Diário do Treinador – Os processos da Juventus de Pirlo

Fair PlayNovembro 11, 202010min0

Diário do Treinador – Os processos da Juventus de Pirlo

Fair PlayNovembro 11, 202010min0
Paulo Meneses regressa à sua coluna de análise e explica como a Juventus se mexe dentro de campo, usando o jogo frente ao Ferencvaros como exemplo.

O Diário do Atleta está de regresso com Paulo Meneses – ex-treinador Principal do Aizawl FC em 2017-18 e que participou na Champions League Asiática – a fazer uma análise do jogo Ferencvaros – Juventus, para a Liga dos Campeões para perceber como a Vecchia Signora de Andrea Pirlo estabelece o seu jogo.

O treinador vai apresentar a sua visão daquilo que foi o jogo, através dos momentos do jogo. No que diz respeito ao momento ofensivo, veremos como é que a Juventus com a sua dinâmica ofensiva tentou desorganizar a estrutura defensiva do Ferencvaros, criando muitos problemas para o adversário, principalmente no meio campo ofensivo. No caso do defensivo, veremos como a equipa de Cristiano Ronaldo condicionou o momento ofensivo do adversário.

Momento Ofensivo: Construção

A Juventus apresentou uma construção a 3, com Bonucci mais à direita, Chiellini no meio e Danilo mais esquerda. Cuadrado deu sempre muita profundidade pelo seu corredor, formando uma linha de 3 com os 2 Médios Centros (Artur e Rabiot). De referir que, sendo Danilo destro, acaba por dar à construção da Juventus, muito jogo interior, encontrando várias vezes os Médios Centros.

Como podemos observar nesta imagem, a disposição dos 3 defesas quando têm bola, é com Chiellini mais recuado, formando 2 linhas, ganhando assim mais altura Bonuci e Danilo.

Como vemos nesta figura, muitas das vezes, a construção da Juventus faz com os 3 Defesas e Rabiot, formando um losango ficando Artur e Cuadrado numa linha mais alta. Depois durante o jogo, seria Artur a realizar o vértice mais avançado com os 3 defesas, e seria o outro médio centro – Rabiot a ganhar altura.

Muitas das vezes, a Juventus rodava a bola pelos 2 defesas quando chegava a bola a Danilo, e ele por sua vez trocava a bola com Chiellini por diversas ocasiões, e quando esta chegava a Bonucci, aparecia Ramsey entre linhas por dentro, explorando o espaço entre linhas (deixando o corredor para Cuadrado).

Construção – a preferência: Bonuci

Podemos ver na imagem seguinte, que Bonucci tem 2 opções para decidir, conforme o comportamento do extremo esquerdo e do médio interior esquerdo adversário. É notório que a Juventus prefere construir por Bonucci, devido à sua grande capacidade de construção seja pela qualidade de passe e poder de decisão.

Ou seja, se o extremo fecha dentro para que a bola não entre em Ramsey, Bonucci joga em Cuadrado, se o extremo não fecha eficientemente dentro, Bonucci joga entre linhas em Ramsey.

Aqui, na minha opinião, Artur tem um papel muito importante, que é “bloquear”, atraindo a atenção do medio interior esquerdo adversário para que a bola possa entrar entre linhas no Ramsey.

Dinâmica Flanco Direito

Também deu-se algumas vezes – quando a linha de passe do Ramsey está fechada – Bonucci jogar directamente no ponta-de-lança, protagonizado na maioria das ocasiões por Álvaro Morata do lado direito (que deixa a bola em apoio de frente nos Médios ou Defesas Centrais, ou combina directamente com CR7 ou descarrega na ala para Cuadrado).

Uma vez a bola entrava no lado direito, neste caso em Cuadrado, havia um acelerar do jogo, para apanhar a defesa adversária de frente para a sua baliza, e com metros para os atacantes da Juventus poderem atacar os espaços em profundidade.

Como podemos ver na imagem seguinte, apareciam os dois Ponta de Lança (Morata e CR7)  em deslocamento rápido para área.

Chegadas à área pelo flanco direito

Na imagem seguinte, podemos ver, quando Cuadrado ganhava profundidade pelo corredor direito, apareciam vários jogadores na área, para poderem finalizar. Neste caso, os dois pontas-de-lança, Morata e Cristiano Ronaldo, o espanhol ao 1º poste, o português no meio da baliza e Chiesa ao 2º poste. Rabiot ficava algumas vezes fora, outras vezes entrava também na área, para ganhar mais presença aí nesse ponto através da sua estatura.

No caso da dinâmica do corredor direito, vimos que a Juventus tentava desorganizar a estrutura defensiva do Ferencvaros, através de um jogo associativo, de jogo dentro-fora, fruto das características dos jogadores que jogam no flanco direito (Ramsey ou Cuadrado).

Vários ataques da equipa italiana, tiveram essa dinâmica pelo flanco direito. Como podemos observar na próxima imagem, o melhor exemplo dessa eficácia da dinâmica do flanco direito, foi o 1º golo da Juventus. Passe em profundidade de Bonuci para Cuadrado, este ganha a linha de fundo, cruza para a entrada ao 1º poste de CR7, e Morata encostar ao 2º Poste.

Também se pode ver, que sempre que existia essa dinâmica pelo flanco direito, e no caso de Cuadrado ganhar a zona de pré-finalização, apareciam sempre três homens na área (Morata, CR7 e Chiesa) com Rabiot à entrada para dar uma solução de ressalto ou de aproveitamento de um corte mal esboçado.

