O dar palco a quem não merece e não importa: um tique dos media actual?

Francisco IsaacJulho 24, 20206min0

O dar palco a quem não merece e não importa: um tique dos media actual?

Francisco IsaacJulho 24, 20206min0
A imprensa tem sido alvo de críticas por criar constantemente polémicas e controvérsias desnecessárias que geram um debate negativo no desporto. Os media como problema para a reflexão que o futebol merece explicado neste artigo

Arno Rossini, sabem quem é? O Wikipedia pode oferecer algumas parcas informações sobre um treinador suíço que teve direito a palanque para simplesmente falar mal de Xerdan Shaqiri, insultá-lo e humilhá-lo de uma forma sem nexo e que nem se percebe o porquê de ter recebido este direito por parte de vários sites de respeito como o GoalPundit Arena ou Tribal Football, sem esquecer que jornais desportivos portugueses que também aproveitaram para traduzir as palavras de Rossini e lançarem nos seus websites de forma a caçar o clique. Como é que Arno Rossini, um perfeito ou total desconhecido do futebol profissional e de proa consegue ter tempo de antena para simplesmente ofender (nem pode ser aceite como crítica) um dos maiores nomes da Suíça dos últimos anos?

Porque simplesmente traz polémica. Somente isso e esse pormenor deveria forçar uma reflexão de cada leitor no porquê dos televisões, jornais, sites e blogs aceitarem oferecer espaço a este tipo de individualidades para exprimir uma opinião que podendo não estar completamente errada, é desprovida de senso comum, respeito, dignidade e fairplay. Não estamos a dizer que se devem silenciar todas as opiniões, mas porque é que se devem trazer este tipo de comentários e críticas desprovidas de senso para a ribalta quando existem personalidades desportivas com outra eloquência e inteligência que podem sabiamente participar nos debates, trazendo realmente uma análise que faça sentido e construtiva.

Cada um pode ter a opinião que quer – dentro dos moldes que respeite o próximo e não descenda para o racismo, xenofobia, preconceito ou discurso de apenas humilhação – mas os meios de comunicação social têm a obrigação de fazer uma triagem inteligente e correcta, mesmo que isso implique não ter artigos tão clicáveis ou visualizações loucas em programas de televisão, de modo a não forçar o público a viver num limbo informativo, que vai do excelente (as peças do Four-Four-Two por exemplo) ao fraco e pesaroso, merecendo o público outro nível de media.

Mas se a opinião de Arno Rossini acabará por ser rapidamente esquecida seja pelo desconhecido que é ou pelo facto de que distorce factos a seu bel-prazer (Shaqiri jogou pouco a actual temporada, muito devido a lesões mas na época transacta foi importante para os Reds) – e não partilhámos a opinião de propósito, porque a forma como está exposta vai contra ao que defendemos no Fair Play – não se pode dizer que comentários de outras individualidades sigam o mesmo caminho, como os de Gary Neville, Paul Scholes, Hristo Stoichkov, Jamie Carragher, Giovanni Cobolli Gigli, todos conhecidos e reconhecidos pela sua costela (ou várias) de polémica exacerbada a um patamar completamente absurdo, na maior parte das vezes.

Se Gary Neville provou do próprio veneno quando assumiu o lugar de treinador do Valência CF fracassando completamente, os outros continuam a fazer uso da sua experiência de jogadores ou dirigentes para evocar todo o tipo de opiniões e comentários que lhes surja na cabeça, mesmo que isso signifique invadir a vida privada de um dado “alvo” como aconteceu com Giovanni Gigli e Cristiano Ronaldo, lembrando que o antigo presidente da Juventus (entre 2006 e 2009) tentou criar uma polémica pelo internacional português ter se confinado na Madeira e estar a apanhar sol. Sim, esta observação minimamente ridícula de Gigli mereceu espaço na versão impressa da Gazzetta dello Sport e eco em diversos sites de outros jornais desportivos ou sites de informação e isto aconteceu porque é good business para fazer girar o cliqueómetro.

A imprensa desportiva (e a geral) não tem noção do impacto negativo que pode ter num dado indivíduo quando partilha este tipo de opiniões conturbadas, impondo uma sombra sobre a qualidade do mesmo, as suas opções técnicas/tácticas/pessoais/profissionais (continuamos sem perceber o porquê de ter que se falar das mulheres dos jogadores de futebol, denominadas por WAG’s, nos sites quando é algo que não tem nada a ver com desporto) que não vislumbra qualquer sentimento de responsabilidade para com o dano que está infligir. Não se está aqui a dizer que não se pode criticar um “agente” desportivo, seja ele jogador, treinador, dirigente ou apontar-lhe os erros seja dentro das quatro-linhas ou quando têm uma atitude negativa fora dos mesmos, mas há uma linha bem larga que separa a crítica construtiva e o simples despejar de palavras com uma mistura de comentários derrogatórios e de humilhação.

Numa era em que a informação circula a grande velocidade e que existe uma oferta de opções gigantesca, todos têm a oportunidade para dar força à sua voz, seja por blogs pessoais, sites de informação de menor dimensão, tweetsinsta stories, canais de youtube, lutando todos pela atenção de um público que procura ao mesmo algo “novo” mas também não consegue deixar de ler o antigo, vivendo numa roda-viva informativa. No meio deste universo sem fim de comentadores, analistas, escritores, é impressionante como os sites principais vão buscar na maior parte das vezes os artigos ou comentários mais problemáticos e controversos, invés de trazerem para a ribalta aqueles que realmente fazem pensar e querer discutir.

Indivíduos como Arno Rossini têm, pelos vistos, uma oportunidade para ter a sua opinião espelhada em alguns dos principais sites de informação e esse facto deveria preocupar no que queremos realmente ver disponibilizado nos websites ou jornais de referência nacional e internacional, ultrapassando as composições textuais de simples ódio, raiva e vexatórios.

O leitor pode e deve colocar a questão: a culpa é dos sites que decidiram alinhar por este caminho de criar polémicas vazias de interesse mas que vão servir para incomodar, irritar e causar discussões vazias entre quem lê e vê? Ou foram os leitores/visualizadores que forçaram os órgãos de comunicação social a optar por estas notícias e controvérsias porque as peças de análise e de debate mais profundo eram menos lidas ou vistas?


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