22 Fev, 2018

João Costa. “É um privilégio estar no campo e ajudar a melhorar o jogo”

Francisco IsaacAgosto 14, 201712min0

João Costa. “É um privilégio estar no campo e ajudar a melhorar o jogo”

Francisco IsaacAgosto 14, 201712min0
O árbitro português "arbitrou" a sua entrevista ao Fair Play e explicou o que o liga à modalidade. De apaixonado para jogador e de jogador para árbitro numa carreira de 25 anos no rugby Nacional

Mais de duas décadas ligadas ao rugby, João Costa explica o que é ser árbitro em Portugal, as dificuldades, as perspectivas, opiniões e de como singrar na modalidade sem ser a jogá-la. Uma carreira recheada de momentos e histórias, fica a conhecer todos os pormenores sobre o antigo jogador da Académica e agora árbitro internacional


João uma pergunta agressiva: o quão difícil é ser-se árbitro em Portugal? E como é que lidas com a pressão?

Ser árbitro é um grande desafio, não apenas em Portugal mas em todo o mundo. Durante o jogo tens de tomar decisões constantemente, muitas sob pressão e cansaço. No dia a dia passas a treinar quase sempre sozinho. No final do jogo, não tens uma equipa para ir festejar uma grande vitória. No início a transição de jogador para árbitro é um pouco complicada. Posto isto, o cartão-de-visita não parece ser dos melhores para novos candidatos…

A verdade é que é um privilégio estar no meio do campo e participar ativamente na melhoria do jogo, ultrapassa tudo. De facto, estar no meio do campo é o melhor lugar para se estar.  O facto de ter jogado ajuda-me a lidar bem com a pressão, embora a pressão que sinto hoje enquanto árbitro seja diferente de quando jogava. Não há a possibilidade de emendar um erro de arbitragem com uma decisão brilhante. Acho que a componente psicológica é muito importante e que deve ser trabalhada por qualquer árbitro, tanto na preparação antes do jogo, com a visualização mental de diferentes situações que possam ocorrer no jogo e quais os seus processos de análise, assim como identificar os “triggers” para manter a cabeça fria em situações de stress.

Como é que começou este teu interesse pelo apito? Tens recordações do teu primeiro jogo a nível dos campeonatos oficiais?

Em 2013, enquanto estava a recuperar de uma lesão, durante um treino na Académica o treinador na altura, o Rui Carvoeira, pediu-me para arbitrar uma situação de jogo e correu bastante bem. Foi feito um contacto com o conselho de arbitragem e comecei a arbitrar nos convívios dos s8 aos s14. O primeiro jogo com nomeação oficial como árbitro principal foi em 2013, Bairrada x Guimarães, da 2a divisão.

E o rugby… chegaste a jogar? Se sim aonde? E como é que descobriste a modalidade?

Joguei 22 anos, de 1992 a 2014. Durante 20 anos na Académica de Coimbra e fiz 2 épocas no Rugby Clube da Lousã, de 2005 a 2007. Tive ainda a oportunidade de jogar durante 3 meses na Austrália, em 2010. O meu contacto com o rugby começou praticamente desde o nascimento, e o “culpado” foi o meu pai que esteve sempre ligado à modalidade, tendo sido jogador, treinador, árbitro e dirigente.

Sendo do Centro de Portugal e de Coimbra, és um Estudante de coração? Ou puxas pela Agrária?

Mais do que ser da Académica ou da Agrária, tenho uma grande paixão por rugby e isso permite-me querer ajudar, dentro das minhas capacidades, seja nos convívios ou simplesmente ir aos treinos dos clubes. Naturalmente a Académica tem um lugar especial por ter sido o clube que representei durante praticamente toda a vida. Não posso esquecer a Lousã, que me deu a oportunidade de evoluir e jogar todos os fins-de-semana, nos meus primeiros anos de sénior.

Quais são os teus objectivos a médio prazo? E a longo?

A médio prazo pretendo ser um árbitro com as capacidades necessárias para arbitrar finais. Para isso tenho de arbitrar o máximo possível, de modo a ser mais consistente e experiente. A longo prazo tenho como objetivo fazer um percurso internacional.

