Arquivo de Top8 - Fair Play

17761294_10154969691996368_1130044923_o.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1
Francisco IsaacAbril 10, 20176min0

As Seis Nações femininas, a profissionalização do rugby, a preparação para a fase final do TOP8 foram alguns dos temas abordados por Maria Heitor, atleta do LMRCV. O Diário do Atleta de Maria Heitor no Fair Play

O torneio das 6 nações obrigou-nos a uma longa pausa no campeonato. Com a Inglaterra a dominar os dois torneios, especialmente o torneio feminino, onde não deixou dúvidas de ser a seleção favorita, a bater, e por muitos, todas as selecções, mostrando que uma aposta na profissionalização traz bons resultados. Deixem-me lembrar-vos que a seleção inglesa é a primeira seleção europeia a profissionalizar as suas jogadoras de rugby de XV.

Depois de uma grande aposta das principais potências do rugby feminino na vertente de 7s, chegou a hora de apostar no rugby de XV, com a aproximação do campeonato do mundo 2017, na Irlanda, a Inglaterra ofereceu 48 contratos profissionais às suas jogadoras.

A seleção francesa detentora do título de 2016, depois de se ver obrigada a mudar todo o seu staff no final de 2016, acabou por ter uma participação menos positiva nesta prova. A menos de 9 meses do campeonato do mundo, les Bleus vêm-se obrigadas a adaptar-se a novos métodos de trabalho, a criar novas rotinas, a testar novas posições, etc.

Apesar de já se ouvir falar duma profissionalização do XV, é ainda um sonho. Mas se a França quer continuar a fazer parte das melhores seleções do mundo tem de se despachar e apanhar o mesmo comboio que as outras potências. (só a seleção de 7s é profissional, as jogadoras de XV são completamente amadoras, apesar de terem um prémio diário em cada estágio e ou jogo/pré-jogo).

Bem… da seleção francesa até ao campeonato nacional, fomos ao longo destes 2 meses privadas das nossas 5 jogadoras internacionais. Mas a trabalhar duro para que, quando estas chegassem, a diferença de nível não se notasse, o que queria dizer que tínhamos que trabalhar o dobro, sem jogos, sem as nossas internacionais (que enfrentavam as grandes seleções europeias).

O nosso staff tratou de marcar jogos amigáveis, fazer oposições contra a equipa sénior masculina, oposições contra a nossa equipa reserva, enfim. Tudo o que estivesse ao seu alcance para que a seguir a esta interrupção entrássemos no campeonato «a abrir».

Com o nosso apuramento já garantido para a final a duas jornadas do final da fase regular, e com 3 lugares ainda em discussão entre 4 equipas (Saint Oraes, Montpellier, Stade Toulousain e Stade Rennais).

Foto: Arquivo de Maria Heitor

Temos pela frente dois jogos aparentemente calmos, enquanto as outras equipas vão-se enfrentar numa tentativa de garantir o seu lugar nas meias-finais. E entre o Caen e o Clermont-Romagnat lutam pela manutenção no top 8.

Antes de enfrentar o Romagnat, a equipa da Normandia (Caen) ia receber-nos em casa. O nosso objetivo era claro, apesar das deslocações à Normandia serem sempre complicadas queríamos ganhar fora e com ponto bónus ofensivo para continuarmos em 1º lugar do campeonato.

Do lado da equipa do Caen, se conseguissem a garantia do ponto bónus defensivo (perder por menos de 7 pontos), a manutenção estava garantida.

Com o efectivo completo tivemos apenas dois treinos para preparar o jogo. Na sexta feira ao final do dia, os treinadores anunciam a equipa e fico a saber que vou voltar a jogar na posição onde mais gosto, asa. No sábado encontramo-nos no clube e partimos em autocarro até à cidade de Caen.

Domingo de manhã, estava cheia de vontade de jogar! Mais do que era normal, acho que a excitação de voltar a jogar a asa era visível (nem consegui dormir bem)… além disso, há dois meses que não tínhamos um jogo oficial. Eu sentia-me bem fisicamente. Neste último mês tinha mudado os meus treinos de ginásio, adicionado alguns treinos de corrida e tinha perdido algum peso (depois do natal…. Enfim… as lutas de sempre).

