Arquivo de Portal do Rugby - Fair Play

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Francisco IsaacAbril 7, 20179min0

Do outro lado do Atlântico mora um país cada vez mais apaixonado pelo rugby… o Brasil está a crescer a “olhos vistos” e vale a pena perceber o que se passou em Fevereiro e Março em Terras de Veracruz e qual é a profundidade do “Mundo da Oval” brasileiro.

Fevereiro e Março nas Américas são como na Europa, meses de seleções nacionais. As disputas da segunda temporada do Americas Rugby Championship. Para o Brasil, a competição significou mais um resultado histórico. Se em 2016 os Tupis haviam derrotado pela primeira e única vez na história os Estados Unidos, em 2017 a caça ao Canadá foi bem sucedida, com os Cancucks tombando em visita a São Paulo, exatamente como as Águias no ano passado.

A estreia do Brasil no torneio ocorreu no dia 3 de fevereiro em São Paulo contra o Chile, com o estádio do Pacaembu voltando a receber a ovalada. Para quem não conhece, o Pacaembu é o tradicional estádio municipal de São Paulo, onde foi jogada a Copa do Mundo da FIFA de 1950 e centenas de grandes jogos de futebol.

Era o Pacaembu o estádio onde o Corinthians sempre mandava suas partidas, por ser o único dos grandes clubes paulistas sem um estádio. Porém, os corintianos ganharam seu estádio em 2014, a arena construída na Copa do Mundo, e o Pacaembu ficou sem jogos regulares de futebol.

Oportunidade dourada para o rugby, que já havia jogado duas vezes no mítico palco do futebol paulista, em 2015, contra a Alemanha (com público recorde de 10.600 pessoas), e em 2016, contra o próprio Chile (com presença de 7.500 devotos). Números significativos sobe o crescimento do rugby brasileiro nos últimos anos que, somados aos resultados em campo dos Tupis, dão esperanças de que o rugby no Brasil siga com fôlego de crescimento mesmo após o Rio 2016.

Debaixo de chuva, o Brasil fez o que dele se esperava. Foi somente em 2014 que o Brasil conseguiu sua primeira vitória oficial sobre o Chile e, após vitórias dos Cóndores em 2015 e no Americas Rugby Championship de 2016, ambos em solo chileno, o Brasil deixara escapar a segunda vitória com o empate no Pacaembu no Sul-Americano de 2016.

Agora, a expectativa era que, após dois anos de trabalho junto das academias de alto rendimento da Confederação Brasileira de Rugby (que totalizam 3, em São Paulo, São José dos Campos e Florianópolis), os Tupis dessem o passo adiante e se impusessem de vez sobre o Chile, na busca pela condição de terceira força do continente.

Foi o que ocorreu. Após um primeiro tempo de muitos erros, o Brasil se impôs no segundo tempo e venceu por 17 x 03, sem que em momento algum o Chile levasse real perigo aos brasileiros. Os chilenos não contaram com Ayarza, atleta do Bayonne, e seus atletas do sevens, mas a partida foi emblemática da nova correlação de forças na América do Sul.

Depois, vieram as derrotas para as seleções mais fortes do continente, Estados Unidos, Uruguai e Argentina. No pacote de viagens brasileiro o que se viu foi uma sequência de viagens desgastantes que raramente são vistas mesmo entre as grandes seleções do mundo.

Foram 25.000 km em 25 dias (São Paulo-Texas-Uruguai-Terra do Fuego-São Paulo), do Texas à Terra do Fogo argentina. No roteiro a comissão técnica brasileira usou de rotação de atletas. Contra os EUA, o Brasil não foi bem, sendo pesadamente derrotado, 51 x 03, sem ter a posse da bola. Contra o Uruguai, a derrota foi de 23 x 12, com os Tupis mostrando grande evolução defensiva e, contra a Argentina, apesar dos 79 x 07 esperáveis, os Tupis realizaram uma ótima primeira etapa, atacando os argentinos com um rugby aberto e vistoso nos 3/4s. A evolução ofensiva havia sido vista.

