Jordan Santos. “Tenho orgulho em ser nazareno e espero não ficar por aqui”

André CoroadoNovembro 18, 201913min0

Jordan Santos. “Tenho orgulho em ser nazareno e espero não ficar por aqui”

André CoroadoNovembro 18, 201913min0
O internacional português do Futebol de Praia foi considerado o Melhor do Mundo da modalidade e esta é a entrevista em exclusivo com o 5 de Portugal! Jordan Santos no Fair Play!

Jordan Santos foi considerado o Melhor Jogador do Mundo no Futebol de Praia em 2019, mostrando-se como um dos jogadores essenciais da selecção das Quinas. Uma entrevista em exclusivo com um dos jogadores mais emblemáticos de Portugal! Para ficares a conhecer melhor o “quem é” Jordan Santos, recomendamos este artigo: (clicar) “Quem é Jordan Santos?“!

Depois de uma época recheada de títulos pela selecção e pelo Braga, foste galardoado com o prémio de melhor jogador do mundo em 2019. Se tivesses de escolher um, qual seria o momento mais marcante do ano?

Acho que é difícil eleger um momento marcante porque tive vários: a medalha de ouro nos Jogos Europeus em Minsk, a conquista de tudo pelo SC Braga, a minha nomeação para melhor do mundo… acho que tive vários e será difícil eleger um como mais marcante, depois da época que tive. Isto porque todas as conquistas desta época foram demasiado marcantes e importantes.

Iniciaste a tua carreira internacional aos 18 anos, quando entraste na arena do Circo Massimo em Roma envergando pela primeira vez a camisola portuguesa. Como recordas essa estreia? 9 anos depois, que significado tem para ti teres sido considerado o melhor atleta do planeta?

Recordo-me perfeitamente da minha estreia em Roma, na Taça da Europa. Estava completamente nervoso! Estava ansioso, com aquele frio na barriga de que nunca me vou esquecer… e era um miúdo, um menino! Mas foi muito importante ter começado tão cedo porque, se agora estou com 28 anos e uma maturidade acima da média, também se deve a ter começado mesmo muito cedo nesses grandes palcos! Ter sido considerado o melhor do mundo tem um significado muito grande. É um orgulho enorme, não só para mim para também para todos os meus companheiros, porque sabem que sem eles não teria sido possível! Um orgulho também para a minha família! Estou a viver um sonho, completamente!

Olhando para trás, como encaras a evolução da modalidade em Portugal ao longo desta última década?

Tem evoluído bastante! O campeonato nacional resumia-se praticamente a duas semanas e hoje em dia a Federação Portuguesa de Futebol está a desenvolver um óptimo trabalho: aumentou o número de jogos e acabou por organizar uma Taça de Portugal, para oferecer mais competição aos atletas. A evolução tem sido notória tanto em termos de jogo jogado como de comunicação: já se fala mais de futebol de praia!

Lançando um olhar sobre a tua carreira, quais considerarias terem sido os momentos-chave?

Acho que os momentos-chave acabam por ser a competitividade que havia e continua a existir. Eu encontrei uma selecção que na altura oferecia dezenas de opções ao mister Zé Miguel. Eu era muito novo e o facto de eu ter de trabalhar muito para estar presente em todas as competições foi muito importante. O facto de ter estado a lutar por convocatórias com 18 anos acabou por ser fundamental para mim, para o meu crescimento e para a minha confiança.

E qual foi o momento mais difícil, ou mais triste?

O momento mais triste e difícil que eu vivi no futebol de praia foi a não qualificação para o campeonato do mundo do Taiti 2013. Foi um ano muito difícil para todos nós, andámos a trabalhar um ano praticamente sem objectivos, a ver o mundial pela televisão, e foi muito difícil.

Que título te marcou mais e porquê?

Acho que o que nos marcou mais, a todos nós, foi o título de campeões do mundo em Espinho, perante a nossa família o nosso povo, toda aquela energia positiva! Mas também houve outros muito importantes: jogar a Euro Winners Cup em casa com o SC Braga, termos ganho a Liga Europeia em casa, a medalha de ouro olímpica em Minsk, todos eles são marcantes e especiais à sua maneira, sem dúvida alguma!

Existe algum colega de equipa que te tenha marcado particularmente? E algum adversário?

Tenho a felicidade de ao longo dos anos ter encontrado colegas fantásticos, cada um me marcou da sua forma. Claro que temos sempre mais afinidade com uns do que com outros, mas o Bruno Torres foi sem dúvida muito importante na minha carreira, nesta caminhada. Quanto a adversários marcantes, já encontrei vários que marcaram a minha carreira, mas para mencionar um de repente, talvez o facto de eu ter jogado contra o Benjamim, que na altura via pela televisão. Foi marcante para mim porque era um ídolo, estava habituado a vê-lo na televisão e de repente estava a jogar contra ele… Sinto que foi muito marcante para mim porque quando o vi ao vivo pensei: “Eish, este tipo realmente existe!”

