Onde é que anda o Flop: Mario Bolatti, o Gringo sem raça

Francisco IsaacFevereiro 7, 20188min0

Onde é que anda o Flop: Mario Bolatti, o Gringo sem raça

Francisco IsaacFevereiro 7, 20188min0
O FC Porto sempre foi bom em descobrir novos talentos e Mario Bolatti parece outra descoberta. Mas o trinco nunca pegou e fracassou nos azuis-e-brancos

Mario Ariel Bolatti… 32 anos foi anunciado como o grande reforço do Club Atlético Boca Unidos, formação que milita na Primera B Nacional, a divisão secundária do futebol argentino. Com um sorriso de orelha a orelha, o internacional pelas Pampas por doze vezes, quase que ofusca a foto oficial com aquele farta cabeleira dourada que reluz ao sol!

Após este início quase-poético de artigo, vamos à realidade crua: Mario Bolatti foi e é um trinco que despontou pontualmente em algumas equipas como a Fiorentina, Internacional e Racing, conquistando mesmo um lugar na selecção nacional dos albicelestes. Ao contrário do típico jogador raçudo, que morde as “pernas” do adversário, fisicamente irrepreensível e agressivo no approach à bola, Bolatti sempre foi um jogador mais virado para o trabalho técnico, a recuperação simples, o tentar expandir para o ataque e de condução de bola mais aprimorada.

O MENINO DE OURO DE BELGRANO

Recuando até o ano de 2003, o Club Atlético Belgrano, que produziu alguns talentos do futebol argentino, lançou um novato chamado de Mario Bolatti. Até aqui nada de anormal, pois o clube estava na segunda divisão e sofria de alguns problemas a nível de plantel, o que possibilitou a subida à primeira equipa num instante com apenas 18 anos. Já na altura o público apaixonou-se pela forma como o trinco tratava a bola, “penteando” com classe, transmitindo-a com glamour, sendo um excelente transmissor de jogo entre a defesa e o ataque.

Os anos foram passando e Bolatti foi assumindo um lugar de preponderância no meio-campo e o Belgrano deixou de ser uma equipa de meio da tabela, para lutar pela subida à divisão principal do futebol argentino. Carlos Ramacciotti operou essa subida de divisão (o único título da carreira do treinador) e Bolatti foi considerado um dos melhores da formação Celeste.

O mesmo repetiu-se na temporada seguinte em 2007, com Bolatti a entusiasmar os adeptos com o seu toque de bola, capacidade de esticar o jogo, de impulsionar os dinamismos do Belgrano e dar outro formato a uma equipa, que apesar das melhores intenções do trinco, terminou na descida de divisão. Para Bolatti o dramatismo não foi tanto, uma vez que houve um clube interessado na sua aquisição: o FC Porto.

Na altura falava-se que Bolatti tinha os gigantes do Independiente atrás ou que os ainda mais gigantes da Juventus estariam perto de concluir negócio, com potenciais propostas a “chover” dentro de dias em Córdoba (cidade onde se situa o Belgrano). Mas o trinco, que tinha sido uma das maiores surpresas do Campeonato argentino, acabou por receber um convite dos azuis-e-brancos, campeões na altura com Jesualdo Ferreira.

O NOVATO GRINGO NA AULA DO PROFESSOR JESUALDO

O técnico do FC Porto foi conhecido por dar componentes fundamentais de base a jogadores como Falcao, Hulk, Lisandro Lopez, Fernando ou Fucile sendo que Mario Bolatti facilmente entraria neste clube do Professor. A chegada do trinco do Belgrano também entrou na lógica de contratações de argentinos por parte dos Dragões, que investiram bastante nesse mercado durante a 2ª metade da primeira década do século XXI.

Mario Bolatti gozava assim de um estatuto especial… de ser argentino, num clube que gostava de jogadores das Pampas, e de o treinador gostar de formar atletas jovens, conferindo-lhes outra dimensão como atletas. Todavia, Bolatti não teve, de forma alguma, uma estadia fácil ao serviço do FC Porto, jogando muito pouco: um total de 500 minutos em 30 jogos para a liga, mais as Taças e competições europeias que representaram quase zero na tabela de jogo do argentino.

Sempre que jogou o FC Porto ganhou (expecto uma derrota em casa frente ao CD Nacional, no qual Fábio Coentrão marcou por três vezes)… uma pura coincidência, atenção. Mas para não ser só “tristeza” é importante referir que Bolatti jogou quase sempre bem, evidenciando um excelente controlo de bola, uma leitura bem perfumada e um detalhe técnico de bom nível.

