Os comentadores-futebolistas que “só” sabem falar

Francisco IsaacNovembro 28, 20187min0

Os comentadores-futebolistas que “só” sabem falar

Francisco IsaacNovembro 28, 20187min0
Ideias pouco desenvolvidas, opiniões sem construção argumentativa clara e utopias vendidas ao desbarato, tudo "normalidades" nos comentadores desportivos actuais. Qual o futuro do futebol?

Que desporto não tem os seus treinadores de bancada, que passam o tempo a dizer e a criticar de uma forma intempestiva os treinadores de grandes ou pequenas equipas e afirmando, por vezes, que fariam melhor se fosse lhes dada a oportunidade?

Desses treinadores-de-bancada uns quantos são ex-jogadores, agora no papel de comentadores desportivos em diversos programas televisivos seja em Espanha, França, Inglaterra ou Itália como o caso de Gary Neville, Hristo Stoichkov, Thierry Henry, que apontaram ou apontam erros aos treinadores que estão em campo, de forma diária, semanal, mensal e anual.

Curiosamente, estes três tiveram a oportunidade de fazerem valer as suas palavras e ideias quando foram convidados para assumir o cargo de treinador em diferentes equipas. E duplamente curioso é o facto dos três terem ou estarem a falhar redondamente, demonstrando que o futebol não é assim tão simples ou linear como fizeram parecer nos programas desportivos de segunda-feira (ou de qualquer outro dia da semana).

É uma doença actual do futebol, os comentadores que passam o tempo a fazer investidas contra treinador X ou Y, afirmando que fariam melhor se lhes fosse dada a oportunidade, opinando de uma forma muitas vezes não sustentada em factos ou completamente irreal e utópica.

A DOENÇA PERPETUADA PELO PEQUENO ECRÃ: OS TREINADORES-COMENTADORES

A televisão tem sido um espaço excepcional para o surgimento deste tipo de antigos futebolistas comentadores, que ao não conseguirem ter uma carreira sustentável como treinadores (de formação ou seniores) aproveitam para propagar as suas ideias e comentários, comprando a opinião pública com relativa facilidade, fazendo valor o seu estatuto como antigas lendas ou pela forma como se fazem entender.

Garry Neville, por exemplo, usa um tom e um discurso fácil, calmo e directo, usando palavras-chave rápidas que qualquer adepto menos versado nas várias filosofias de futebol compra, partilha e continua a dar seguimento. Para muitos adeptos, Neville tinha a postura ideal para assumir um clube de futebol e ter sucesso, pois esgrimava com facilidade o discurso, apresentava uma boa teoria futebolística e revelava um conhecimento vasto no trabalho a fazer com as equipas.

Contudo, como todos bem se lembram, Neville falhou redondamente na sua única experiência como treinador-principal ao serviço do Valência CF de Peter Lim. Com um plantel milionário, o melhor que o inglês atingiu foi um 13º lugar antes de ser despedido dos Che, depois de 8 derrotas em 16 jogos na La Liga. O futebol era pobre, com um 4-3-3 sem ideias e completamente medíocre em dinamismos, demonstrando exactamente aquilo que Garry Neville tanto vociferava na televisão.

Mas o antigo lateral inglês não foi de todo o pior, pois para esse lugar há vários por onde escolher e falamos de dois em especifico: Hristo Stoichkov e Thierry Henry. Vamos começar pelo búlgaro que foi uma das grandes lendas do futebol mundial, em especial nos culés entre os anos 80 e 90.

Stoichkov sempre foi dos maiores críticos das mudanças tácticas e das revoluções feitas por alguns treinadores, completamente louco nos ensinamentos de Johan Cruyff (irónico, no mínimo) e anti-merengue ao ponto que em 2014 ofendeu algumas vezes a qualidade técnica de Cristiano Ronaldo. O búlgaro recusava acreditar que o treino táctico e os desenvolvimentos estratégicos dentro da equipa eram de todo úteis, chegando ao ponto de afirmar na sua apresentação no Celta de Vigo em 2007 o seguinte,

“Eu não acredito em tácticas e posicionamentos tácticos.”