Faltavam 5 jogos! 5 vitórias! Para esta aventura francesa acabar em beleza! Os dois jogos da fase regular, as duas meias finais e a final (dia 29 de Abril em Bordéus). Chegámos ao campo 1h40 antes do jogo, entre os preparativos de jogo, saímos para o aquecimento 40 minutos antes do jogo.

Um dia lindo para jogar rugby! Lembro-me que ao sair dos vestiários tive uma pequena sensação de estar a jogar em Portugal, com o céu limpo, uns 18 ou 19 graus… uma coisa rara nesta zona de França e em Lille para o mês de Março.

Um aquecimento bem duro para nos acordar! E uns 10 minutos de recuperação antes do jogo.

Nos primeiros minutos de jogo o Caen instalou-se no nosso campo. E ao longo de 10 minutos tivemos alguma dificuldade em sair de lá, sem perder a calma conseguimos progredir e instalar-nos no campo delas.

Uma primeira parte em que chegámos ao objetivo 3 vezes! Fomos para intervalo com o resultado em 17-00. Ao intervalo os treinadores pediram-nos para começarmos a introduzir as novas jogadas. Era o último jogo onde as podíamos testar.

O próximo jogo será transmitido em direto então não seria o melhor para as experimentar. Na segunda parte do jogo, a nossa equipa impôs-se fisicamente e mesmo a rodar a equipa toda conseguimos marcar 5 ensaios. Aos 45 minutos passei de asa para pilar e terminei o jogo a enfrentar a pilar da seleção francesa.

Apesar de tecnicamente ela me dar uma ratada, é nestes momentos que me sinto progredir nesta nova aventura. Neste jogo voltei a fazer os 80 minutos completos e voltei a marcar um ensaio o que me deixar super feliz porque eram os objetivos que tinha para esta época! Mais tempo de jogo, fazer um jogo completo e marcar ensaios!

Um resultado final de 44-00 que nos deu uma boa festa nas 5horas de autocarro de volta para casa. Esta semana preparamo-nos para enfrentar o Bobigny, o jogo será transmitido em direto pela Eurosport Francesa. É o último jogo da fase regular do campeonato. No próximo domingo os 4 jogos do nosso campeonato serão transmitidos em direto pela Eurosport.

Uma estreia para o rugby feminino:

LMRCV vs BOBIGNY

ASM Romagnat vs CAEN (decide a equipa que se mantem na divisão de honra do rugby feminino)

MONTPELLIER vs RENNES

BLAGNAC-ST-ORENS vs TOULOUSE

Foto: Arquivo de Maria Heitor

Para nós faltam 4 jogos! 4 vitórias!

15033944_10154554104481368_1333112347_o.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1
Francisco IsaacNovembro 16, 201611min0

Com a primeira volta do Top8 prestes a terminar, Maria Heitor enfrentou novos adversários, jogou em outras posições e viajou por França fora. Este é o Diário do Atleta de Maria Heitor Episódio III, a Loba à conquista de Lille

O mês de Outubro chegou com três grandes desafios e um só objectivo. Subir ao primeiro lugar do campeonato que nos escapava por dois pontos bónus concedidos ao Saint Oraes.

Após dois fins-de-semana de repouso, atacámos três jogos seguidos. O primeiro contra uma equipa aparentemente mais acessível. Aparentemente! Mas que tinha feito uma dupla contratação de luxo. Duas jogadoras da selecção fijiana de sevens que tinham participado nos jogos olímpicos (terceira linha e ponta). O estilo fijiano bem entrosado no estilo de XV francês… bola viva, passes depois da defesa, trocas de pés do «outro mundo» … dando uma nova dinâmica ao Stade Rennais.

Para mim, a estreia da época a titular. Super feliz de voltar à terceira linha titular, só me restava provar aos treinadores que merecia aquela titularidade.

Dia de jogo! Recebemos o Stade Rennais em nossa casa. Grande dia de rugby em Villeneuve D’Ascq. As quatro equipas seniores (duas femininas, duas masculinas, A e B) recebiam 4 equipas. A família do LMRCV estava lá toda!

Titular pela 1ª vez a Asa… para acabar a Pilar!