Dinâmica Flanco Esquerdo

Já no caso do flanco esquerdo (com as aproximações e acelerações de CR7, com a capacidade de passe e da capacidade de aparecer no espaço – entrando de 2ª linha do Médio Centro Rabiot e com as acelerações desde trás do Médio/extremo Chiesa – um desequilibrado nato) era um pouco diferente.

Então, essa dinâmica na ala esquerda era mais “repentista”, com um futebol mais em velocidade. Uma dinâmica ajuda a outra, ou seja, na minha opinião, a estratégia ofensiva da Juventus, passava um pouco por atrair o bloco defensivo do Ferencvaros, através da posse de bola, atacando pelo flanco direito – se conseguisse chegar às zonas de pré finalização com Cuadrado e/ou Ramsey, colocava 3 jogadores na área (como vimos) -, mas por vezes, atraía o Ferencvaros nesse flanco, para depois quando a bola girava para o flanco esquerdo, existisse o espaço suficiente para que as características de CR7 e Chiesa aparecessem mais eficientemente.

Como podemos observar na imagem seguinte, este triângulo formado por CR7, Chiesa e Rabiot, acaba por ser bastante dinâmico, pelas características destes 3 jogadores.

Neste caso vemos, Chiesa a associar-se com Cristiano Ronaldo, porque ao ser destro, tem essa tendência, em procurar o jogo interior, e sendo o português um jogador que segura a bola de costas com total eficiência, este tipo de movimentos é bastante solicitado por Chiesa, para depois partir em velocidade com a bola deixada por CR7 de frente, e pelo espaço criado por si, uma vez que arrasta o defesa com ele. Também, se pode dar a entrada de Rabiot no espaço, uma vez que é um jogador veloz em espaços longos, e é o medio centro com mais liberdade para atacar esses espaços, ficando Artur mais nas funções de equilíbrio.

Equilíbrios enquanto a Juventus ataca

A Juventus quando chegava ao ultimo terço do terreno, apresentava uma estrutura: Chiesa e Cuadrado davam largura ao ataque, Cristiano Ronaldo e Morata ocupavam a grande área, Rabiot, ficava fora de área e eram Artur e Danilo que ficavam lado a lado numa linha inferior ao médio francês (formando um triângulo com Artur e Danilo), para poderem circular a bola de um corredor para outro corredor, mas também para serem os primeiros jogadores a realizarem a pressão depois da perda da bola.

Momento Defensivo: Pressão Bloco Alto

Quando o Ferencvaros iniciava o seu processo ofensivo pelo seu guarda-redes e os dois defesas centrais, vemos que Morata e Cristiano Ronaldo condicionavam a saída através de uma pressão alta. Na imagem seguinte, podemos ver, a Juventus, numa estrutura de quatro Médios + dois Ponta de Lanças.

Nesta imagem, podemos analisar o momento em que o GR do Ferencvaros move a bola para o seu central mais descaído para a esquerda, há uma basculação de Morata e CR7, assim como da linha de quatro médios centros da Juventus, sendo que Chiesa, “abandona” a zona do lateral direito, para “proteger” as costas a Rabiot, funcionado como o 3º médio centro, no momento defensivo.

A Juventus, na sua pressão em bloco alto, alternava a sua forma de pressionar. Neste caso, vemos que é o médio centro, Arthur, quem salta na pressão ao seu homólogo do Ferencvaros, “bloqueando” assim a saída em curto pelo guarda-redes.

Ficam Morata e Cristiano Ronaldo com os dois defesas centrais, e Artur com o médio centro. E mais uma vez, vemos Chiesa, juntando-se aos membros do meio-campo.

Eficácia no jogo aéreo Defensivo + 2ª Bolas

O GR (e às vezes os defesas) acabam por jogar longo, onde a Juventus, bem posicionada e com jogadores muito bons no jogo aéreo, ganha vantagem. Na imagem seguinte, vemos um defesa da Juventus a ganhar a bola aérea, e vemos a aproximação da linha de 4 Médios, para ganhar vantagem posicional, para ganhar a 2ª bola.

Zona de Pressão nas Laterais

Na próxima imagem, conseguimos ver, como a Juventus realizava o pressing alto nas zonas laterais, depois de uma “canalização” do jogo ofensivo do Ferencvaros para os corredores laterais.

Vemos Chiesa, a fazer um movimento desde dentro, para cortar a linha de passe interior, também podemos observar a subida de Danilo para pressionar o Extremo, e por dentro reparamos que Rabiot está em marcação ao homem do meio-campo opositor. Deste modo, os jogadores da Juventus, ou roubavam a bola, ou faziam com que o Ferencvaros jogasse longo (e às vezes mal), sendo assim bastante eficazes.

Bloco Baixo – Juventus

A Juventus apostou por um bloco baixo, para defender-se dos ataques do Ferencvaros, através de duas linhas de quatro, bem juntas, deixando Morata e CR7 no ataque, para preparar o momento ofensivo.

Nesta imagem, vemos que, com a Juventus em vantagem no marcador, os dois ponta-de-lança  não se juntam ao bloco defensivo. Se bem que, durante o jogo, por vezes é Morata que baixa para funcionar como 3º Médio, deixando mais livre na frente a CR7, para preparar o ataque quando a Juventus recupere a bola.

Podemos observar também que, o Médio Centro do outro lado da bola, baixa um pouco ficando numa linha mais baixa, para ocupar o espaço entre linhas, protegendo assim a frente dos 2 Defesas Centrais.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter