Arquivo de Feirense - Fair Play

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Marcelo BritoNovembro 21, 20166min0

A caminhada desde o Campeonato Nacional de Seniores à Liga NOS em apenas três temporadas despertou o interesse no desempenho de Pepa que, ao serviço do Moreirense, não durou mais do que dez jornadas.

Com 35 anos, muitos jogadores começam a pensar em pendurar as chuteiras. É aquela idade de questionamento pessoal sobre a capacidade em continuar a jogar ao mais alto nível ou começar a pensar num outro futuro profissional. Pepa têm-nos, mas a sua carreira de futebolista, por muito prometedora que parecesse, terminou cedo. Deu os primeiros passos no CADE; seguiu para o Benfica onde nunca se afirmou, foi emprestado ao Lierse, da Bélgica; ao Varzim; seguiu para o Paços Ferreira e terminou ao serviço do Olhanense. Mas não é deste Pepa promissor cujo nome outrora fez agitar a estrutura madrilena do Real que irei falar.

Pepa, o treinador: Fiel às suas brilhantes ideias de jogo, não as abdica perante nenhuma equipa. É óbvio que os planos de jogo vão-se modificando de partida para partida, consoante o adversário. Se os grandes o fazem, porque não haveriam de fazer os menos grandes? Mas o que fica por explicar é o facto do jovem timoneiro ter conseguido manusear o Moreirense a conquistar apenas oito pontos, repartidos por duas vitórias  e dois empates, somando seis derrotas para a Liga NOS. Se é uma explicação que pretende, eu bem gostaria de a dar na sua exactidão, mas caso não o consiga, espero roçá-la. Na primeira jornada empata a um frente ao Paços Ferreira, mas, uma jornada depois, imagine-se contra quem foi primeira a vitória… sim, ao Feirense! Muitos poderão estar a interrogar-se de qual o espanto de uma equipa consolidada na primeira divisão ir a Santa Maria da Feira ‘espetar três no bucho’ da equipa local e recém-promovida. O engraçado é que Pepa foi o grande obreiro da escalada fogaceira ao patamar máximo do futebol nacional. Pepa ganha 22 dos 46 jogos disputados – incluindo Taça de Portugal e da Liga – com o Castelo ao peito e, a meras jornadas do fim do campeonato, é despedido para dar lugar a José Mota que acabaria o seu trabalho. Pepa já demonstrou ser profissional e ético naquilo que faz, ou pelo menos fá-lo transparecer nas suas intervenções, mas a sua melhor vingança ao ‘despacho’ dos dirigentes feirenses, foi uma vitória exímia e sem contestação… dentro de campo.

Créditos: Zerozero.pt
Créditos: Zerozero.pt

O problema surge depois deste início de campeonato comprometedor. O Moreirense de Pepa perdeu cinco jogos consecutivos. Marítimo (0-1), Sporting (3-0), Estoril (2-0), Vitória Guimarães (1-0) e Boavista (2-0) imperaram-se ao Moreirense de Pepa. No embate a contar para a oitava jornada, empate a uma bola com o Rio Ave. O desfecho de jogo até poderia ter sido outro não falhasse Pedro Rebocho uma grande penalidade já em tempo de compensação.

Desloca-se a Tondela e arranca três pontos (1-2) e de seguida perde na sua fortaleza frente ao Vitória de Setúbal (pelo meio fica a vitória frente ao Estoril a contar para a Taça CTT). Mas afinal, o que é que se passa em Moreira de Cónegos? Tive a oportunidade de ver o Moreirense jogar e é notória a tentativa dos jogadores em protagonizarem as ideias tácticas básicas do seu treinador. Imperar na posse de bola e focar-se transições rápidas. Simples… mas, neste caso, sem sucesso prático.

É óbvio que depois da brilhante prestação do ano transacto, o mau arranque de campeonato do Arouca é ‘caso de estudo’, mas o Moreirense continua, na minha opinião, a ser a grande desilusão do campeonato. A falta de experiência, de matreirice e de ‘ratice’ vá, têm prejudicado os comandados de Pepa que não está a conseguir transparecer na qualidade de jogo da equipa de Moreira de Cónegos as suas qualidades como (bom) treinador, pois ele tem-nas.

Ia elaborando este texto e a pensar qual seria a fórmula para Pepa dar a volta por cima, mas… tarde demais! Hoje, segunda-feira, dia 21, deparo-me com uma notícia a anunciar o despedimento de Pepa. Seria naturalmente difícil para os dirigentes do Moreirense manter a confiança num homem que não conseguiu ultrapassar uma terceira eliminatória da Taça de Portugal frente a um Vizela de um escalão inferior, perdendo pela margem mínima.