A minha camisola de jogo foi entregue por uma das minhas melhores amigas da equipa. Acho que nunca falei da entrega das camisolas… para mim é um dos momentos mais marcantes do jogo. Antes do aquecimento, a equipa reúne-se em roda no balneário. A capitã faz o discurso antes do jogo e as camisolas estão no meio da roda. No fim do discurso, uma jogadora toma a iniciativa de dar a primeira camisola. Pega numa camisola à sua escolha e vai dar à jogadora respectiva, diz-lhe duas ou três frases, dão um abraço, um beijinho e a jogadora que recebe a camisola pega na próxima e assim sucessivamente até ao fim. É um dos momentos mais emocionantes do jogo. Emoção, lágrimas e sorrisos estão sempre presentes.

Após a entrega das camisolas, seguimos para concentradas para o aquecimento. Uma primeira parte dada pelo preparador físico e uma ou outra revisão de saída de touche, formação ordenada ou pontapé de saída, orientada pelos nossos treinadores. Estávamos prontas para jogar. Um começo meio duvidoso, em que a bola esteve sempre do lado do nosso adversário. Uns primeiros dez minutos em que percebemos que o jogo não ia ser assim tão fácil e que se queríamos manter o nosso objectivo do ano tínhamos que ligar o «turbo». Assim o fizemos, dominámos o jogo durante os 30 minutos seguintes. Chegámos ao intervalo com um resultado de 13-6. No intervalo fazemos uma substituição e passo da terceira linha para pilar (nº1). Confesso que não é a minha posição preferida… adoro jogar a asa. Mas para mim o mais importante é ter a oportunidade de estar dentro de campo. Na segunda parte o Rennes cresceu e conseguiu marcar duas vezes. Ao mesmo tempo nós respondemos com dois grandes ensaios também. Resultado final 23-18. Vitória curta que permitiu ao nosso adversário acumular um ponto bónus defensivo.

Maria Heitor a partir barreira (Foto: Eric Photos)
Maria Heitor a partir barreira (Foto: Eric Photos)

Consegui, neste jogo, alcançar um dos meus objectivos pessoais. Pela primeira vez, desde que cheguei a França, fiz um jogo completo, 80 minutos. Fiquei super contente! No final do jogo, devido a uma situação atípica tivemos de dar a nossa camisola de jogo à equipa de reserva. Cada jogadora «ofereceu» a sua camisola à jogadora da equipa B que jogava na sua posição. Acabou por ser um momento emotivo para todo o clube que, ao mesmo tempo, mostrou que o desporto feminino está uns passos atrás do masculino. Infelizmente…

Com uma nova semana pela frente e uma responsabilidade acrescida… a procura do primeiro lugar do campeonato que continuava a fugir por dois pontos bónus. O jogo contra o líder do campeonato. O Saint Oraes recebia-nos em casa para a disputa da liderança. Uma semana para afinar os pormenores e adaptar o nosso projecto de jogo à equipa que íamos enfrentar. Evitar mauls e proteger bem as «portas» do ruck eram palavras de ordem. Esta equipa é conhecida por aniquilar todas as equipas na conquista de bola em pé, conquistam metros e metros graças ao seu poderoso pack avançado. De jogo bem estudado atacámos o fim-de-semana. No sábado, dez horas de comboio pela frente… Partida de Lille às 8h30 com uma chegada prevista as 18h30 a Toulouse. Uma viagem exaustiva antes de um grande jogo. Chegadas ao hotel só queríamos jantar e ir descansar. Depois do jantar temos um momento de recuperação muscular com o preparador físico e fisioterapeuta (roll out, alongamentos, massagens de recuperação) e a seguir duas a duas voltamos para os nossos quartos para finalmente podermos dormir.

8h da manhã, a equipa encontra-se na sala de pequeno-almoço do hotel. Após esse momento fazemos uma pequena reunião para tratar dos últimos pormenores, seguindo-se um acordar matinal do corpo com o preparador físico, que se baseia em corrida ligeira, movimentos calmos de todas as articulações, alguns passes, algumas revisões de touches ou jogadas de ¾, etc… Voltámos a reunir para comermos mais qualquer coisa antes do jogo e partimos para o estádio. No autocarro recebo uma pequena mensagem de incentivo de uma colega de equipa escrita num papel. Duas jogadoras da nossa equipa decidiram escrever uma mensagem pessoal a cada jogadora antes deste grande derby. Afinal era um dos jogos mais importantes que tínhamos pela frente e tudo o que nos pudesse motivar era bem-vindo. Além da liderança a disputar.

