A invasão da Internet no Futebol Português

Pedro AfonsoAbril 20, 20188min0

A invasão da Internet no Futebol Português

Pedro AfonsoAbril 20, 20188min0
A entrada em cena da Internet e das Redes Sociais deixou bem patente a incapacidade da sociedade em distinguir o verdadeiro do falso. Num mar de contra-informação, como influenciou a Internet o estado do Futebol Português?

O clima de crispação no Futebol Português atingiu níveis elevadíssimos ao longos dos últimos cinco anos, ao ponto de o Desporto-Rei se ter tornado num ambiente tóxico à proliferação de opiniões próprias, à discussão aberta de questões meramente relacionadas com a componente técnico-tática. Enfim, o Futebol tornou-se um reality show que tantos gostam de desdenhar do alto da sua literacia, com a Internet como as “câmaras de vigilância”.

Porém, é exatamente de um problema de literacia (ou “literatícia”) que se trata! As mudanças no paradigma social com o advento dos media transformaram a vivência e experiência individual num emaranhado de informações, muitas vezes contraditórias, de onde é muito difícil retirar a verdade e o verdadeiramente importante. A literacia, neste caso, a digital, refere-se (numa das suas inúmeras definições) à capacidade que uma pessoa tem de desempenhar tarefas em ambientes digitais. Este desempenho de tarefas incluiu a capacidade de ler e interpretar a informação que obtém e, também, a comunicar de uma forma efetiva. Não será justo exigir às gerações mais velhas que sejam céleres ou pródigas na adaptação a uma nova realidade: é necessária paciência, ensino e a ocasional “vergonha” nas redes sociais.

Se este é efetivamente o caso, como é que isto se aplica ao Mundo do Futebol?

Um dos maiores instigadores da discórdia (Fonte: Jornal de Notícias)

A escolha do intervalo de tempo de 5 anos não é inocente: a entrada de Bruno de Carvalho no Mundo do Futebol Português veio polarizar as hostes e aquecer o ambiente. Desengane-se quem acha que foi porque “trouxe o Sporting de volta para a luta do título”. A sua tática de guerrilha e de insinuações, muitas vezes, absolutamente descabidas, colocou a nu a incapacidade de uma geração habituada a ler futebol nos jornais em se adaptar a um meio tão volátil como as redes sociais. Num novo campo de batalha onde nada é atribuível a nenhuma entidade física, as pessoas viram a oportunidade perfeita de despejar a sua opinião, por mais redundante e insipiente que pudesse ser, apenas para sentir que tem uma “voz”. A opinião é um dos direitos fundamentais que rege a liberdade de expressão, mas deve ser sempre acompanhada de fundamento.

A grande “beleza” das Redes Sociais surge da falta de responsabilização que uma identidade virtual acarreta. Ao contrário do Mundo Real, onde somos instados a tomar responsabilidade psicológica e física pelas nossas afirmações/atos, a Internet fornece um véu de proteção e de anonimato que permite a afirmação de coisas que nunca ousaríamos proferir na vida real. E a forma como Bruno de Carvalho utilizou as redes sociais a seu favor é caso de estudo: goste-se ou não, a sua estratégia mobilizou adeptos, uniu hostes (até as separar nas últimas semanas) e parece ter devolvido o orgulho aos “leões”.

Contudo, nem tudo é belo neste Mundo onde as afirmações não necessitam de ser acompanhadas de factos. Uma rápida incursão pelas caixas de comentários de inúmeros órgãos de comunicação social demonstram a sensação de impunidade que as pessoas sentem neste meio pouco regulado, novo: comentários xenófobos, insultuosos, insinuações e acusações sem fundamentos. Os responsáveis de comunicação dos clubes aperceberam-se deste “nicho” e decidiram usa-lo a seu favor.

A estratégia de comunicação do SL Benfica com João Gabriel deu os primeiros passos na comunicação para as massas, sendo que a entrada em cena de Pedro Guerra deixou a nu a luta de bastidores que era travada na procura pelo “controlo” do Futebol Português. Bruno de Carvalho encabeçou o movimento dos leões e encontrou em Nuno Saraiva o seu “paladino” em busca de uma verdade desportiva, aquela que mais convém em determinados momentos. O FC Porto foi o último a chegar a esta batalha, mas terá sido o mais eficaz, com o Dragões Diários que rapidamente foi suplantado pelo papel de Francisco Marques na demonstração de um alegado esquema orquestrado pelos encarnados para condicionar arbitragens.

