a começar em 2015/2016 e a acabar em 2019/2020 tivemos poucos repetentes na lista de goleadores do campeonato português e em nenhuma destas temporadas surgiu qualquer avançado do FC Porto a terminar no 1º lugar o que demonstra a falha gritante existente dentro de um clube que já teve a honra de ter excelentes homens-golo nos últimos 20 anos como Jackson Martínez, Radamel Falcao, Hulk, Lisandro Lopez ou Benni McCarthy. Contudo, este facto não impediu de alguma imprensa nacional distorcer algo os factos e apontar Tiquinho Soares como um dos maiores artilheiros do futebol português dos últimos cinco anos, apesar do avançado luso-brasileiro apresentar somente 64 golos marcados na Liga NOS e um total de 65 nas cinco últimas épocas, tendo recebido a primazia de ser titular na larga maioria dos jogos pelos três clubes que representou nesse período de tempo.

De acordo com uma notícia extraída de Abril de 2020 do jornal O Jogo, Tiquinho Soares é o avançado a actuar em Portugal com melhor registo de golos desde 2015, numa tentativa de iludir os adeptos do FC Porto no sentido de que o ponta-de-lança é uma mais-valia e um goleador prolífero. Observando as estatísticas, Soares apresenta uma média de 0,47 tentos por jogo, revelando uma eficácia pouco “elegante” para um clube da dimensão dos azuis-e-brancos especialmente nos jogos grandes (registou uma grande exibição frente ao Sporting CP na época a decorrer mas pouco mais) ou na Europa, tema já tratado em outro artigo sobre Soares.

Um dos melhores jogos de sempre de Soares pelo FC Porto frente ao Sporting CP

Em cinco épocas, só por uma ocasião é que Soares conseguiu chegar ao pódio, isto na época 2016/2017 com 19 golos – 3º lugar -, terminando sempre abaixo das duas dúzias de remates certeiros o que pode explicar os problemas constantes dos dragões em conseguir ter uma expressão totalmente imperial no ataque. Moussa Marega é dos atletas actualmente mais criticados por parte da massa associativa do emblema portuense, mas a na realidade é que já atingiu por uma ocasião as duas dezenas de golos (2017/2018 – 22 golos) na Liga NOS, não ocupando sequer a posição de referência de área que Tiquinho Soares assume, levantando-se assim ainda mais questões em relação à qualidade ou não do antigo atleta do Vitória SC.

Na temporada terminada em Julho, sentiu-se a ausência de uma referência na área que efectivamente não só marcasse pela diferença mas também pela consistência…. Zé Luís ainda deu um vislumbre de alguma qualidade, perdendo a forma devido a uma lesão e alguns problemas internos com Sérgio Conceição – e está neste momento na lista de transferíveis; Fábio Silva apesar da jovialidade dinâmica ainda não está pronto para assumir o protagonismo total e a pressão de ser o homem-golo – saiu para o Wolves a troco de 40M€, ficando o seu desenvolvimento encarregue a Nuno Espírito Santo; e Vincent Aboubakar não mereceu confiança, muito por causa dos problemas físicos que o assolaram durante duas temporadas consecutivas – também ele na porta de saída; e, por fim, Moussa Marega que esteve longe daquela qualidade física (e alguma técnica) que fez a diferença em momentos importantes das duas últimas épocas, notando-se pouca aptidão na hora de marcar ou assistir dentro da área, mas mesmo nessa toada menos boa conseguiu ser o melhor marcador do FC Porto no campeonato com 12 golos.

REMATES NEM POR ISSO CERTEIROS: DE QUEM É A RESPONSABILIDADE?

Ou seja, o FC Porto está desprovido de um goleador-puro que realmente dê outra resposta nas oportunidades criadas e no reinício de temporada, depois da paragem entre Março e Maio, foram visíveis essas dificuldades: frente ao Famalicão 6 remates foram enquadrados com a baliza (foram 17 ao todo com a maioria a passar ao lado), um deles resultou em golo (Corona) e os restantes foram interceptados por Defendi ou por um defesa dos famalicenses; na recepção ao CS Marítimo, os dragões realizaram 12 remates com 8 a chegarem à baliza, mas só um ultrapassou a linha de golo (Corona); dos 18 tiros alvejados à baliza do Aves só 7 chegaram às mãos de Fabio Szymonek, não se dando qualquer remate certeiro, o que forçou um empate contra o último classificado; no dérbi da Invicta, houve uma verdadeira hemorragia de golos na 2ª parte com quatro golos em 12 remates, 8 bem enquadrados com a baliza, significando isto uma eficácia de excelência; na visita ao difícil campo do Paços de Ferreira, só surgiu um golo nos três alvejamentos que foram às redes (dentro das 5 tentativas de remate); e, finalmente, ante o Belenenses SAD assistiu-se a uma meia dezena de golos, que surgiram entre 7 remates direccionados às redes de um total de 15 realizados. Frente ao Tondela, Sporting CP e Moreirense (melhor registo da época de golos marcados e remates enquadrados eficazes), a situação foi similar aos jogos anteriores.