A forma de atiçar do Blagnac

Ao chegarmos a Blagnac, juntamo-nos no centro do campo em roda, os treinadores dizem as últimas palavras antes do jogo. Voltamos para o balneário e começamos a equipar. Antes da passagem do árbitro no balneário temos a entrega das camisolas e seguimos para o aquecimento. Depois do aquecimento volto para o balneário um pouco depois da equipa e deparo-me com uma situação esquisita… a minha equipa estava toda com as camisolas do clube que íamos enfrentar… olhei para a minha capitã que baixou a cabeça e me disse: pois vamos ter de jogar com elas. Não estava a perceber bem o que se estava a passar, até que me explicaram: tínhamos trazido uma camisola de jogo branca, tal como a equipa da casa. A solução mais prática seria o Blagnac jogar com o alternativo, uma vez que não tínhamos as nossas… mas recusaram tal ideia (o Blagnac) a trocar por causa dos patrocínios estampados, então a solução foi darem-nos a camisola alternativa.15058731_10154552856316368_1430483457_n

A minha equipa estava revoltada com toda a situação… primeiro porque tínhamos pedido um adiamento do jogo por causa dos horários de comboios (podem imaginar que Toulouse-lille é uma viagem com uma logística complicada em comboio) que não nos foi concedido, depois porque nos privaram de jogar com o nosso símbolo ao peito… esta frustração foi transformada em motivação por toda a equipa e entrámos mais focadas que nunca. Dominámos o jogo, touches, formação ordenada eram todas nossas, anulámos a sua supremacia nos mauls e rucks. Levámos apenas 3 faltas durante o jogo (o sonho de qualquer treinador). Tivemos quase sempre a bola na nossa mão. Infelizmente nem sempre conseguimos concretizar. Mas fizemos o suficiente para sair de Blagnac com a liderança do campeonato.

Eu fiz a minha estreia deste ano a pilar titular… não sou uma pilar experiente e mesmo as minhas colegas de equipa «gozam» a dizer que não tenho «gabarito» para jogar na primeira linha….  Estava assustada com as formação ordenada… mas sabia que tinha comigo mais 7 jogadoras. E dominámos! Pela primeira vez desde que o campeonato começou, dominámos as formação ordenada! Segundo as nossas suplentes, os olhos do nosso treinador dos avançados brilhavam em cada formação ordenada. Um dos nossos ensaios é resultado de uma formação ordenada que avança até à área de ensaio. No final do jogo, e mais uma vez 80 minutos feitos, estava como costumamos dizer aqui, «au bout de ma vie», ou seja, morta… imaginem que mesmo depois do banho, as minhas pernas e braços ainda tremiam.

Au Bout de Ma Vie… ou um anúncio de Missão Cumprida!

Os treinadores vieram pessoalmente dar-me os parabéns pelo jogo que tinha feito. Mais uma vez fiquei super feliz. Não é todos os dias que eles dizem estas coisas…

Jogo acabado, ainda nos faltavam 10 horas de viagem pela frente. Enquanto os treinadores faziam as estatísticas do jogo, nós festejávamos no bar do comboio.

Penso que nunca falei das estatísticas. Os treinadores fazem sempre a análise dos jogos: Tempo de jogo, número de placagens tentadas, número de placagens conseguidas/falhadas, formação ordenada contra ganhas, formação ordenada contra perdidas, formação ordenada nossas ganhas, formações ordenadas nossas perdidas, touches contra ganhas, touches contra perdidas, touches nossas ganhas, touches nossas perdidas, bolas perdidas e como, bolas ganhas e como, número de vezes que vamos ao contacto (bem sucedido, mal sucedido mas que não perdemos a posse de bola, mal sucedido e que perdemos a posse de bola), número de vezes que somos o primeiro apoio ao portador da bola no contacto (bem feito, mal feito mas que não perdemos a posse de bola, mal feito e que perdemos a posse de bola). As estatísticas do jogo são divulgadas a toda a equipa durante a reunião e a preparação do jogo seguinte.