Em 2017 foste juiz de jogo de uma das meias-finais do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal, em que estiveste amplamente bem. O que sentiste nesses momentos de maior intensidade? E os jogadores foram cordiais e souberam acatar bem as decisões?

Foram dois jogos com níveis de intensidade física bastante altos, especialmente na placagem e no jogo no chão. Tendo sido jogos em que uma das equipas é eliminada, uma simples penalidade pode decidir uma época, aumentando ainda mais o escrutínio sobre decisões. Daí ter trabalhado ao longo da época para melhorar o processo de avaliação das diferentes áreas do jogo e encontrar o meu próprio processo mental para conseguir manter a calma em situações de stress, conseguindo ajuizar o melhor possível e transmitir aos jogadores a calma e confiança necessárias. Naturalmente que nestes jogos, pela sua natureza e intensidade, há momentos de alguma frustração mas os jogadores foram cordiais e educados.

Nos tempos que jogava pela a Académica (Foto: Jose António Fernandes)

Os envolvidos nos jogos de rugby a nível sénior têm um maior conhecimento das leis e regras da modalidade do que tínhamos há uns anos? E na formação é o mesmo?

Penso que há uma maior preocupação pelo entendimento das leis do jogo por parte dos jogadores e treinadores. Acho que é natural pela complexidade de algumas leis. Não tenho dúvidas que na formação, especialmente nos s18 grupo A, o nível de conhecimento das leis é bastante superior nos dias de hoje.

Outra pergunta fracturante: houve um subir de contestação a partir das bancadas? Achas que a comunidade tem de ter outra postura fora das 4 linhas de jogo?

Sem dúvida. Esta realidade não acontece apenas em Portugal. Na Nova Zelândia, por exemplo, em níveis competitivos mais baixos, tem havido sanções fortes a clubes e intervenientes devido a abusos a árbitros. Quando se fala de rugby, faz-se imediatamente uma comparação com o futebol, pelo respeito que existe entre os jogadores e o árbitro, pelo convívio saudável que existe nas bancadas entre pessoas de clubes diferentes e pela lealdade. Essa é a nossa identidade, a nossa imagem de marca.

Melhor comentário que já ouviste de um jogador dentro do campo? E jogo que mais gostaste de apitar (e porquê)?

Não me recordo de nenhum comentário em concreto. Costuma dizer-se que quando passas despercebido no jogo é bom sinal.

O jogo que mais gostei de arbitrar foi a Agronomia x Cascais, da meia final do campeonato, por ter sido o jogo com mais intensidade que arbitrei até hoje.

Tens ideias para fomentar o ingresso de novos interessados para os cursos de arbitragem?

Em Portugal a imagem do árbitro não é bem aceite na comunidade. Esta realidade é transversal a todos os desportos. Isto dificulta um pouco o recrutamento de novos árbitros.

Sabemos que, principalmente na passagem do escalão s18 para sénior, há um grande abandono de atletas. Muitos deixam de jogar porque começam uma nova vida (universidade) mas, também, por sentirem que não têm as condições físicas e/ou técnicas para jogar nos seniores. Na última época já houve um aumento de sessões junto dos clubes, principalmente para esclarecimento de leis. Se aumentarmos essa interação, sensibilizando ainda mais os treinadores e os atletas, penso que conseguiremos novos árbitros.

Quem é que te estimulou na arbitragem e tem sido um apoio importante na tua carreira?

Como o meu pai também foi árbitro, acabou por ser um contacto natural. Lembro-me que quando tinha 12/13 anos ele era diretor de equipa de Juniores da Académica e eu acompanhava quase sempre a equipa. Quando não havia árbitros auxiliares, lá ia eu. Hoje em dia, liga-me sempre a seguir aos jogos para falarmos um pouco sobre o jogo. A minha mulher e a minha família têm sido um apoio muito importante, porque normalmente são sempre eles os prejudicados com as minhas ausências. O Rui Carvoeira, porque foi ele que me “empurrou” para o meio do campo naquele treino. O Conselho de Arbitragem por ter confiado em mim e me ter dado as oportunidades para evoluir e o restante grupo de árbitros que me acolheu e integrou. Ambos têm sido importantes na troca de ideias e discussão sobre questões mais técnicas.