Para se entender a perversidade dos meios comunicacionais portugueses, todas as noites podem ser encontrados nos mais diversos canais televisivos programas de escrutínio futebolístico, desde rumores de saídas noturnas de jogadores até alegados pagamentos a árbitros, deixando de existir espaço para o que realmente interessa: a bola a rolar. O caso dos “e-mails” demonstra o quão tacanhos somos enquanto País, permitindo que correspondência privada (a sua veracidade é tema que já foi discutido por demasia) de empresas cotadas em bolsa sejam divulgadas de forma indiscriminada e adulterada na praça pública por empresas competidoras. O Futebol é um negócio, quer se goste ou não. Façamos o exercício de pensar que a Samsung decidia divulgar na praça pública informação acerca da Apple. Antes que conseguissem fazer o segundo programa, já a primeira havia sido processada por espionagem, os e-mails haveriam sido “apreendidos” e guardados em segredo de justiça. Tudo coisas que não aconteceram em Portugal.

Absolutamente inenarrável (Fonte: Rádio Renascença)

Fica, então, claro que os clubes se aproveitaram, através do uso de consultorias de imagem, de marketeers, de designers, etc., da baixa literacia digital de uma grande falange da população portuguesa para proliferarem as suas ideias, quase propagandísticas. Surge a ideia de que “uma mentira repetida muitas vezes, passa a ser verdade”, algo que parece verificar-se nas redes sociais. Seguindo uma postura quase de conspiração, sente-se que os adeptos são, muitas vezes, controlados pelas comunicações do clube, esperando as dicas acerca de como pensar relativamente a diversos lances, atribuindo culpas a fatores externos às próprias equipas, empurrando responsabilidades para uma área cinzenta onde todos e ninguém são culpados.

O anonimato que as redes sociais conferem, bem como a falta de regulação do espaço virtual, permitiram a proliferação de outro tipo de websites, muitas vezes “subsidiados” pelos próprios clubes, cujo único intuito é fomentar o ódio e a discórdia entre os adeptos de futebol. Páginas como Hugo Gil, Baluarte Dragão ou o Mister do Café, dedicam grande parte da sua existência a “desmascarar” teorias da conspiração que, segundo os mesmos, servem apenas para prejudicar os seus clubes. Desde adulteração de imagens, até lançamento de suspeições acerca das práticas dos clubes adversários, o seu intuito não é procurar a verdade desportiva, mas sim molda-la aos interesses dos clubes que defendem. Informação e contra-informação nas mesmas páginas, tornando difícil para o leitor menos “letrado” a filtração de conteúdos relevantes.

No entanto, à parte dos casos mais negros que assolam o futebol português, foram vários os clubes que decidiram utilizar as redes sociais a seu favor. Clubes como o Tondela, Rio Ave, ou o mítico Beira-Mar, começaram a utilizar as suas redes sociais para cativar adeptos, fazer crescer a sua massa associativa dentro da cidade, tentando nutrir um sentimento de pertença e de comunidade que deveria existir no nosso país.

Um exemplo de criatividade e frescura (Fonte: Facebook do Beira-Mar SC)

As redes sociais podem servir o papel de divulgação do que melhor se faz neste Desporto, permitindo aos clubes de escalões mais baixos divulgar os seus calendários, motivar as hostes a apoiar os clubes da “terra”, demonstrar o seu nível de futebol, permitindo aos jogadores estabelecer elos de ligação com os seus adeptos, fornecendo aos clubes um canal privilegiado de perceber como se sentem os adeptos e de ouvir as suas opiniões. Mas os regimes autocráticos desportivos parecem ter vindo para ficar.

A Internet é uma ferramenta poderosíssima que (esperemos) nunca ninguém será capaz de domar. O Mundo do Futebol Português não estava preparado para ela e a habituação a uma nova realidade tem sido morosa. Todos os intervenientes devem repensar a sua postura e a sua contribuição para este novo espaço social onde são travadas batalhas mais sangrentas do que alguma vez foram travadas na “vida real”. Cabe também ao adepto e ao utilizador destes meios a aprendizagem e a evolução enquanto utilizador. Como qualquer ferramenta, devia existir um manual de instruções para a Internet das Coisas. Está a ser construído, mas à custa de muitos erros…


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