19 Fev, 2018

Ludere causa Ludendi ou Jogar o jogo pelo jogo! – Coluna de Luís Supico

Fair PlayOutubro 2, 20176min0

Ludere causa Ludendi ou Jogar o jogo pelo jogo! – Coluna de Luís Supico

Fair PlayOutubro 2, 20176min0
O rugby em Portugal começa a ter as suas primeiras vitórias nas selecções jovens: mas porquê? Ludere causa Ludendi ou o prazer de jogar o jogo pelo jogo

Numa altura em que o futebol mundial se centrava em dois países (Escócia e Inglaterra), um clube em particular recebia todas as atenções: fundado em 1867 o Queen’s Park, de Glasgow, lançou as fundações para o desenvolvimento do jogo moderno graças a um estilo e tácticas de jogo únicos, baseado no passe, trabalho de equipa e onde cada jogador tinha o seu papel, inverso ao famoso “kick-and-rush” e estilo de jogo individualista – base do que ainda se chama de jogo britânico – dominando até ao fim do século XIX, princípio do século XX o panorama internacional.

Donos do famoso Hampden Park (estádio onde joga a selecção nacional de futebol da Escócia), o clube organizou o primeiro jogo de futebol internacional de sempre entre selecções, emprestando o seu equipamento (na altura totalmente azul e que se mantém como a côr do País nos vários desportos), campo e dez dos onze jogadores à equipa, acabando por empatar a 0 com Inglaterra.

Membro fundador da selecção nacional e vencedor da taça nacional por 10 vezes, o clube teve também várias aparições na taça de Inglaterra, sendo até o único clube escocês a chegar à final, perdendo ambas – isto tudo antes da profissionalização do campeonato escocês, no ano de 1890; fiéis ao seu lema (“Ludere causa Ludendi”, “o jogo pelo jogo”), o Queen’s Park decidiu manter o seu estatuto de amador, recusando durante alguns anos a entrada na liga profissional, preferindo continuar a fazer tours pela Grã-Bretanha e amigáveis com as restantes equipas amadoras do seu país, apenas entrando na Liga em 1900 com a condição de poder manter o seu estatudo de amador: estatuto que se mantém até aos nossos dias.

Apesar de a última aparição na primeira liga escocesa ser já no remoto ano de 1957 e actualmente se encontrar na terceira divisão, são vários os jovens jogadores que por lá iniciaram as suas carreiras, jogando na equipa sénior com 16, 17, 18 anos na equipa principal e saltando rapidamente para outros clubes, tais como Sir Alex Ferguson (ex-treinador) ou Andrew Robertson (jogador actualmente no Liverpool), dois de vários casos de sucesso do clube que mantém, passados 150 anos, o mesmo objectivo: jogar o jogo pelo jogo, apostando nos jovens jogadores das escolas, sempre de forma amadora.

Vem isto a propósito dos recentes resultados internacionais das nossas selecções de sub18 e sub20 – digo nossas porque este foi, sem dúvida, um trabalho de vários clubes, treinadores, jogadores, directores de equipa, fisioterapeutas, pais e mães culminados no trabalho dos mesmos da Federação que fizeram com que o nosso país fosse, novamente, falado no mundo do Rugby. E não só da final perdida dos sub20: falo dos últimos dois, três, quatro, cinco anos.

Portugal está a começar a ganhar consistência e a amealhar resultados em ambos os escalões graças ao crescimento sustentado da competitividade dos campeonatos sub16 e sub18 nacionais, competitividade existente graças ao equilíbrio entre equipas, fruto da manutenção dos campeonatos estes últimos anos: com poucas mudanças (salvo há dois anos, rapidamente retornando ao esquema anterior) o nível aumentou e a exigência com ele. Todos ganhámos com isso, como se pode ver.

Mais que a pergunta óbvia (“Como passar estes resultados para os seniores?”),devemos começar a pensar como aumentar o nível e começar a fazer destes excelentes resultados o pão nosso de cada dia, os mínimos olímpicos, quase uma obrigação… que não tenhamos dúvidas, neste momento é quase (para não dizer, completamente) impossível. Mas que tem de ser o objectivo.

Recuperando o Queen’s Park, como é possível um clube completamente amador, que não paga um tostão aos jogadores (apenas assinam um contrato de compromisso anual, com a possibilidade de sair no fim do mesmo para qualquer clube sem compensação para o Queen’s Park) constantemente produzir jogadores com a qualidade para chegar a profissionais a tempo inteiro, jogadores e treinadores internacionais do seu país, jogadores e treinadores de clubes de nível mundial?

Juntando trabalho e dedicação, que são sempre precisos, o clube tem um caminho bem delineado e não sai dele – quando assim é, mais fácil fica procurar as armas certas para atingir os objectivos: e o seu é o de desenvolver os seus jogadores a níveis de profissional, mesmo que a equipa sénior não o seja, preparando-os sempre para o futuro, mesmo que seja fora de casa.

Tal como o Queen’s Park, o propósito do nosso rugby tem de ser, a nível de selecções, o desenvolvimento (e manutenção) de objectivos altos nos escalões de pré-competição, sem preocupações imediatas de chegada à selecção sénior. Há que desenvolver uma cultura de excelência e vitórias (um já existe, o outro começa a aparecer) de forma contínua, mantendo o estatuto a que se adequa – o de amador.

Porque se o nível é alto mas o estatuto amador, não tenhamos dúvidas que teremos clubes estrangeiros a recrutar e oferecer contratos e uma carreira de profissional a jogadores que, em Portugal, nunca terão hipóteses de ter – e com isso, o desenvolvimento do rugby nacional, a nível da Selecção Sénior (e por inerência, dos outros jogadores que com eles jogam) irá com certeza subir. Acima de tudo parece-me que temos de ser, provavelmente nas próximas decadas e tal como o Queen’s Park é no futebol escocês, um país viveiro de jogadores… para clubes estrangeiros.

É que, tal como a selecção de futebol nacional, entre a vitória no mundial de Júniores de Riyadh em 1989 e a do Europeu de 2016 na selecção A, houve várias gerações de excelência mas apenas a última triunfou nos Seniores – a contínua exposição a objectivos altos e a competições de alto nível nos escalões de Formação, Juvenis e Júniores, sempre com resultados de excelência, é que fazem os resultados aparecer a longo termo nos Seniores. Mesmo que demorem quase trinta anos a aparecer…

Foto: Getty Images


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