Arquivo de Seixal - Fair Play

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Pedro AfonsoJaneiro 30, 20175min0

Gonçalo Guedes foi o mais recente triunfo do Mercantilismo que a SAD do SL Benfica entende como sendo essencial para a manutenção da estrutura do clube, de um ponto de vista financeiro. Um modelo de negócios alicerçado na criação de jovens valores que pouco ou nada trazem ao Benfica, de um ponto de vista desportivo. Qual o futuro do plantel encarnado?

Nos últimos 4 anos, a Academia do Seixal trouxe para o Mundo do Futebol alguns dos maiores diamantes, uns mais em bruto do que outros, que o futebol português tem para oferecer. A aliar aos grandes plantéis aos quais a estrutura benfiquista nos tem habituado, que começaram a ser construídos no início do trabalho de Jorge Jesus na Luz, a abundância de opções de futuro nas hostes encarnadas traz uma sensação de confiança no futuro a qualquer adepto benfiquista. Ou pelo menos, trazia. Ao contrário daquilo que Luís Filipe Vieira tem vindo a lançar para a comunicação social, em declarações quase proféticas de uma “nova espinha dorsal da Selecção Nacional”, de apostas em jovens da casa, com a mística benfiquista, parece cada vez mais claro que o intuito da Academia não é criar condições de auto-sustentabilidade para o projeto do futebol do Benfica. Tornou-se, verdadeiramente, uma máquina da produção em série, em busca da próxima estrela para vender pelos maiores valores possíveis, novamente investidos em jogadores das mais variadas proveniências, por razões que, de quando em vez, me ultrapassam.

A “fábrica” de pérolas [Fonte: SLBenfica]

Desengane-se quem pensa que pertenço à nova vaga de afectos à Formação Benfiquista, tratando cada novo jogador como o próximo Eusébio. Penso que é claro que, qualquer clube que pretenda ter sucesso, necessita de se reforçar convenientemente com os jogadores que aparentem ter mais qualidade, que possam assumir-se como apostas de presente e não esperanças de um futuro risonho. As compras de Mitroglou, Rafa, Cervi e Zivkovic demonstram esta necessidade de um plantel se rodear da maior qualidade possível, não obstante a qualidade presente nos plantéis secundários encarnados, com Gonçalo Guedes, João Carvalho, Pedro Rodrigues, entre outros. Contudo, não nego que um plantel deve compor-se de apostas de futuro, da “casa”, que transmitam algo, um espírito, um sentimento, que muitos “estrangeiros” são incapazes de transportar em si.

Olhando para os últimos 20 anos, apenas me consigo recordar de dois jogadores que personifiquem a mística Benfiquista perante os adeptos: Rui Costa e Simão. Dois senhores do futebol, que qualquer adepto não irá esquecer, não só pela sua qualidade, mas por tudo aquilo que representavam para o adepto, pela personificação da Mística Encarnada, pela continuação do adepto no campo, na forma de jogador. E quem personifica esta Mística agora? Curiosamente, a meu ver, parece-me que o expoente máximo de Benfiquismo se concentra em Samaris, um jogador que se fez “Benfica”.

A despedida do “Maestro”, o último dos “nossos” [Fonte: Globo Esportes]

Desportivamente, é-me difícil encontrar explicações para a única afirmação da cantera Benfiquista ser Renato Sanches, que apenas passou meia-época no plantel principal da Luz, tendo sido logo vendido para o colosso Bávaro de Munique. Uma análise cuidada aos “craques” que saíram da Luz nos últimos anos mostra-nos um conjunto de negócios financeiramente discutíveis e desportivamente ruinosos:

  • Bernardo Silva, o príncipe monegasco, que abandonou o Benfica após o seu talento ser ignorado por Jorge Jesus, em 2014. 15M€ justificaram a perda de um talento raríssimo.
  • André Gomes, o pretenso herdeiro de Xavi, que, após duas épocas em Valência foi o escolhido para reforçar o meio-campo blaugrana. 15M€ voltaram a justificar a perda de uma enorme promessa.
  • João Cancelo, lateral atualmente no Valência, com passagem agendada para Barcelona no final da época, vendido por mais 15M€.
Nunca contou para o “Potenciador”, agora espalha magia no Principado [Fonte: Mais Futebol]

E o passado recente não se mostrou bom conselheiro para LFV, que parece continuar nesta senda de enfraquecimento do futuro encarnado, com as saídas confirmadas de Gonçalo Guedes e Hélder Costa, bem como as inúmeras sondagens por Lindelof, Nélson Semedo e Ederson.

Para além do claudicar de um futuro assegurado por uma estrutura que traz novos valores, a preços baixos, com a vantagem de uma formatação para um modelo de um clube, o clube perde referências de benfiquismo, jogadores que carreguem a mística, criando um vazio que as bancadas buscam procurar com craques que, tantas vezes, não compreendem o amor que o adepto sente pelo intérprete, como foi o caso de Enzo Pérez. O futebol é, mais que nunca, um negócio, contudo não podemos negar aos adeptos a oportunidade de ver em campo “um dos seus”, a oportunidade de ver miúdos crescer com a águia ao peito, que irá ser a sua segunda casa. Talvez seja utópico e um pouco romântico, mas fazem falta mais Guedes, mais Bernardos e mais Renatos ao Benfica.