O que falhou? Simples. Os resultados. O Moreirense não jogava mal, mas os resultados positivos insistiam em não aparecer. Será o campeonato português curto demais para a estrutura directiva do Moreirense perder tão prontamente a paciência com Pepa? É certo que Pepa treinou a Sanjoanense, fez um belo trabalho e a sua saída acabou por ser controversa, tendo o próprio dado entrevistas a criticar a estrutura sanjoanense. Subiu de escalão e de um Campeonato Nacional de Seniores (CNS) rumou à segunda divisão onde, como dito em cima, teve influência inegável na subida do Feirense e voltou a subir para a Liga NOS onde acabou por ser, uma vez mais, ‘despachado’.

Terá Pepa que dar um passo atrás para dar dois à frente? Será difícil para uma equipa de primeira linha que pretenda resultados a curto prazo voltar a apostar no timoneiro, mas não tenho dúvidas que Pepa tem qualidade para singrar em Portugal. A inexperiência pesará no seu currículo? Sim, e sem querer comparar Pepa com a lenda Alex Ferguson, o escocês não teve sete anos no banco dos Red Devils até alcançar o primeiro troféu? A esse, somou mais 37… Ah! E o escocês não foi despedido do St. Mirren? Foi… Foram pacientes com Sir Alex e estamos a falar de um Manchester United que teve 18 anos sem vencer o campeonato inglês até à chegada do melhor treinador da sua história. Esperaram, deixaram o escocês fazer o cultivo dos seus ideais e métodos de trabalho e é certo e sabido que colheram os frutos… muitos frutos.

Em Portugal tudo funciona de maneira diferente e apressada. Pepa é um exemplo de que os treinadores que são despedidos nem sempre o são devido à falta de qualidade para levar um clube ao seu expoente máximo. Cada caso é um caso, mas as estruturas clubísticas nacionais fervem em pouca água e é sempre mais fácil mudar um treinador do que um plantel…

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Marcelo BritoOutubro 5, 20166min0

Se existem equipas a despertar interesse nesta fase embrionária da Liga NOS, são Chaves e Feirense. Os recém-promovidos chegaram, bateram o pé e estão aí para as curvas.

Num cenário completamente descabido e intolerável, terminaria a Liga NOS à sétima jornada e teríamos um feito notável em Portugal. Os flavienses, vindos da segunda divisão pela mão do ‘Rei das Subidas’, Vítor Oliveira, disputariam a terceira pré-eliminatória de acesso à Liga Europa.

Mas por onde começar? Pelo encarregado geral da fábrica flaviense, Jorge Simão. Para muitos, esta é a prova de fogo que o jovem timoneiro de apenas 40 anos tem que superar para se afirmar no panorama nacional. Mas não o é. Depois de um modesto percurso como futebolista onde representou Carregado, Fanhões, Real e Atlético do Cacém, Jorge Simão assumiu-se como técnico principal em 2013/14 ao serviço do Atlético Clube de Portugal. Seguiu-se Mafra e Belenenses em 14/15 e, na temporada transacta, com as cores do Paços Ferreira, ajuda os castores a terminarem no sétimo lugar. Curto, mas ao mais alto nível nacional, o timoneiro acrescenta este ano ao seu curriculum vitae, o desafio de fazer permanecer na primeira, um clube vindo da segunda. Obstáculos? Muitos, mas com certeza que nem o técnico Jorge Simão esperava encontrar-se nos lugares europeus à sétima jornada. Agravada à sua qualidade como treinador, está o facto do plantel flaviense não ser um plantel assim tão modesto quanto o julgam ser. E não apenas de investimento falo. Há (muita) qualidade. Podemos começar com a contratação do defesa-central Felipe ao Wolfsburgo, de Freire ao Apollon Limassol, de Nemanja Petrovic ao Partizan, do velho conhecido Pedro Queirós ao Astra Giurgiu, do ex-sportinguista Simon Vukcevic e de William, antigo avançado do Kayserispor. A chegada a Trás-os-Montes do lateral direito Paulinho, o empréstimo conseguido de Battaglia, Ponck e Elhouni e as permanências de Braga, João Mário e Perdigão consolidam o rumor da existência de pérolas em terras transmontanas.