Vitórias e mais vitórias (Foto: LMRCV)
Vitórias e mais vitórias (Foto: LMRCV)

Acabada a semana como líder do campeonato, os treinadores deram-nos a segunda-feira de descanso para recuperarmos da viagem e do jogo. Com apenas dois treinos de preparação ainda nos faltava um jogo para acabar o mês. Este com um sabor especial… a visita da minha mãe. Era a primeira vez que ela me ia ver jogar aqui em França, confesso que estava um pouco nervosa mas ao mesmo tempo com um sentimento reconfortante pela sua visita. Depois de dois treinos a acertar os pormenores para enfrentarmos da melhor maneira o jogo, encontrámos-nos no domingo bem cedo. 5 horas antes do jogo. Os treinadores fazem uma última análise do nosso projecto de jogo e partimos para o campo para fazer uma movimentação colectiva muito ligeira de 30 minutos. Partimos para o restaurante onde almoçamos todas juntas antes do jogo e voltamos para o clube. 50 minutos antes do jogo o árbitro vai ao balneário falar com os primeiras linhas e formação e verificar chuteiras e protecções, 45 minutos antes fazemos a entrega de camisolas e 40 minutos antes saímos para o aquecimento.

Só vitórias e mais vitórias!

Infelizmente, no inicio do aquecimento sinto uma picada na coxa o que me limitou durante o jogo e não me permitiu jogar como queria.

Depois de um grande teste na semana anterior, 80 minutos a pilar, tinha outro enorme pela frente… enfrentar cara a cara a pilar principal da selecção francesa de XV. Uma pilar «do outro mundo» que me deu muito trabalho e que me mostrou que em França a formação ordenada não é brincadeira… é incrível como os franceses apostam tanto na formação de pilares no alto nível. Resumidamente, levei um “banho” de técnica de formação ordenada dela! Apesar disso, objectivo cumprido! 34-5! Vitória com ponto bónus o que nos permitiu destacarmos-nos bem no primeiro lugar.

Assim acabou mais um mês do nosso campeonato. Para terminar a primeira fase de apuramento ainda nos falta um jogo contra o Bobigny que será disputado fora, domingo dia 13 de Novembro.

14494871_10153776796845684_7468063272919399564_n.jpg?fit=954%2C954&ssl=1
Francisco IsaacOutubro 18, 20166min0

Um mês passou desde do Episódio I e muito se passou na vida de Maria Heitor, a loba em terras gaulesas; O reencontro com os maiores rivais da competição, a ida à Selecção de 7’s e o reingresso na vida Académica. Acompanhe o Episódio II

Após o primeiro grande impacto competitivo, passámos os três treinos da semana a afinar os pormenores menos positivos do jogo que fizemos contra o Clermont, para recebermos o Stade de Toulousain em casa. Combate e defesa foram os pontos mais trabalhados. Ao mesmo tempo, lancei-me numa nova aventura. Faculdade! Em francês! O clube fez-me uma proposta para integrar a Universidade de Lille. O curso… Educação e Motricidade, o equivalente a Educação Física no ensino português, para ter mais uma ferramenta na minha mão no fim desta aventura.

Além da faculdade e dos treinos diários, completo o meu dia com o trabalho. Gerir tudo não é pêra doce mas acaba por ser um desafio super interessante e permite-me de aprender o bom francês, escrito e falado. Nos primeiros dias de faculdade, parecia uma barata tonta… entre andar perdida pelos corredores, estar atenta às aulas (em francês!!!), tirar os apontamentos, orientar os primeiros trabalhos, voltar a fazer actividades desportivas como o atletismo, a ginástica e corrida de orientação… a idade já não é a mesma e o corpo já se queixa!!!

Regresso à Faculdade para novos “sonhos”

Após a primeira semana de aulas e depois de uma corrida de orientação matinal, recebemos o Toulouse. Um jogo muito duro! A equipa do Stade Toulousain pode não ser o campeão em título (recordar que somos nós, o Lille) mas é uma das formação mais antigas e lendárias do rugby francês. Sei que o exemplo pode ser algo “infeliz”, mas a equipa feminina do Toulouse tem cerca de 5 mil likes no Facebook enquanto nós só temos 3 mil. Por isso a História contra a Actualidade… O Toulouse vinha com um objectivo, bater as campeãs em título na sua própria casa.