A tua ida até ao Torneio de 7’s em Heidelbeg correu bem? Que equipas participaram? E que crítica fazes ao teu desempenho nesses jogos?

Correu bastante bem. Fiquei satisfeito com a minha performance ao longo do torneio que foi em crescendo. Neste torneio participaram várias equipas alemãs e seleções regionais e nacionais de vários países europeus.  Penso que o aspeto a que demorei um pouco mais a adaptar-me durante o torneio foi a lei da vantagem e o posicionamento, que nos 7’s é completamente diferente do XV.

E qual é a tua profissão no dia-a-dia? E consegues conjugar tudo com a modalidade?

Sou fisioterapeuta na Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra. Felizmente o meu empregador nunca criou barreiras às minhas ausências, sendo bastante compreensivo quanto à importância que o rugby tem na minha vida. Fui pai há 4 meses, portanto estou numa fase de adaptação constante de horários. Sempre que posso, treino antes de ir trabalhar, assim consigo conciliar o trabalho, treino individual e família.

Neste momento qual é a tua maior força para trabalhares arduamente todos os dias e ainda ter tempo para a modalidade? E tens algum sonho por cumprir?

Tenho a felicidade de fazer o que gosto, adoro a minha profissão e adoro rugby, portanto não sinto “obrigação” de treinar antes de ir trabalhar, ver jogos ou fazer análises, faço-o com o maior gosto. Faço-o porque gosto de dar o meu máximo, porque quero dar algo significativo de volta ao rugby e porque gostaria de servir de exemplo para outros que queiram seguir o mesmo percurso.

Na final da 2ª divisão (Foto: Nuno Vaz Fotografia)

Umas perguntas rápidas: melhor jogador do campeonato Nacional? E treinador?

Melhor jogador – José Rodrigues

Melhor treinador – Frederico Sousa

Um jogador-exemplo dentro de campo?

Tenho que dizer vários. Uns por ter jogado com eles, outros por os ter arbitrado. João Catulo, Rui Cordeiro, Gonçalo Neto (Gato), Rui Rodrigues, Diogo Mateus e João Diogo Silva.

Decisão mais difícil que tomaste num jogo?

No meu jogo de estreia na divisão de honra, Direito x CRAV, em 2015. Na primeira parte, o abertura do CRAV estava a jogar vantagem e faz um chip-kick que saiu um pouco longo. Como vi o defesa do Direito a correr para a bola e em boa posição para a apanhar, voltei à falta inicial. No entanto, ele deixou a bola bater no chão, ressaltou para o jogador do CRAV, e, quando apitei, ele estava isolado a correr para o meio dos postes… Não foi uma situação fácil.

Nova Zelândia, Inglaterra ou África do Sul?

Nova Zelândia.

Preferias ajuizar uma disputa no breakdown entre o McCaw e o Pocock ou ajuizar um potencial fora-de-jogo ou não num jogo dos British Lions e All Blacks?

Podendo estar no meio do campo com esse pessoal, qualquer uma das situações.

Jogador mais resmungão que já tiveste o prazer de apitar?

Até ao momento têm sido bem-comportados.

7’s ou XV?

Gosto muito de 7’s, mas em primeiro lugar XV.

Uma mensagem para todos os fãs do rugby português e potenciais candidatos a árbitros?

A aplicação dos valores do rugby depende de todos nós. Se cada um fizer o seu melhor para os implementar, deixaremos o nosso desporto numa posição melhor para quem vier a seguir.

Para os futuros árbitros, não tenham receio de começar. Arbitrar não é um descrédito, mas sim um grande privilégio, porque desempenhamos um papel fundamental no desenvolvimento do jogo e na segurança dos atletas. Comecem nos treinos dos clubes ou nos convívios. Quem souber melhor as leis de jogo, joga melhor.

A fomentar as novas gerações (Foto: Jose António Fernandes Fotografia)


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