No encerramento da saga pan-americana, veio o jogo em casa contra o Canadá, que, sem seus principais nomes que atuam na Europa, vinha sofrendo ao longo da competição, tendo caído contra o Uruguai no sábado anterior.

O resultado foi um time brasileiro unindo a evolução defensiva mostrada contra os Teros com a evolução ofensiva apresentada contra os argentinos e, movidos pela possibilidade de retornarem ao Top 30 do Ranking Mundial, os Tupis fizeram uma grande partida, vencendo por 24 x 23.

Se no ano passado o rugby brasileiro mostrava força nos forwards mas grandes problemas com a bola em mãos, em 2017 o que se viu foi um equipe que aprendeu a atacar, encontrando uma formação de linha de qualidade com os irmãos Duque e os irmãos Sancery. Muito ainda há que se amadurecer nos Tupis, que fique claro.

Novamente, assim como contra os EUA em 2016, coube a Moisés Duque, maior pontuador de todo o Americas Rugby Championship, os pontos da virada no final do jogo.

Para consultar tabelas e classificações clicar aqui.

E o rugby de clubes no Brasil?

Passadas as disputas do Americas Rugby Championship, o rugby brasileiro se voltou aos clubes, pois a temporada 2017 de XV dos clubes no Brasil ocorre entre março e outubro.

No Brasil, pelas dimensões continentais, o primeiro semestre é focado nos campeonatos estaduais, enquanto o segundo semestre é do Campeonato Brasileiro, o “Super 8”, que terá início em julho apenas.

Quantos campeonatos estaduais existem no Brasil? O Brasil é formado por 27 estados, além do Distrito Federal, mas somente 6 contam com federações de rugby filiadas à Confederação Brasileira de Rugby: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro. O Campeonato Paulista (São Paulo) é o mais forte do país, com 5 dos 8 clubes do Super 8 sendo paulistas.

São Paulo, aliás, conta com segunda, terceira e quarta divisões, além de um campeonato universitário de Rugby XV, sendo um dos únicos dois estados com mais de uma divisão planejada para 2017. O outro é o Rio Grande do Sul, que conta com segunda divisão.

No entanto, há rugby em todos os estados do Brasil, com ligas e federações ainda em fase embrionária nascendo pelo país. Os destaques vão para os estados da Bahia, Ceará e Mato Grosso do Sul, que já têm estaduais de XV, assim como a Federação do Cerrado, que une os estados de Goiás, Tocantins e o Distrito Federal (Brasília), além de ligas regionais, como o Nordeste Super XV, a Liga Norte (região amazônica) e a Taça Pantanal.

Vamos a uma lista dos principais campeonatos de XV deste semestre, sendo que alguns já começaram. Entre parênteses as cidades das equipes:

Rio Grande do Sul – Campeonato Gaúcho (6 clubes): Farrapos (Bento Gonçalves), Charrua (Porto Alegre), San Diego (Porto Alegre), SC Rugby (Caxias do Sul), Brummers (Novo Hamburgo) e Universitário (Santa Maria);

Série B – Segunda divisão (7 clubes): Centauros (Estrela), Planalto (Passo Fundo), Guasca (Porto Alegre), Pampas (São Leopoldo), Antiqua (Pelotas), Guaíba (Guaíba) e Chuy (Chuí);

Paraná – Campeonato Paranaense (4 clubes): Curitiba (Curitiba), Urutau (São José dos Pinhais), Pé Vermelho (Londrina) e Lobo Bravo (Guarapuava);

Santa Catarina – Campeonato Catarinense (4 clubes): Desterro (Florianópolis), Joaca (Florianópolis), BC Rugby (Balneário Camboriú) e Chapecó (Chapecó);