Conseguiram impor o seu jogo nos primeiros 30 minutos, até que acordámos e finalmente impusemos o nosso e conseguimos esclarecer o jogo. Foi complicado entrarmos no nível de combate que o Toulouse exigia. Já vinham com uma boa bagagem de jogos de preparação (tiveram a oportunidade de fazer 5 jogos amigáveis antes de começarem o campeonato). Ao longo do jogo o Toulouse impôs a sua supremacia, especialmente a nível dos avançados, dominando a maioria das formações ordenadas, pondo-nos a correr atrás do prejuízo.

O resultado podia ter sido melhor mas saímos com o objectivo cumprido, a vitória! Individualmente senti que podia ter feito mais, joguei só a 2ª parte e acabei por não estar tão bem como tenho a certeza que devo estar. Errei em algumas situações, perdi a concentração noutras, tenho de gerir melhor a minha intensidade quando saiu do banco de suplentes ou quando começo a titular. Mas como disse, o que interessa é a vitória!

Ao serviço de Portugal (Foto: Neil Kennedy)
Ao serviço de Portugal (Foto: Neil Kennedy)

Não estivemos ao nosso nível no Europeu…

Em 3 semanas 3 jogos afilada. Seguia-se o Montpellier. Não pude estar presente neste jogo porque foi no mesmo fim-de-semana que a 2ª etapa do campeonato europeu de 7s. O Europeu não correu como gostaríamos em termos de resultados desportivos, por outro lado, percebeu-se que há futuro na selecção feminina. Várias sub-18 integraram a selecção sénior de mostraram que têm muito para dar ao rugby feminino.

A equipa chegou na véspera do torneio. A meio da tarde eu parti directamente de Lille e encontrei-me com o grupo nessa tarde. Fizemos um treino ligeiro de movimentação colectiva e descansámos com a cabeça no torneio.

Primeiro jogo, tínhamos um adversário duro, a Grã-Bretanha. Esperava-nos Um jogo físico e agressivo, já que elas fazem parte do Circuito Mundial de 7’s (divididas por Inglaterra, Irlanda e País de Gales). A nossa selecção tem sempre um pequeno problema a nível de acordar para o primeiro jogo… curiosamente, não foi o caso já que não entrámos nada mal e até tivemos uma boa postura. Perdemos 19 a 0 e senti que era um jogo ao nosso alcance, fomos infelizes em certos momentos não conseguindo colocar em “marcha” o nosso sistema de jogo. Segundo jogo Rússia. Depois de ter sido afastada dos Jogos Olímpicos na final de Dublin, as jogadoras russas parece que passaram o Verão todo a treinar e a preparar para este torneio com um objectivo, o título de campeãs europeias. Cilindradas por 59 a zero… não conseguimos aproximar-nos do ritmo de jogo que elas nos impuseram.

No terceiro jogo frente à Ucrânia tivemos pontos positivos: o levantar a cabeça após uma derrota como a da Rússia, uma derrota infeliz contra a Grã-Bretanha e após um primeiro minuto de jogo em que sofremos um ensaio após uma intercepção… mas depois da tempestade lá veio a bonança e ganhámos esse jogo. Segundo dia começámos com um adversário falsamente fácil… Finlândia! Que nos custa uma nova derrota, com uma falha de Placagem… acabou por ditar o nosso destino. A Finlândia aproveitou e impôs-se. Jogámos o último jogo frente à Ucrânia e voltámos a ganhar.

Se por um lado os resultados desportivos não foram os mais agradáveis, foi interessante ver como uma equipa tão heterógena e com falta de rotinas conseguiu levantar a cabeça depois de duas derrotas, especialmente a pesada derrota contra a poderosa Rússia, e ir ganhar o jogo contra a Ucrânia no final do primeiro dia. Infelizmente, no segundo dia não aproveitámos a lufada de vento e caímos frente a uma surpreendente Finlândia. Retiro daqui mais um ponto positivo, a vermos a nossa vida a andar para trás, levantámos de novo a cabeça e terminámos o dia com uma vitória.