Mas o quase sempre bem não era, de forma alguma, suficiente para o standard  que o FC Porto desejava… Bolatti pecava muito no jogo físico, apresentando claras dificuldades no confronto directo, na luta física e no “asfixiar” do médio mais criativo ou perfurador da equipa adversária. O não-descontrolo emocional era um ponto importante do trinco, mas já o facto de não “apimentar” o jogo quando o devia, tirou espaço à sua evolução no FC Porto.

O futuro parecia ser risonho para o trinco de 22 anos que parecia ter todo o tempo do Mundo a seu favor… contudo, o Verão de 2008 trouxe muito mais notícias para o médio, já que iniciou a temporada com uma lesão, começando da pior forma possível uma nova temporada. Até Janeiro de 2009, Bolatti somou apenas 20 minutos pelos campeões nacionais, abrindo-se várias questões e problemas para o futuro de um atleta que tinha classe, mas faltava-lhe agressividade e intensidade.

EMPRÉSTIMOS ATRÁS DE EMPRÉSTIMOS…E UM MUNDIAL NO MEIO

A 1 de Janeiro de 2009, Bolatti viu-se entre a “espada e a parede” com muito poucos minutos e cada vez mais “preso” de movimentos… a solução? Voltar a “casa”, de forma a ganhar algum estatuto, forma e confiança. O Huracan surgiu como pretendente e rapidamente garantiu o trinco para o que restava da temporada. Este foi o princípio do “Adeus” de Bolatti ao FC Porto.

Nunca mais regressou aos azuis-e-brancos, investindo tudo na Argentina em 2009 que, por mais incrível que o pareça, garantiu um lugar na selecção principal da Argentina a 12 de Agosto de 2009. O FC Porto já não estava centrado em Bolatti, uma vez que tinha garantido outras soluções para o meio-campo defensivo, mesmo para recursos de banco.

Entre 2009 e 2010, Bolatti conseguiu regressar à Europa, emprestado pelo FC Porto à Fiorentina, que tinha conseguido o seu concurso por uma quantia de 3,5M€ (lucro de 1,5M€ para os cofres da SAD portista), dando outro sabor a um meio-campo que procurava rumo. Cesare Prandelli gostou bastante como o trinco tratava a bola, do seu entrosamento com os colegas e da rapidez de movimentos com que o argentino agraciava a sua equipa.

O momento alto da carreira do jovem deu-se em 2010, quando fora seleccionado para fazer parte dos convocados da Argentina para o Mundial em 2010. Jogou dois jogos, ante a Coreia do Sul e Grécia, ficando na retina que o FC Porto poderia ter cometido um erro de lesa majestade por ter deixado fugir tamanha potência. Porém, tal como acabou a candidatura das Pampas em 2010 – nos quartos-de-final por 4-0 ante a Alemanha -, também Bolatti viria a ter a mesma “tristeza”.

No Mundial pela Argentina

Mais uma vez, a “paixão” foi supérflua já que como acontecera no FC Porto, Mario Bolatti vai cair de forma por completo na segunda temporada, evidenciando menos tempo de jogo, menos capacidade de mexer o meio-campo e de intervir com outra “violência” nos ataques adversários. Bolatti não teve outra escolha que não voltar ao continente sul-americano, ingressando no Internacional de Porto-Alegre.

UMA ÉPOCA SÓ NÃO CHEGA…

Mario Bolatti pareceu ser sempre um jogador de uma época só, aproximando-se de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde anual, com os momentos de classe, toque de bola de uma soberba pureza e um requinte precioso para um futebol desolador, pouco intenso e sem animação com que os jogadores argentinos habituaram os adeptos.

Da Fiorentina para o Internacional, do Internacional emprestado ao Racing Club, Botafogo para depois voltar a divorciar-se, mais uma vez, do clube que detinha o seu passe.

Bolatti jogou na primeira divisão da Argentina em 2015 ao serviço do seu “amado” Belgrano, auxiliando o clube a conquistar boas classificações num campeonato cada vez mais disputado e intenso. Em abono da verdade, Bolatti jogou somente 48 jogos em três temporadas (total de todas as competições), sempre entre boas e recheadas exibições a préstimos mais acinzentados e pouco esclarecidos.

Como começámos o texto, Bolatti viu o seu contrato com o Belgrano acabar e apostou numa ida para a Primera B Nacional da Argentina, ao serviço do Boca Unidos, um clube que luta única e exclusivamente para não descer. O perfume que apresenta, a boa saída com a bola e o rigor na hora de roubar a bola serão sempre trunfos de um trinco que foi sempre muito incompreendido, mas que também não se quis “explicar” na hora de agarrar o lugar.

Faltou intensidade, faltou entrega e faltou, acima de tudo, querer ser algo mais do que um suplente de luxo (na maioria das vezes). Um trinco diferente da Argentina.

Um golo especial em 2016 pelo Belgrano, o seu clube de sempre


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