Minas Gerais – Campeonato Mineiro (5 clubes): BH Rugby (Belo Horizonte), Uberlândia (Uberlândia), Nova Lima (Nova Lima), Inconfidentes (Ouro Preto) e Inconfidência (Belo Horizonte);

São Paulo – Campeonato Paulista (8 clubes): São José (São José dos Campos), Jacareí (Jacareí), SPAC (São Paulo), Pasteur (São Paulo), Band Saracens (São Paulo), Poli (São Paulo), Rio Branco (São Paulo) e São Carlos (São Carlos);

Série B – Segunda divisão (10 clubes): União Rugby Alphaville (Barueri), Templários (São Bernardo do Campo), Tornados (Indaiatuba), Wallys (Jundiaí), Lechuza (Itu), Urutu (São Paulo), São Bento (São Paulo), São Jorge Corinthians (São Paulo), Cougars (Vinhedo) e ABC (Santo André);

Série C – Terceira divisão (11 clubes): Medicina (São Paulo), Tucanos (São João da Boa Vista), Piratas (Americana), Jequitibá (Campinas), União (São Paulo), Tatuapé (São Paulo), Jaguars (Jaguariúna), Alto Tietê (Mogi das Cruzes), Armada (Santos), FEA (São Paulo) e Mackenzie (São Paulo);

Série D – Quarta divisão  (15 clubes): Leões da Paraisópolis (São Paulo), Barueri (Barueri), Taubaté (Taubaté), Iguanas (São José dos Campos), Pinda (Pindamonhangaba), INSPER (São Paulo), Ribeirão (Ribeirão Preto), Rio Preto (Rio Preto), São Roque (São Roque), Piracicaba (Piracicaba), Mogi Mirim (Mogi Mirim), SPAC B e Jacareí B;

Rio de Janeiro – Campeonato Fluminense (8 clubes): Niterói (Niterói), Guanabara (Rio de Janeiro), Rio Rugby (Rio de Janeiro), Itaguaí (Itaguaí), Maxambomba (Nova Iguaçu), UFF (Niterói), Carioca  (Rio de Janeiro) e Friburgo (Nova Friburgo);

Taça Cerrado (5 clubes): Goianos (Goiânia, estado de Goiás), Gigantes (Itumbiara, Goiás), UNB (Brasília, Distrito Federal), Rugby sem Fronteiras (Brasilia, Distrito Federal) e Palmas (Palmas, Tocantins);

Taça Pantanal (5 clubes): Cuiabá (Cuiabá, estado do Mato Grosso), Primavera (Primavera do Leste, Mato Grosso), Campo Grande (Campo Grande, Mato Grosso do Sul), Guaicurus (Três Lagoas, Mato Grosso do Sul) e Dourados (Dourados, Mato Grosso do Sul);

Bahia – Campeonato Baiano (4 clubes): Orixás (Salvador), Ymborés (Vitória da Conquista), Porto Seguro (Porto Seguro) e Sergipe (Aracaju, estado de Sergipe);

Nordeste Super XV (9 clubes) – Grupo A: Delta (Teresina, estado do Piauí), Piaui (Teresina, Piauí), Parnaíba (Parnaíba, Piauí) e Maranhão (São Luis, Maranhão); Grupo B: Sertões, Asa Branca e Tubarões (todos de Fortaleza, Ceará); Grupo C: Natal (Natal, Rio Grande do Norte) e Talleres (Recife, Pernambuco);

Liga Norte: a definir

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Fair PlayMarço 15, 201712min0

Quando uma fusão entre clubes “abala” com os valores e princípios de uma modalidade, há que reflectir sobre o futuro da mesma. O Portal do Rugby deu a sua opinião sobre a fusão do Stade Français com o Racing Metró 92′ e as potenciais consequências desta fusão dos gigantes parisienses

Este artigo nasce de uma reflexão de Victor Ramalho (Portal do Rugby) após a polêmica fusão entre Stade Français e Racing na França. E ela se estende ao dia a dia do rugby em qualquer parte do mundo, nas atitudes dos praticantes e dirigentes, torcedores e treinadores.