Talvez uma característica do povo português, quando tudo parece perdido lá vem uma alegria que nos mostra que somos capazes de mais e melhor.

Há grande futuro nas Lobas 

Quanto ao jogo contra o Monteplier, as vice campeãs, que tinham um nó na garganta desde Maio e que desejavam uma vingança pela final perdida, infelizmente, para elas, não conseguiram levar a melhor. E mesmo com a equipa Villeneuvoise desfalcada (sem todas as suas internacionais septistes e mais duas lesões graves), o Montpellier não conseguiu impor o seu jogo em casa e acabou por perder.

Terminámos assim o primeiro mês. 3 jogos, 3 vitórias. Um segundo lugar no campeonato porque o St Oraes leva dois pontos bónus de vantagem. Em Outubro temos dois fins-de-semana de repouso e depois atacamos três jogos decisivos para o apuramento para a fase final!

Victoire (Foto: Eric Morelle)
Victoire (Foto: Eric Morelle)
14408215_10154386918371368_2135929250_o.jpg?fit=1024%2C768&ssl=1
Francisco IsaacSetembro 19, 20166min0

O Diário do Atleta do Fair Play com Maria Heitor, atleta de rugby do Lille, falará da sua experiência em França todos os meses, com uma rubrica dedicada ao seu quotidiano. Os jogos do TOP8, a vida em França e os desafios diários.

Entre a chegada a Lille, o recomeço dos treinos, a entrada para o Campeonato francês, Maria Heitor volta assim a “embarcar” na vida de emigrante. Com mais condições, com outra experiência e com uma vontade redobrada, a atleta da Selecção Nacional revela alguns traços e ideias do seu dia-a-dia em Lille ao Fair Play. Este foi o mês de Agosto-Setembro de Maria Heitor:

Sexta-feira à tarde, a equipa vai chegando a pingos à estação de comboio. Antes da hora marcada, a comitiva está completa e pronta a embarcar. Depois de uma longa semana de trabalho e treinos ainda temos pela nossa frente um comboio até Paris, duas trocas de metro num final de semana, no caótico centro da capital e um comboio que nos levará até Clermont. Um azar a meio ficamos retidos 1h30 por um acidente numa das linhas de comboio. Saímos para alongar um bocado… ao fim de oito horas de viagem, já não temos maneira de estar.

Ao fim de oito horas de viagem, já não temos maneira de estar.

Chegamos a Clermont e um autocarro espera por nós para nos levar até ao hotel. Finalmente! O merecido descanso do guerreiro! Duas a duas, instalamo-nos nos quartos. Já é tarde (1h00 da manhã) não há tempo para conversas, dormir é a palavra de ordem. Amanhã temos um grande jogo!

De manhã encontramo-nos no pequeno-almoço, a parte onde todas nos regalamos cuidadosamente porque sabemos a importância que esta refeição terá no nosso desempenho.

O preparador físico e o fisioterapeuta esperam por nós para alguns retoques finais… entre tratamentos de última hora, ligaduras, foam roller, alongamentos, etc.

Saímos do hotel para um pequeno réveil musculaire. Andamos uns minutos, paramos num parque e fazemos alguns exercícios de mobilização artiular. Os ¾ para um lado e os avançados para o outro. Num ambiente muito tranquilo mas totalmente focado na grande tarefa do dia revemos as intermináveis jogadas de cada sector. No final juntamo-nos e os treinadores dão os últimos retoques. A equipa técnica sai e ficamos as 22. O grupo está confiante e concentrado. Apesar de não termos feito jogos treinos antes do primeiro grande teste acredito que hoje vamos sair bem do campo.

O dia é longo! Acordamos cedo e só jogamos ao final da tarde… a tensão vai subindo e os nervos e as borboletas começam a aparecer. Chegamos ao estádio duas horas antes do jogo. Vamos até ao meio do campo, revemos os nossos objectivos do dia e da época. Queremos manter o título! Começa agora!

