A Dialética do Relvado: Maestrelli, o Partigiano que Fez a Lazio campeã
O futebol nunca foi uma ilha deserta, imune às tempestades do mundo. Para nós, que olhamos para a história não como uma sucessão de datas aleatórias, mas como o resultado do choque constante de forças e contradições materiais, o desporto é apenas mais um palco onde a vida social se desenrola. E poucos episódios ilustram tão bem a ironia dialética da história italiana do que o “Scudetto” conquistado pela Società Sportiva Lazio na época de 1973/1974. No centro deste furacão, ergue-se a figura de um homem cuja biografia desafia qualquer narrativa simplista: Tommaso Maestrelli.
A Itália do início da década de 1970 fervilhava. Eram os “Anos de Chumbo”, marcados pela tensão de classes, pelo terrorismo de Estado e pela violência nas ruas. O balneário daquela Lazio de 1974 era o reflexo destrutivo dessa sociedade: uma equipa dividida em dois clãs que se odiavam, liderados por Giorgio Chinaglia e Pino Wilson. Os jogadores andavam armados, disparavam contra candeeiros nos estágios e muitos simpatizavam abertamente com a extrema-direita neofascista. Era um barril de pólvora pronto a explodir. E, no entanto, quem domesticou esta anarquia e a transformou numa máquina de vitórias foi um homem calmo, de sorriso sereno e convicções de esquerda inabaláveis. Um homem que, antes de ser o arquiteto do primeiro campeonato da Lazio, fora o “Partigiano Tommy”.
Para compreendermos o treinador, temos de analisar a materialidade do homem e as suas escolhas quando a história lhe exigiu uma tomada de posição. Nascido em Pisa mas adotado por Bari, o jovem Tommaso não virou a cara quando as contradições do fascismo italiano colapsaram sobre si mesmas. Como a investigação histórica e os registos da ANPI (Associação Nacional dos Partigiani de Itália) demonstram de forma inequívoca, a juventude de Maestrelli foi forjada no fogo da Segunda Guerra Mundial.
Após o armistício de 8 de setembro de 1943, quando o exército italiano se desfez e a escolha era entre juntar-se à República de Salò (o estado fantoche de Mussolini) ou resistir, Maestrelli fez uma escolha de classe e de consciência. Destacado na frente dos Balcãs, mais concretamente na Albânia, ele não hesitou. Juntou-se à Resistência. Os documentos não mentem: Tommaso Maestrelli possuía a “tessera di partigiano”, o cartão oficial que certificava a sua participação ativa na luta armada pela libertação contra o nazifascismo. Ele conheceu a fome, o frio, a organização clandestina e o cheiro da pólvora num contexto onde perder significava a morte, e não apenas descer de divisão.
É esta práxis de vida, esta experiência material de resistência e coletivismo, que explica o milagre de 1974. Quando Maestrelli chegou àquele balneário da Lazio cheio de armas e egos inflamados, ele não se assustou. Afinal, o que eram as pistolas de Chinaglia e companhia para um homem que tinha combatido com espingardas nas montanhas albanesas para libertar o seu país do jugo fascista? Onde os outros viam loucos incontroláveis, o ex-partigiano via homens que precisavam de um propósito comum. Através de um humanismo profundo e de uma autoridade moral inquestionável, ele uniu aqueles indivíduos alienados num coletivo solidário no relvado. Aplicou a disciplina da guerrilha no futebol total.
E aqui chegamos à suprema ironia da história, aquela contradição que faria Marx ou Gramsci sorrirem perante a sua complexidade. A Lazio é um clube cuja base de apoio mais ruidosa — e as próprias origens sociológicas em certos períodos — esteve e está profundamente conotada com a extrema-direita italiana. Os seus adeptos radicais exibem símbolos neofascistas e entoam cânticos que ecoam um passado sombrio.
No entanto, o motor da história tem um apurado sentido de humor. O primeiro e mais mítico triunfo desta instituição, o “Scudetto” que os tirou da sombra da Roma e os inscreve na eternidade, não foi obra de um reacionário. Foi o produto direto do trabalho, do intelecto e do suor de um homem de esquerda. A maior glória de um clube apropriado pela direita italiana foi-lhe entregue pelas mãos de um antifascista convicto. Os braços esticados na Curva Nord em 1974 celebravam, sem talvez o saberem, a obra-prima de um herói da Resistência. Tommaso Maestrelli, o Partigiano, provou que, no fim das contas, é sempre a vontade coletiva que constrói os verdadeiros triunfos.