TL;DR (“na boa, é muito grande, não vou ler”): No texto abaixo vou defender que os valores do rugby são incompatíveis com a ideia de vitória e de crescimento a qualquer custo e que a forma com quem foi anunciada a fusão entre Stade Français e Racing vai contra os preceitos do esporte, sendo desrespeitosa com os torcedores e servindo de alerta de que o rugby possa tomar caminho semelhante ao de outros esportes que se entendem como meros negócios, sem o devido apreço aos valores morais de conduta que pregam.

Como não sou adepto de opinião na forma de cinco minutos de gritaria raivosa num vídeo ou no rádio ou de meia dúzia de memes sarcásticos, optei por um texto longo analisando a questão e garanto que quem ler não se arrependerá, concordando ou não. E, claro, deixem seus comentários. Sem isso, perdemos nossa capacidade de debate sério.

Valores do rugby?

Pois bem, quando se fala em “valores do rugby” e “espírito do rugby” está cada dia mais claro para mim que cada um parece ter a sua própria versão desses conceitos, normalmente ajustados ao que melhor convém. Então, não darei muitas voltas, vou deixar claro como enxergo os tais “valores” da bola oval, que para mim são muito preciosos.

Na visão do World Rugby, o rugby tem 5 pilares em sua ideologia: Integridade; Respeito; Solidariedade; Paixão; Disciplina (no Brasil, você encontra eles em todos os materiais didáticos sobre rugby).

Espera, você falou ideologia? Sim, porque “ideologia” nada mais é que um sistema de ideias e valores sobre o mundo, algo que qualquer ser humano tem, querendo ou não. Direita, esquerda, centro, liberal, conservador, anarquista, niilista, coletivista, individualista ou um pouco de cada. Todo mundo tem uma visão de mundo sobre cada aspecto da vida.

Esportes não têm ideologias sozinhas, eles não são pessoas. Eles podem servir a qualquer propósito, a qualquer ideologia, basta enviesar algum aspecto a seu bel prazer. Na verdade, com tanta informação disponível na vida, chegamos ao cúmulo de que qualquer um “prova” o que quiser.

Coerência, conceito, fundamento, método, espírito crítico no manuseio de dados (ou fatos) são o que definem o quão perto da “verdade” uma ideia está, mas parecem que viraram detalhes incômodos no mundo atual que podem ser escondidos em prol de uma boa retórica, por mais barata que ela seja.

Por isso, eu volto aos pilares do rugby. Quando a federação internacional define que esses aspectos morais (sim, morais, porque todos eles são relativos à conduta pessoal) são centrais ao praticante, ela está enviesando sua forma de enxergar o esporte. Eu, por acaso, concordo com essa visão de que o rugby não seja apenas um jogo, ele é algo a mais, ele exprime uma forma de se relacionar com o mundo.

A revolta de um dos jogadores do Stade Français (Foot: Facebook)

Novamente, esses valores pode ser lidos e entendidos de formas completamente diferentes, de acordo com a visão de mundo do leitor. Para mim, quando juntamos os 3 primeiros pilares, “Integridade; Respeito; Solidariedade”, a ideia mais clara é de que falamos em um esporte coletivo, no qual o respeito ao próximo é aspecto central.

Seja ao amigo(a) de clube, seja ao adversário em campo. Seja ao árbitro, seja ao torcedor. Não é essa a leitura que na prática a maioria de nós no rugby temos dos valores?

Avançando na análise dos valores, o respeito ao próximo somado ao quinto pilar, o da “Disciplina”, me leva a mais uma conclusão dos valores da bola oval: o do jogo limpo.

Isto é, o respeito às regras do jogo, que tem como espírito por trás o bem comum. Certo? E quando se fala no respeito às lideranças, à hierarquia, trata-se de uma via de duas mãos, isto é, quem lidera ou quem arbitra tem igualmente que seguir os mesmos valores de quem respeita a liderança e a arbitragem.

