1987: o ano em que o Brasileirão tornou-se “Copa União”

Virgílio NetoMarço 13, 20193min0

1987: o ano em que o Brasileirão tornou-se “Copa União”

Virgílio NetoMarço 13, 20193min0
O campeonato brasileiro com o formato actual, por pontos corridos, começou apenas em 2003. Antes, cada época o "Brasileirão" teve um regulamento distinto. Algo curioso e exótico aconteceu na edição de 1987 que recebeu o nome de "Copa União", cujo campeão foi reconhecido apenas em 2018.

Depois de ausente no mês de Fevereiro, esta coluna retorna com mais uma história do reconhecido – mas não antes, exótico – futebol do Brasil.

Pois bem. O principal escalão do ludopédio da Pindorama é popularmente conhecido como “Brasileirão”. O modelo do campeonato brasileiro actual começou em 2003, no sistema de pontos corridos. Quem faz mais pontos ao fim de trinta e oito jornadas, é o campeão. No entanto, nem sempre foi assim. Era muito comum para os adeptos do Brasil se perguntarem, entre uma época e outra, qual seria o regulamento da competição. Afinal, ela mudava a cada ano! Inacreditável isso, não?!

Depois dizem que o futebol do Brasil não é exótico!

Era o ano de 1987 e a entidade máxima do futebol do Brasil, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) não tinha recursos para realizar o torneio nacional daquele ano. Assim sendo, os treze principais clubes do país se unem e formam o “Clube dos 13”, uma espécie de liga que organiza o campeonato. Em inédita iniciativa, comercialmente o certame teve como principal apoiador a “Coca-Cola” (que teve sua logo colocada na maior parte das camisolas das equipas participantes) e o nome do campeonato carregava o de uma conhecida marca de açúcar: “União” (foto abaixo de publicidade dos anos 1980). Era criada, assim, a “Copa União”, não apenas com treze agremiações, mas estas a liderarem a sua organização. 

Havia o “Módulo Verde” (Primeira Divisão) e o “Módulo Amarelo” (Segunda Divisão). Como era um novo torneio baseado em um ranking da CBF e das colocações nas edições dos Brasileirões anteriores, a fim de equilibrar critérios não muito esclarecedores na concepção da “Copa União”, a Confederação Brasileira de Futebol sugere que ao final dos turnos de cada módulo fosse jogado um quadrangular com os dois primeiros de cada (do Verde e do Amarelo). 

Em um primeiro momento, o “Clube dos 13” aceita a proposta do quadrangular final para definir o campeão de 1987, entretanto meses depois a rejeita. Com isso, Flamengo e Internacional (respectivamente primeiro e segundo do Módulo Verde) deixam de comparecer aos jogos contra Sport Recife e Guarani (respectivamente primeiro e segundo do Módulo Amarelo). Dessa maneira, pernambucanos e campineiros foram considerados vencedores por walk-over (W.O.), e, consequentemente, tidos como campeões do Brasil pela CBF. Como primeiro colocado do Módulo Verde em 1987, o Flamengo foi tido pelo “Clube dos 13” como campeão do Brasil.

O caso foi levado para a Justiça Comum, que deu ganho para o Sport Recife várias vezes. O Flamengo recorreu e o caso foi levado ao Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Judiciário brasileiro, que considerou os recifenses como campeões. Inúmeras alternativas foram propostas para que Sport e Flamengo partilhassem da Taça, sem acordo. Finalmente, em Março de 2018 (mais de 30 anos depois), o STF homologou decisão retificada de que o Sport Recife é o campeão do Brasil de 1987.

Com tudo isso, até hoje é tema bastante delicado. Recentemente Diego Souza, renomado futebolista no Brasil, teve uma passagem pelo Sport. Natural do Rio de Janeiro e revelado pelo Fluminense, clube rival do Flamengo, enquanto no clube pernambucano usava o número 87 na camisola em referência à “Copa União” mas também como uma provocação ao Rubro-Negro carioca. 

Mais uma vez um caso do futebol do Brasil: curioso e exótico.


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