Jorge Simão agarrou os peões e começou a traçar os seus trajectos. Individualmente, também, mas como um todo, especificamente. Uma pré-época quase imbatível (apenas vencidos pelo Famalicão e pela margem mínima) fez crescer água na boca, seguido de um início de campeonato prometedor. Enfrentaram na primeira jornada o Tondela, já bem oleado pela mão de Petit e empataram a um. Seguiu-se um Boavista bem conhecedor do modelo de Erwin Sanchéz e… novo empate, mas a dois. À terceira foi mesmo de vez. Venceram, na deslocação à Madeira, o Nacional por 1-0 com um golo do experiente Braga, empatam com o Vitória de Setúbal, voltam às vitórias na difícil deslocação a Arouca, perdem com o tricampeão nacional Benfica e à sétima jornada deixam bem clara a ambição para esta temporada. Recebem, no mítico Municipal Engenheiro Manuel Branco Teixeira, uma histórica e emblemática formação vinda de Belém e vencem por uns expressivos 3-1 com direito a cambalhota no marcador. Battaglia, Braga e William contornam o início prometedor dos lisboetas coroado com um golo de Domingos Duarte, e levam o Municipal ao rubro. Balanço feito e temos um Chaves com 12 pontos em 7 jogos, atrás de Benfica, Sporting, Porto e.. Braga, clubes que nos brindam com a sua participação nas competições europeias assiduamente. Estamos numa fase embrionária da grande maratona que é o campeonato nacional, mas será que podemos esperar um Chaves a combater-se com os demais ambiciosos Guimarães, Rio Ave, Belenenses e Paços de Ferreira pelos lugares europeus? A praxe aos flavienses está feita, as primeiras frequências ultrapassadas e os transmontanos não querem deixar cadeiras para trás. Aliás, querem distinguir-se dos demais, afastando-se prematuramente do buraco negro que é a despromoção e afirmarem-se no panorama nacional e quem sabe… internacional.

Feirense vai de Mota

Se Jorge Jesus deixou um Ferrari com o combustível atestado e com revisão feita para Rui Vitória conduzir e desfrutar, há quem ande de Mota e a ultrapassar muitos carrinhos. O Feirense, promovido no ano transacto, a par do Chaves, pela mão de Pepa com uma ajuda final e crucial de José Mota, parece querer afastar o fantasma da descida. Não é a primeira vez que isto acontece. Promove-se em 2010/11 e despromove-se em 2011/12.

Vítor Bruno, em primeiro plano, a celebrar com os restantes companheiros. (Foto: Facebook CD Feirense)
Vítor Bruno, em primeiro plano, a celebrar com os restantes companheiros. (Foto: Facebook CD Feirense)

Tal como o Chaves, o Feirense reforçou-se. Há quem diga que melhor, há quem diga pior. Pois bem, o mercado estrangeiro foi prioridade para José Mota que contratou Guima e Vítor Bruno ao Cluj, Tasos Karamanos ao Olympiakos, Tchami ao Giresunspor, Jean Sony ao Steaua de Bucareste, Vaná ao Coritiba e Peçanha ao Viitorul, mas também pescou junto ao Atlântico. Os defesas centrais Paulo Monteiro e Luís Rocha reforçam o Feirense vindos do União da Madeira e Freamunde, respectivamente e Luís Aurélio é contratado em definitivo ao Nacional. Consegue ainda os empréstimos de Kakuba ao Estoril e Ricardo Dias e Tiago Silva ao Belenenses. Peças fundamentais que ajudaram na subida como Semedo, Cris, Rúben Oliveira, Fabinho e Barge permanecem de Castelo ao peito e querem provar que são jogadores de elite nacional.

Sabemos que o nigeriano detentor de 70% da SAD dos fogaceiros, Kunle Soname, quer, num prazo de dez anos, colocar o Feirense na órbita da Europa, fazendo exemplo de clubes como Rio Ave e Vitória de Guimarães. Já o disse publicamente em entrevista a um jornal regional Correio da Feira e afirmou-o de seguida ao nacional O Jogo. Para os feirenses, ouvir isto é satisfatório, pois conectam estas palavras com o sinónimo de investimento, algo que o clube de Santa Maria da Feira bem precisa para se manter na elite nacional. No que toca à matemática e às estatísticas, apenas três pontos separam os dois promovidos à Liga NOS no ano transacto, com vantagem para os do Alto Minho. O Feirense venceu Estoril, Tondela e Boavista e perdeu com Rio Ave, Moreirense, Nacional e… Benfica e encontra-se na décima posição. Neste momento, e não só pela classificação momentânea, estima-se que o Chaves faça um percurso bem longe da despromoção, cenário que não parece encaixar no teatro da Feira. O Feirense tem armas, principalmente pelo experiente e conhecedor da realidade nacional, José Mota, mas o plantel é um pouco curto para uma competição tão longa e exigente. No meio de um Ferrari, de um Lamborghini, de um Mercedez-Benz AMG e de muitos BMW’s, será a mota de Mota uma Harley-Davidson? Asseguro-lhe que uma Zundapp, não o é.

Em Maio, cá estaremos.


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