O desdobramento mais lógico desse “jogo limpo”, na minha cabeça, é justamente o de que no rugby a vitória – que é movida pela “Paixão”, o quarto pilar, que gera o esforço e a dedicação em se fazer o melhor – é sempre uma consequência do trabalho e que não deve ser perseguida a qualquer custo. Exatamente. “Vencer de qualquer modo” não faz parte, na minha cabeça, dos valores do rugby.

O ganho pessoal deve ser consequência e compatível com a essência coletiva do jogo. Não é o que falamos sempre, que é o time que ganha junto e perde junto? Não por acaso o rugby foi amador por tanto tempo (de 1845 a 1995), para impedir que a “Paixão” seja trocada pela “Ganância” e que o ganho pessoal seja único fim, obtido por quaisquer meios.

E mais: a palavra “vencer” pode ser trocada por “crescer” também. “Crescer” a qualquer custo não faz parte do rugby do mesmo jeito. E por “crescer” eu volto ao segundo parágrafo deste texto, pois “crescer” com a ideia de “melhorar” é costumeiramente trocado pela ideia de “progresso”.

O “progresso” a qualquer custo, que não significa absolutamente nada se não for devidamente definido: o que é “progresso” nesse caso?  Ou ainda, “progresso” para quem? É preciso definir, colocar na mesa de qual “vitória”, de qual “crescimento” e de qual “progresso” se fala e, mais importante de tudo, qual é o caminho para eles. Justamente porque no rugby vencer a qualquer preço não é compatível com os pilares do esporte.

Mais que isso, a derrota é parte natural da vida, por consequência. Pelos valores do rugby que eu enxergo, a derrota não tem nenhuma desonra. A desonra está em não dar seu melhor, apenas isso.

Uma direcção, dois clubes (Foto: L’Equipe)

Torcedor é só consumidor e clube é só empresa?

No caso dos clubes de Paris citados, a fusão entrou em conflito, na minha visão, com os pilares do rugby. Mais precisamente com os 3 primeiros. Quando falamos de clubes profissionais, falamos de torcidas. Em qualquer esporte. O torcedor pode não ser o dono legal do clube, mas ele fornece os alicerces para o clube existir.

Sem torcida, não há o “negócio esporte”. É claro que essa lógica se aplica a qualquer mercadoria, mas o esporte vai além, pois o torcedor não é mero consumidor, ainda mais no rugby. O torcedor se baseia no exclusivismo, ele sempre torce para apenas um e faz o trabalho voluntário (“marketing” voluntário e incondicional) por paixão, não por mero gosto.

Mais que isso na verdade, o torcedor é também produto do clube. Sim, ter uma torcida e as características da torcida agregam valor ao próprio clube, que usa o torcedor para ganhar justamente o apoio do patrocinador.

O fabricante de sabão em pó não usa seu número de consumidores e a fidelidade deles para que uma montadora de automóveis estampe sua marca na caixa de sabão em pó. E ninguém se prende a um produto se ele passa a ser de má qualidade.

O clube esportivo faz dinheiro também porque tem uma torcida e sua torcida é fiel ao clube independente da qualidade do time. Dinheiro esse que interessa à própria torcida, que quer vê-lo reinvestido na equipe para vê-la campeã ou simplesmente com resultados melhores.

O torcedor não abandona o time quando ele vai mal. O resultado ruim apenas inibe novos torcedores e fãs de aderirem ao time. Já uma mercadoria ruim (como o sabão em pó que citei aleatoriamente) afasta o consumidor, óbvio. Ele não é fiel por amor ao produto.

O título, por sua vez, não tem nenhum valor direto a não ser status para atrair mais torcedores, que gerarão mais patrocinadores e apoiadores, interessados na visibilidade e em agregarem valor às suas marcas (o valor da associação ao vitorioso, ao bem sucedido, à quem tem seriedade).