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Pedro AfonsoDezembro 21, 20165min0

Rui Vitória foi o escolhido para iniciar um novo paradigma no SL Benfica: aliar o sucesso desportivo ao sucesso formativo. Não chega ganhar para a atual Direcção do Benfica, é necessário ganhar com a “prata da casa”, com a Formação. Será possível manter o nível de exigência e de sucesso do atual tricampeão, criando bases para uma aposta sustentada em jovens valores?

Em 1994, Alan Hansen proferiu uma das frases mais marcantes do futebol britânico, após uma derrota de 3-1 do Aston Villa contra o Manchester United de Sir Alex Ferguson. Nesse dia, Hansen profetizou que “Miúdos não ganham títulos”. O Villa acabara de perder com um United que contou com nada mais nada menos que 6 (!!) jogadores com menos de 23 anos. No final da época, Hansen percebeu que estava errado.

Há cerca de 4 anos, quando o SL Benfica chegou a duas finais da Liga Europa e praticava um futebol que poucas equipas na Europa podiam almejar, ouvia-se um burburinho de fundo, indignado, inflamatório, clamando que a ausência de jogadores portugueses no 11 titular constituía uma afronta e um duro golpe para a evolução do futebol português. Mas a indignação não se limitava à ausência de jogadores locais, estendia-se à total falta de atenção por parte da equipa técnica do Benfica aos prodígios que iam emergindo da formação do Seixal. E a verdade é que podemos constatar que muito talento foi desperdiçado (desportivamente falando), voltando à memória os casos de Bernardo Silva, André Gomes e João Cancelo.

[Foto: Serbenfiquista.com]

O Benfica foi tendo sucesso, foi criando uma cultura de exigência que perdera há largos anos, mas continuava a faltar algo. A Alma Benfiquista sentia-se vazia de um craque português, de um veículo de propagação, de uma personificação do Benfiquismo. Foram anos de vazio que necessitavam de ser colmatados, exigência do 3º anel que a Direcção ignorou demasiado tempo. E em 2 anos, assistimos uma mudança abrupta do paradigma: são apostas regulares no Benfica agora 4 jogadores da formação, não esquecendo a venda de Renato Sanches e os inúmeros lançamentos de jovens ao longo da época transacta. Mas até que ponto será esta obsessão positiva? Será capaz o Universo Benfiquista de exigir o mesmo que exigia a um Enzo Pérez a um André Horta; a um Gonçalo Guedes o mesmo que a um Lima? Mais importante, serão os jovens capazes de aguentar o peso das ambições de um tetracampeonato inédito?

Voltemos à época passada:

  • Maxi abandona a Luz após 6 anos como dono da lateral direita. O escolhido? Nélson Semedo. O seu início é fulgurante, culminando com a chamada à selecção AA das Quinas e uma lesão que o relegou para o banco até ao final da época.
  • Júlio César lesiona-se. O chamado? Ederson Moraes. Não mais largou o lugar, com o seu excelente jogo de pés e a sua bravura no momento de sair entre os postes.
  • Crise de centrais no Benfica. O escolhido? Lindelof. O “Ice-man” fez com Jardel uma das melhores duplas de centrais da Europa, culminando com a chamada ao Euro 2016 e a putativa transferência para Manchester agora em Janeiro
  • Pizzi não rende, Talisca pouco acrescenta, e a equipa continua orfã de um senhor no meio-campo. A cobaia é o Astana e a solução é Renato Sanches. E o resto da história parece saída de um filme.

Foi de facto uma época brilhante para os jovens da Formação Benfiquista. Mas e este ano? A verdade é que este ano a aposta não tem sido tão diversificada e inclusive alguns dos jogadores mostraram um nível exibicional e uma paragem de crescimento algo assustadora. Se por um lado Nélson Semedo se assume como um elemento preponderante na lateral direita e um jogador com um potencial enorme, Lindelof passa a pior fase da sua curta carreira no Benfica, acumulando erros cruciais em partidas dos últimos 2 meses, dando origem a 4 golos adversários. Horta, um Benfiquista de alma e corpo não pode carregar em si o peso de um meio-campo do tri-campeão e mostrou ser muito curto para voos tão altos nesta fase. Mesmo Gonçalo Guedes, não obstante a sua excelente forma exibicional e não negando o seu enorme potencial, teve inúmeras oportunidades desperdiçadas, mantendo-se no 11 graças à praga de lesões que assolou a equipa da Capital.

[Foto: Record]

O que talvez falte compreender aos benfiquistas, é que estas pérolas não se renovam todos os anos, como se de uma máquina de produção em série se tratasse. Não se pode achar que Yuri Ribeiro, Zé Gomes, Pedro Rodrigues e João Carvalho serão as próximas pérolas e indiscutíveis no 11 do futuro. Rui Vitória tem o difícil trabalho de ensinar os jovens num contexto de máxima exigência.

[Foto: @informglorious (Twitter)]

O United de Ferguson não voltou a repetir a façanha de 1994 e viveu da genialidade de Giggs e Scholes até aos 35/36 anos. A formação deve ser complementada por um balneário forte, com qualidade, que obrigue os jogadores a superar-se em todos os jogos. Se esse balneário não existir e o banco não for opção, teremos jogadores em baixo de forma, titulares, e cujos agentes oferecem o passe a grandes clubes sem ter em consideração o crescimento dos seus clientes. O banco, por vezes, é o melhor dos conselheiros. E a paciência a maior das virtudes.


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