Quais as palavras ditas por alguém num momento crucial que nunca vais esquecer?

Já tive vários momentos assim! Mas lembro-me, por exemplo, de na Taça Intercontinental 2017, na meia final contra a Rússia, o Elinton Andrade me dizer: “Jordan, estamos a precisar de ti! Nunca fomos a uma final intercontinental!”. Isto durante o jogo… e eu, só com o olhar, disse-lhe tudo! Depois acabei por fazer o golo da vitória, que nos colocou na final, vitória por 3-2.

E quais os jogos que te deram mais prazer jogar?

Todos os jogos nos dão prazer jogar! É óbvio que aqueles jogos do mundialito contra o Brasil têm sempre um sabor especial, assim como as finais da Euro Winners… Todos os jogos decisivos dão esse prazer! Tenho a felicidade de ter participado em muitos jogos desses e espero continuar a ter essa oportunidade, porque são jogos que dão mais prazer sem dúvida alguma: aqueles que decidem algo e os jogos contra as selecções mais difíceis.

Foto: Lusa
És visto como um jogador muito versátil, capaz de emprestar a todas as posições uma excelência técnica e uma leitura de jogo raras. Mas qual consideras ser a tua principal arma?

Acho que a minha principal arma poderá ser a minha condição física: o facto de ser muito leve, de aguentar bastante tempo em campo, acaba por ser uma das minhas vantagens. Tenho um pontapé fácil, consigo ocupar várias posições no campo graças à minha condição física e cultura táctica… e são coisas que nós vamos evoluindo também ao longo da nossa caminhada, treino após treino, saber aquilo que eu devo melhorar e trabalhar mais. A resposta gira em volta disso.

Este ano, o SC Braga voltou a vencer a Euro Winners Cup, pela terceira vez consecutiva, depois de já ter sido campeão do Mundialito de Clubra, e venceu também todas as provas nacionais. Quais foram as principais dificuldades no caminho para semelhante palmarés?

Acaba por ser uma época de sonho! Porque ganhar uma vez a Euro Winners é muito difícil, ganhar duas vezes nem se fala, ganhar a terceira então parece impossível, mas aconteceu! E acho que a união do grupo – o SC Braga tem um grupo muito coeso, muito unido, em que todos os jogadores poderão decidir e sabem pôr o ego de lado – é o mais importante. Juntar tantos bons jogadores não é fácil e o Bruno Torres tem feito um grande trabalho nesse âmbito. Penso que o ponto forte do SC Braga acaba por ser o colectivo e a mentalidade dos jogadores: saber o momento em que se deve colocar o ego individual de parte e o colectivo acima de tudo.

Pela selecção, 2019 foi um ano de grande intensidade competitiva e muitos sucessos, mas começou praticamente com um desaire – a não qualificação para os jogos mundiais de praia. Desde então, as prestações da equipa progrediram visivelmente. O que mudou na selecção desde então?

Sim, essa competição foi muito difícil para nós! Saímos muito tristes porque falhámos um objectivo da época, mas também nos deu força para nos unirmos mais porque sabíamos que não podíamos errar mais! Acho que esse percalço acabou por também ser muito bom na medida em que nos fez abrir os olhos e trabalharmos mais focados. Os resultados estão à vista…

Um momento alto da temporada foi sem dúvida a medalha de ouro olímpica nos Jogos Europeus de Minsk. Ser campeáo olímpico era algo com que sonhasses quando começaste a jogar futebol de praia? Como foi vivida esta conquista pela selecção?

Foi marcante! É uma conquista muito marcante! Porque ganhar uma medalha de ouro daquela forma, da maneira como nós jogámos, com uma entreajuda enorme… no final, receber aquela medalha com um real sentimento de dever cumprido… “Eish, o que nós corremos hoje, o que nós jogámos, valeu mesmo a pena!”. Ali, sentimos que, quando queremos mesmo, ninguém nos bate! E depois, ouvir o hino nacional…

Depois disso, o apuramento para o mundial foi muito difícil, mas Portugal acabou por conseguir qualificar-se no play-off, diante da Espanha, nas grandes penalidades, um jogo em que não pudeste participar. Como se vive uma partida tão importante desde a bancada? E o que foste sentindo nesse jogo emocionante, com Portugal quase sempre em desvantagem, até à vitória final?

Eu já tinha ouvido aquele ditado que diz que se sofre mais de fora do que lá dentro, mas só quando passamos por isso é que realmente o sabemos! Eu estava a ver aquele jogo ao lado do nosso treinador adjunto, o Tiago Reis, e eu dava-lhe pontapés, eu agarrava-o, eu aranhava-o, porque eu queria estar no mundial, era muito importante para nós estar no mundial porque nós já sabíamos o quão duro é sofrer quando não se vai ao mundial. Então, quando o Elinton defendeu aquele penalti, foi um sentimento de orgulho enorme e foi um alívio tremendo! E graças a Deus já passou e não quero passar mais por todo aquele sofrimento!