A entrada a pés juntos como treinador da equipa galega valeu-lhes uma descida de divisão e um início pouco auspicioso na segunda liga espanhola. Acabou despedido no meio de uma confusão total, com um futebol ilógico, desastroso perante adversários que colocassem uma pressão alta e sem que o plantel acreditasse no seu discurso.

Nenhuma das experiências a treinador do búlgaro foi proveitosa, tendo falhado ao serviço da Bulgária, Celta de Vigo, Sundowsns ou o Litex Lovech. Hoje em dia é convidado em alguns programas de futebol espalhados pelo Mundo.

Nunca admitiu que estava errado, preferiu atacar a direcção do Celta de Vigo e permanece sentado num cadeirão bem almofadado na televisão pública. Em 2015 deu-se o rumor que o Celta de Vigo estaria interessado em recruta-lo de novo mas rapidamente a direcção técnica do clube impediu a contratação do búlgaro. Curiosamente, em 2007 jogadores do plantel afirmaram que “como jogador foi excelente… como treinador é uma desgraça. Só fala dele e do que ganhou e do seu exemplo. Não consegue dar um treino do princípio ao fim.”.

As opiniões estranhas de Stoitchkov… bem espalhadas pela net

MONSIEUR HENRY E OS CRÍTICOS QUE TENTAM FORÇAR MODAS-POLÉMICAS

Mais recentemente, Thierry Henry recebeu um convite especial: regressar à sua equipa do AS Monaco, clube que o lançou no futebol profissional. Depois de um trabalho substancialmente positivo na Selecção Nacional da Bélgica (apesar de se ter exagerado na importância do francês na estrutura de Robert Martínez), o antigo extremo do Arsenal foi contratado pelos monegascos para salvar o clube da descida de divisão.

Desde que assumiu o cargo a 17 de Outubro, o francês sofreu seis derrotas e dois empates, 17 golos sofridos e só 4 golos marcados, numa clara entrada a frio no emblema do principado. Há elementos que atenuam o insucesso de Henry, como o facto do plantel não ser excelente ou de não poder contar com as suas melhores unidades devido a lesão ou castigo. Mas para quem falou excessivamente do que é o “bom futebol” na televisão, na realidade como treinador deixa muito a desejar.

Thierry Henry ainda vai no início da sua carreira como manager, verdade, mas afinal não é assim tão fácil meter uma equipa a jogar futebol de um dia para o outro. O reality check do francês deverá chegar mais tarde do que cedo, pois o Monaco atravessa dificuldades financeiras que impedirão de demitir Henry com facilidade.

Não significa que os comentadores desportivos devam se extinguir, mas o futebol necessita que quem comenta, discuta, debata e traga os pormenores tácticos e técnicos da modalidade para televisão tenha consciência das suas opiniões e dos argumentos que usa.

Hoje em dia é moda atacar José Mourinho por exemplo, como Paul Scholes, Ryan Giggs, Greame Souness (para além de ter sido um treinador com um futebol monocórdico, como comentador nunca teve uma linha de pensamento clara) Alan Shearer, David Platt ou Jamier Carragher, olhando a todos os pormenores (principalmente os mais desnecessários) para criticar o treinador português, sem se preocuparem com o contexto ou conteúdo.

Não significa que não se possa e não se deva criticar o vencedor de duas Ligas dos Campeões e duas Taças UEFA, mas ir aos detalhes mais insignificantes, esmiuçar todas as situações, procurar a controvérsia onde não existe nada demonstra a falta de qualidade e seriedade destes comentadores.

A importância conferida aos comentadores desportivos é desproporcional e desmedida, com o surgimento de cada vez mais “analistas” mal preparados e sem uma argumentação minimamente bem trabalhada na televisão. Os comentadores que sabem do esférico e das suas metamorfoses, filosofias e estratégias têm sido retirados do centro do debate porque não são o controverso ou polémico suficiente, para além de muitas vezes não terem um nome suficientemente forte para encantar os adeptos logo no imediato.

Até que ponto vale a pena trocar a cultura desportiva por cliques e visualizações? E até quando os adeptos vão se sentir defendidos por opiniões muitas vezes infundadas e/ou vistas de só um ponto de vista?

Entre polémicas e controvérsias, o caminho escolhido de Carragher e Neville


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