14333103_1395620057119779_5287620125319260440_n
No meio do rebuliço (Foto: LMRCV)

Entramos no balneário. As camarâs invadem-nos o balneário… não estamos habituadas a elas… na final do campeonato aconteceu o mesmo, mas a verdade é que não é muito habitual. A eurosport vai transmitir o jogo em direto. Começamos a equipar. Últimos retoques, os primeiras linhas apertam os pitons, as talonadoras, chutadoras e formação saem para o campo para afinar os últimos pormenores. Voltamos ao balneário e dá-se a entrega das camisolas. Para mim este é dos momentos mais importantes e mais fortes. A capitã fala, no final do seu discurso pega numa das camisolas e entrega a jogadora, diz-lhe algumas palavras, abraçam-se e a jogadora que recebeu faz o mesmo a outra jogadora, e assim sucessivamente.

As camarâs invadem-nos o balneário

Saímos para o aquecimento, 30 minutos intensos onde a concentração e a vontade de jogar é notável. A primeira parte é dada pelo nosso preparador físico, no final revemos a saída a partir de touche, melle e pontapé de saída, e estamos prontas. A 5 minutos do apito inicial dizem-nos que temos de sair e ir para o corredor. As equipas entram no campo e começa-se a ouvir uma multidão. Estão 2615 estão no estádio!!! Poucas torcem por nós, mas é tão bom sentir que o rugby feminino aqui é importante.

O pontapé de saída é dado por Alexandre Lapandry asa do clube francês ASM Clermont Auvergne.

Ao fim de poucos minutos marcamos o primeiro ensaio, rapidamente percebemos que era um jogo em que o soutien iria ser muito importante para manter a bola viva. Muitas faltas… resultado da falta de jogos de preparação e do inicio da época.

Oficialmente, tivemos 4 semanas para preparar o início do campeonato. Antes houve um trabalho físico desenvolvido pelo nosso preparador 3 vezes por semana. Os treinos colectivos iniciaram-se a meio de Agosto. Apesar de ser ainda um desporto amador, acabamos por treinar todos os dias, entre os 3 treinos de campo por semana e as duas sessões de ginásio.

Nesta fase inicial, é tradição do estágio inicial. Entre as duas equipas seniores femininas (equipa A que compete no top 8 do campeonato nacional francês e a equipa B que compete na Federal XV, o equivalente a uma terceira divisão que tem o seu campeonato numa fase inicial a nível regional e numa fase final a nível nacional para o apuramento do campeão), são seleccionadas 35 jogadoras. O clube procura sempre recrutar novas jogadoras e este estágio serve tanto para testar as mais velhas, como as recentes aquisições.

Penar é uma boa palavra para resumir o estágio

Penar é uma boa palavra para resumir o estágio… partimos ao final do dia de autocarro e só chegamos a Royan 9 horas depois. Depois de 4/5 horas mal dormidas num autocarro, ainda a queixarmo-nos do frio passado durante a noite e das dores de costas, sentamo-nos para tomar o pequeno almoço… pousamos as malas nos quartos, trocamos de roupa em 3 segundos e partimos para o primeiro treino… entramos em modo recruta, em modo sobrevivência. Mas uma sobrevivência colectiva. Temos pela frente um longo dia. Para começar, 6 km de run&bike até chegar ao campo de treino. Explico-vos! Os treinadores alugaram uma bicicleta para cada duas atletas. Metade correndo, metade pedalando, vamos gerindo o nosso cansaço com a nossa parceira. Ao chegarmos ao campo, 25 minutos mais tarde, com uma boa parte do aquecimento feito, temos duas horas para dedicar ao rugby. Os avançados separam-se dos ¾ e cada sector revê a sua lição. Passado algum tempo juntamo-nos e trabalhamos a movimentação colectiva. Primeiro treino acabado… Temos pela frente 6 km de run&bike, almoço e uma merecida sesta! Foi assim o primeiro de 5 treinos em três dias. Com ida e volta em run&bike.

Na manhã do último dia, uma pequena surpresa do nosso preparador físico, às 6h00, uma pequena corrida na praia. Com direito a burpees, abdominais no mar, flexões, sprints nas dunas, corridas e muitas outras coisas… estágio acabado e ainda 700 km pela nossa frente.

Penámos, sobrevivemos, adorámos!

Final do Estágio (Foto: LMRCV)
Final do Estágio (Foto: LMRCV)

Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS