Onde é que anda o Flop: Edwin Congo, um merengue em Guimarães

Francisco IsaacDezembro 30, 20187min0

Onde é que anda o Flop: Edwin Congo, um merengue em Guimarães

Francisco IsaacDezembro 30, 20187min0
Uma estrela merengue em Guimarães, alguém alguma vez imaginou? Em 2000 Pimenta Machado conseguiu Edwin Congo, um avançado colombiano que deixou poucas memórias em Portugal

Durante os últimos 20 anos, tem sido normal a chegada por empréstimo de jogadores do Real Madrid aos clubes da Primeira Liga portuguesa, a maioria com defeitos técnicos ou mentais que comprometeram a carreira a certa altura. Nomes como Júlio César (central cedido ao SL Benfica em 2001/2002), Tote (ponta-de-lança que chegou com rótulo de “estrela” à Luz mas nunca convenceu), Casemiro (dos poucos que se “salvou” nestes empréstimos, este ao FC Porto), Fábio Coentrão (cedido em 2017/2018 ao Sporting CP), são só alguns nomes de merengues que vieram parar a território luso.

O FACTOR COLÔMBIA

Contudo, há mais um a adicionar nesta lista de seu nome, Edwin Congo. Têm alguma recordação deste avançado colombiano? Não? Então fica aqui a história de como o Vitória Sport Clube ganhou (ou perdeu, dependendo do ponto de vista) o concurso pelo jovem avançado que pertenceu outrora aos quadros do Real Madrid, sem nunca ter actuado num único jogo.

Contexto: o futebol colombiano viveu um período cinzento da sua história entre os 80 e 90, apesar do sucesso dos cafeteros que atingiram dois Mundiais depois de décadas sem lá estar, liderados por lendas como Carlos Valderrama, René Higuita, André Escobar, Freddy Rincón, Oscar Córdoba. Contudo, o futebol interno colombiano vivia debaixo de uma “nuvem” que lhe tirava reconhecimento, o negócio do narcotráfico.

Entre 1994 e os anos 2006 foram poucos os jovens atletas colombianos a despontar na Europa, verificando-se nova queda qualitativa na Colômbia e que só viria ser recuperada pelas novas coqueluches como James Rodriguez, Juan Cuadrado, David Ospina, Santiago Arias, Freddy Guarin, Victor Ibarbo, Juan Quintero e por outras novas lendas já em idade avançada (Mario Yepes e Faryd Mondragon).

Então e no entretanto o que existiu? Para além de Yepes, Zapata, pouco mais. Ou seja, a Colômbia de hoje em dia nada tinha a ver com a dos anos 2000 e o “furo” geracional era crítico. Com este preâmbulo histórico-desportivo, encaixamos agora o nome de Edwin Congo.

A LOUCURA DOS MILHÕES DE MADRID

O avançado despontou inicialmente no Once Caldas (clube que viria jogar a final da Taça Intercontinental em 2004 frente ao FC Porto), afirmando-se entre os 20 e 22 anos no emblema colombiano. Em 60 jogos no campeonato local, Congo fez o gosto ao pé por 25 ocasiões, tendo ainda participado em algumas Sudamericanas e Libertadores, aí sem grande impacto.

A dimensão física de Congo era desafiante, afirmando-se no ataque pelo seu 1,85 para além de possuir uma envergadura de ombros e tronco temerária, conseguindo lutar com excelência entre os centrais adversários, tendo ainda no seu reportório um remate forte e um jogo de cabeça bem trabalhado. Não era um talento especial, mas tinha alguns positivos a seu favor e acabou por ser convocado para a Copa América de 1999, conseguindo um golo na prova frente à Argentina (3-0).

As boas exibições ao serviço da Colômbia conquistaram o interesse do Real Madrid que não deixou de apresentar uma proposta ao Once Caldas. O valor da transferência foi na ordem dos 5M€ e o clube colombiano não recusou a proposta e transferiu o jovem de 23 anos para um dos maiores emblemas do Mundo do Futebol.

Congo ficou ligado contratualmente aos merengues até 2002, sem nunca ter conseguido jogar um único minuto sequer pela formação espanhola, caindo na roda-viva dos empréstimos.

O primeiro clube a recebe-lo foi o Valladolid, uma equipa quase satélite do Real, que recebeu vários atletas merengues durante boa parte do século XXI. Congo actuou em 8 jogos da La Liga, sem nunca ser lembrado por ninguém e nem o golo que marcou ajudou ao seu reconhecimento. Era um avançado duro e físico, nada mais, pouco inteligente no trabalho dentro da grande área e até algo perdulário no atirar às redes.