Após as conquistas de 2010 e 2015, e duas finais perdidas em 2016 e 2017, a Liga Europeia foi novamente conquistada por Portugal, e foste eleito MVP. O que fez a diferença e como te sentiste ao ver o teu esforço assim reconhecido na maior prova europeia de selecções?

É verdade! O europeu era um dos principais objectivos da época, ainda para mais jogando em casa. Sabíamos da importância de oferecer este título não só a nós mesmos mas também a todos os portugueses que nos estavam a apoiar. Ter sido eleito MVP foi algo que surgiu com naturalidade, porque tivemos uma prestação muito boa em termos colectivos e eu acabei por sobressair, o que se deve ao facto de jogar com grandes jogadores, obviamente, e ao meu trabalho. É sempre um reconhecimento do nosso valor e fiquei muito feliz por isso!

Recentemente alcançaste o 2º lugar na World Winners Cup, onde actuaste ao lado do Bê e do Léo Martins (teus colegas no SC Braga e na selecção) pelos chineses do MH. Como foi esta aventura atípica? Sentes que vocês os três formam já o trio maravilha mais perigoso do cenário internacional?

Nós já temos ouvido vários especialistas, vários treinadores afirmar que nós, neste momento, somos o melhor trio do mundo. Acho que, pelas provas que nós temos dado, poderemos ser considerados como tal! Pelo que temos feito ultimamente, o futebol bonito que praticamos, já podemos dizer que jogamos de olhos fechados. Inclusivé o que acabámos por fazer com a equipa chinesa na World Winners Cup acaba por provar isso!

Segue-se o mundial, onde Portugal encontrará Nigéria, Brasil e Omã. Como analisas os adversários do grupo?

Já sabemos que o Brasil dispensa apresentações! Acaba por ser o principal favorito, não só pelos jogadores e o treinador que tem, mas pela experiência e o seu historial. A Nigéria é uma daquelas equipas africanas que fazem da força física a sua maior arma… e Omã acaba por ser a principal surpresa, mas segundo o que me informei tem vindo a crescer muito e está bastante forte, por isso vai ser um grupo muito difícil! Temos de avançar passo a passo, cientes do nosso valor mas também das dificuldades que iremos encontrar… e vamos preparados para isso!

Em 2017, Portugal e tu particularmente fizeram um jogo de alto nível nos quartos de final do mundial contra o Brasil, que acabou por vencer (4-3) com um golo nos últimos minutos. O que terá Portugal de fazer para desta feita levar de vencido o Brasil?

Para vencer o Brasil teremos de fazer um jogo quase perfeito, digamos. Temos de estar concentrados do primeiro ao último minuto, ter também uma pontinha de sorte e sermos eficazes, porque o Brasil tem 12 jogadores todos ao mesmo nível, nós também temos uma boa selecção e penso que somos das poucas selecções que os podem vencer e eles sabem disso, da mesma forma que eles, para nos vencerem, também têm de estar super focados. Acho que podemos vencer, completamente!

Olhando novamente para o futebol de praia em Portugal, quais entendes serem as prioridades para fazer crescer a modalidade? E como transmitir às novas gerações a mensagem de que o futebol de praia pode ser uma opção em si mesma, e não um mero complemento do futebol de 11?

Tem de ser passo a passo! Hoje em dia já se vê as equipas a trabalhar melhor, já há equipas a trabalhar no inverno, com treinos semanais… isso é um pequeno passo. Há outras coisas que têm de ser melhoradas, mas não é de um dia para o outro que se profissionaliza atletas, os atletas não podem largar um emprego certo pela incertea do futebol de praia! Pouco a pouco, apaixonando-se pela modalidade, fazendo jogos e jogos, vão-se apaixonando, e à medida que vão vendo que têm valor vão chegar a um ponto em que pensam: “Epah, se calhar eu consigo optar só pelo futebol de praia!”. Acho que passa um pouco por aí. Nunca é fácil, por aquilo que referi, mas não é impossível!

És um dos 13 nazarenos que já vestiram a camisola da selecção nacional, porém o primeiro a ser considerado o melhor do mundo. Como se vive um feito tão especial para as areias do Estádio do Viveiro?

O pessoal da Nazaré está muito orgulhoso de eu ter recebido o prémio de melhor do mundo, até já se fala em fazer uma estátua, etc… Porque eles sabem o quanto eu trabalhei para isto, o quanto me dedico. É uma vila pequenina mas com muita qualidade! Eles têm muito orgulho nisso, eu tenho muito orgulho em ser nazareno, e espero não acabar por aqui!

Foto: Lusa

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