Diferente do torcedor aficionado, há o fã, que aprecia mais de um time ao mesmo tempo, é claro, e que muitas vezes tem seu carinho a um time movido pelas característica da torcida à qual ele quer momentaneamente se juntar.

Todos somos torcedores de uns e fãs de outros. E rivais de outros. No caso do rugby, a rivalidade se baseia nos pilares também, isto é, paixão com respeito e integridade. O rival é amigo, mas não deixa de ser rival.

É fato também que grandes empresários e empresas possam ser responsáveis pelo crescimento de equipes esportivas, pois o esporte profissional tem valores tão inflacionados hoje que não basta apenas o dinheiro dos torcedores – entendidos como clientes – para um time ser competitivo.

A realidade inflacionada do futebol e dos esportes americanos, movida por toda uma rede de ganhos pessoais que existem dentro da máquina esportiva, chegou ao rugby – para o pesadelo dos rugbiers do século passado e do século retrasado, que tinham horror ao esporte profissional, por razões que não cabem serem esmiuçadas aqui. Isso é uma realidade.

A questão agora é: quais os limites que os pilares do rugby deveriam impor às práticas econômicas (do “esporte como negócio”, que nasceu fora do rugby) dentro do esporte?

Afinal, qual a conclusão e o que os franceses tem a ver com isso?

Na minha opinião, se os pilares do rugby não limitarem certas práticas econômicas, o rugby estaria se transformando em outro esporte. E deveria, portanto, abrir mão de falar em seus valores, caso contrário seria hipocrisia.

Amarrando, todo o valor que a torcida e que os sócios hoje e ontem deram a uma equipe gerará em partes o que essa equipe será amanhã. Isto é, o valor de uma equipe é gerado por quem a construiu.

Quando um empresário compra uma equipe, ele não está montando um negócio dele do zero, ele está assumindo a responsabilidade de gerir algo que foi criado por outras pessoas e que segue em alguma medida preso à forma com que essas pessoas – os torcedores e sócios – se relacionam com a equipe.

Quando Racing e Stade Français, que são clubes rivais na mesma cidade, anunciam a fusão sem que antes tivessem consultado seus torcedores e com a alegação de que a união seria para se construir um clube ainda mais vitorioso, a única coisa que passa pela minha cabeça é que suas direções não tiveram o menor respeito pelo que pensam os torcedores.

Da noite para o dia, o torcedor que foi devoto de uma agremiação passará a ser obrigado a torcer por outra. Ele ou ela que emprestou sua dedicação na construção da instituição não foi consultado sobre isso.

Decidiram por ele ou ela que o mais importante é vencer e que seguindo cegamente a liderança (uma que não conduziu seu clube balizada pelos pilares do esporte, mas que apenas a comprou) a vitória será supostamente obtida.

Mais bizarro ainda vindo de um clube que foi o campeão nacional da França em 2015 (Stade Français) e do clube que foi o campeão nacional de 2016 (Racing), isto é, que já eram vencedores em suas histórias. No ano em que ambos estão indo mal, o risco da derrota levou a pulverização dos pilares do rugby. E de forma incrivelmente imediatista.

Isto é, para eles, tudo vale para vencer, pois apenas crescer é o que importa. Para mim, unir equipes é algo natural no rugby, pois rivais não são inimigos. Porém, as fusões devem, no mínimo, ser reflexo de uma vontade coletiva, não capricho de uma ambição pessoal.

Da forma com que houve a fusão na França, temo que ela vire um marco da viragem de que o rugby profissional estaria disposto a abrir mão de seus ideias em prol da vitória, do espetáculo ilimitado. Ou melhor, que o rugby estaria disposto a trocar de ideias, abrindo mão da quina “Integridade-Respeito-Solidariedade-Paixão-Disciplina” pela ideologia da vitória e do crescimento econômico a qualquer preço. E isso é uma questão de ideologias, passível de ocorrer em qualquer lugar do planeta oval.

A fusão no rugby: possível? (Foto: L’Equipe)

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