CIDADE-BERÇO COM ESTRELA MERENGUE, O QUE PODE CORRER MAL?

Com o fracasso no Valladolid, o Real Madrid começou a procurar soluções para Congo e no verão de 2000 houve a hipótese de rumar a terras portuguesas. Pimenta Machado, carismático presidente do Vitória SC (esteve no cargo entre 1980 e 2004), acordou o empréstimo e recebeu na cidade-berço o avançado internacional colombiano Edwin Congo, que tinha “jogado” no Real Madrid.

A conferência de imprensa foi à grande, mesmo ao estilo do Vitória de Pimenta Machado, com Edwin Congo a mostrar uma estupenda confiança,

“O Vitória não é uma equipa com as ilusões iguais ou similares às do Real Madrid, mas é uma equipa que joga bem e tem muitos bons jogadores. Neste clube podem-se fazer coisas grandes. Quero trabalhar e jogar bem, suando a camisola. O Vitória joga em conjunto e sabe tocar bem a bola. (…) Quero ajudar o Vitória a ser campeão.” (Maisfutebol 2000)

Ironicamente, foi ao contrário… o Vitória SC, na altura treinado por Paulo Autuori, não só não lutou pelo 1º lugar como nem pelo 2º, 3º ou 4º ficando-se por uma desafio bem acesso pela manutenção, só resolvido na penúltima jornada.

Pelo meio, Autuori foi despedido e para o lugar entrou Álvaro Magalhães (já se tinham esquecido que foi treinador do Vitória SC?), deu-se uma pequena revolução na equipa e Congo, que em 13 jogos tinha conseguido 5 golos (3 na Taça de Portugal e 2 na Liga), numa primeira-fase foi para o banco de suplentes, para depois passar a não ser convocado.

Aguentou até ao Mercado de Inverno e voltou a Madrid, pela mesma porta pequena pela qual tinha saído. Em Guimarães ficaram os tais 5 golos mais uma série de exibições questionáveis e de pouco interesse, mostrando-se um avançado demasiado trapalhão para enganar as defesas normalmente “agressivas” do campeonato nacional português.

O rótulo de estrela caiu com estrondo em Portugal, ficando vários adeptos com a sobrancelha levantada perante a falta de aptidão para o colombiano conseguir fazer dano contra os seus adversários, ficando-se pelo choque físico e a subsequente perda de bola. O Tolouse recebeu-o em 2001, mas novamente sem grande expressão.

UMA LENDA NO CM… E NA VIDA REAL?

Na época seguinte ficou do princípio ao fim no plantel do Real Madrid sem somar qualquer minuto ou segundo, fechando a sua relação contratual com os merengues sem que tivesse podido mostrar-se dignamente. Com 26 anos e livre, optou por ingressar no Levante, sendo uma das caras do clube durante quatro épocas, com mais de 100 jogos e 22 golos, ajudando o emblema valenciano a subir por duas vezes de divisão.

Depois jogou ao serviço do Sporting de Gijón, Recreativo, Olimpic Xativa e UD Benissa (ambos de divisões inferiores), fechando a carreira aos 33 anos. Em 2017 teve a sua pequena “vingança”, uma vez que foi convidado pelo Real Madrid a jogar num encontro de estrelas do clube frente às do FC Liverpool (marcou o único golo dos merengues) recebendo uma pequena ovação dos adeptos presentes no Santiago Bernabéu.

Congo recorda-se do seu tempo como atleta do Real Madrid com saudade e gosto, apesar de nunca ter conseguido jogar pela equipa então treinada por Vicente Del Bosque,

Eu nunca me senti triste no Real Madrid, porque nunca perdi a esperança. Treinava muito e esforçava para estar ali. Cresci muito como jogador, graças ao Zidane, Roberto Carlos e Figo. O Vicente del Bosque foi sempre fantástico comigo e adorei esses tempos. O Roberto Carlos era um grande anfitrião na casa dele, diverti-me muito. Hoje em dia vivo uma vida anónima, poucos sabem que eu sou! É excelente viver como uma pessoa normal!”

Em Guimarães fica a memória de uma época 2000/2001 do pior possível, onde um plantel recheado com (supostas) “estrelas” falhou por completo qualquer objectivo de chegar ao topo cimeiro da tabela. Poucos golo, um futebol anárquico, um estofo físico exagerado e uma carreira que só foi virtuosa no Championship Manager 2002.


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