Como se pode ver, a larga maioria das tentativas de remate dos dragões de Sérgio Conceição nunca chegaram à baliza e mesmo as tentativas que foram enquadradas com os postes não surtiu qualquer golo, acentuando-se a crise de poder de “fogo” – tirando a goleada ao Moreirense foi raro o jogo em que marcaram mais que dois golos -, especialmente nos jogos fora, que tem afectado constantemente este FC Porto.

Se Corona, Alex Telles, Luis Diaz, Otávio e Sérgio Oliveira têm tentado fornecer bons passes e cruzamentos – para além dos 38 golos marcados por estes cinco no somatório de todas as competições -, a verdade é que os quatro pontas-de-lança presentes no plantel conseguiram 49 remates certeiros em toda a temporada, mas só 30 para a Liga NOS, menos 2 em comparação com a época passada (para esta contextualização, só optámos por escolher quatro avançados de 2018/2019, nas pessoas de Tiquinho Soares, Moussa Marega, Vincent Aboubakar e Adrián Lopéz).

Mas a crise de golos dos dragões deve-se à qualidade individual de Tiquinho Soares e os restantes pontas-de-lança ou é sobretudo culpa da perda de qualidade dos ideais de jogo por parte de Sérgio Conceição? Ou ambos? É uma questão delicada de perceber, pois desde que Sérgio Conceição assumiu o lugar deu-se uma espécie de montanha-russa em termos de crescimento e decréscimo nos números de golos marcados: 82 na temporada em na primeira época, do primeiro título (2017/2018); 72 na anterior (2018/2019); e, 73 na campanha que agora findou, falando só em remates certeiros apontados no campeonato.

A qualidade de jogo estagnou num primeiro momento para se seguir um revés total, como revelam os maus resultados somados na Europa na época passada e, em parte, a pouca eficácia do ataque pode ter contribuído para a instabilidade emocional da equipa durante certos jogos (e até da época quase no total). Mesmo que a qualidade do futebol possa ter sido algo mediana – foram poucas as exibições de futebol dinâmico e explosivo, ou similar ao que foi em 2017/2018 -, os avançados do FC Porto não podem dizer que não tiveram francas boas oportunidades para subir o número de golos e não há forma de fugir à responsabilidade das várias más exibições registadas seja no marcar golos ou serem decisivos quando mais importa.

3Tiquinho Soares foi e é o avançado referência desde que Sérgio Conceição assumiu o lugar de treinador – em certos momentos houve uma afastamento, mas foi rapidamente resolvido – e está longe de ser um jogador que fique na história dos portistas seja pelo número de golos somados, pelas exibições realizadas ou, pelo simples facto, de nunca ter realmente conquistado o seu lugar no clube.

Nesta sequência, a chegada de Mehdi Taremi (melhor marcador do campeonato a par de Carlos Vinícius e Pizzi, todos com 18 golos) parece demonstrar que claramente o sector avançado do FC Porto precisava de uma nova referência, apostando num jogador já feito e que efectivamente provocou impacto no campeonato português, com uma presença de área dominante, ágil e agressiva, sendo claramente uma unidade ao jeito e gosto de Sérgio Conceição. Não só isso, como a direcção dos dragões apostou na contratação de uma jovem promessa do futebol canarinho, com a vinda de Evanílson para poder fazer sombra a Taremi ou até jogar com o ponta-de-lança ex-Rio Ave, e isto pode ajudar na argumentação de que o ataque dos azuis-e-brancos não estava bem e precisava de uma mudança quase total para dar outra vida e voz ao ataque dos campeonatos nacionais. Agora será a prova dos 9 para Sérgio Conceição, que recebeu bons reforços e “perdeu” jogadores que não eram importantes para o 11 titular, tendo uma equipa ao seu gosto e jeito para o ataque ao bicampeonato.


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