Arquivo de Dan Carter - Fair Play

2048x1536-fit_racing-contre-stade-francais-bientot-feront-plus.jpg?fit=1024%2C656&ssl=1
Fair PlayMarço 15, 201712min0

Quando uma fusão entre clubes “abala” com os valores e princípios de uma modalidade, há que reflectir sobre o futuro da mesma. O Portal do Rugby deu a sua opinião sobre a fusão do Stade Français com o Racing Metró 92′ e as potenciais consequências desta fusão dos gigantes parisienses

Este artigo nasce de uma reflexão de Victor Ramalho (Portal do Rugby) após a polêmica fusão entre Stade Français e Racing na França. E ela se estende ao dia a dia do rugby em qualquer parte do mundo, nas atitudes dos praticantes e dirigentes, torcedores e treinadores.

TL;DR (“na boa, é muito grande, não vou ler”): No texto abaixo vou defender que os valores do rugby são incompatíveis com a ideia de vitória e de crescimento a qualquer custo e que a forma com quem foi anunciada a fusão entre Stade Français e Racing vai contra os preceitos do esporte, sendo desrespeitosa com os torcedores e servindo de alerta de que o rugby possa tomar caminho semelhante ao de outros esportes que se entendem como meros negócios, sem o devido apreço aos valores morais de conduta que pregam.

Como não sou adepto de opinião na forma de cinco minutos de gritaria raivosa num vídeo ou no rádio ou de meia dúzia de memes sarcásticos, optei por um texto longo analisando a questão e garanto que quem ler não se arrependerá, concordando ou não. E, claro, deixem seus comentários. Sem isso, perdemos nossa capacidade de debate sério.

Valores do rugby?

Pois bem, quando se fala em “valores do rugby” e “espírito do rugby” está cada dia mais claro para mim que cada um parece ter a sua própria versão desses conceitos, normalmente ajustados ao que melhor convém. Então, não darei muitas voltas, vou deixar claro como enxergo os tais “valores” da bola oval, que para mim são muito preciosos.

Na visão do World Rugby, o rugby tem 5 pilares em sua ideologia: Integridade; Respeito; Solidariedade; Paixão; Disciplina (no Brasil, você encontra eles em todos os materiais didáticos sobre rugby).

Espera, você falou ideologia? Sim, porque “ideologia” nada mais é que um sistema de ideias e valores sobre o mundo, algo que qualquer ser humano tem, querendo ou não. Direita, esquerda, centro, liberal, conservador, anarquista, niilista, coletivista, individualista ou um pouco de cada. Todo mundo tem uma visão de mundo sobre cada aspecto da vida.

Esportes não têm ideologias sozinhas, eles não são pessoas. Eles podem servir a qualquer propósito, a qualquer ideologia, basta enviesar algum aspecto a seu bel prazer. Na verdade, com tanta informação disponível na vida, chegamos ao cúmulo de que qualquer um “prova” o que quiser.

Coerência, conceito, fundamento, método, espírito crítico no manuseio de dados (ou fatos) são o que definem o quão perto da “verdade” uma ideia está, mas parecem que viraram detalhes incômodos no mundo atual que podem ser escondidos em prol de uma boa retórica, por mais barata que ela seja.

Por isso, eu volto aos pilares do rugby. Quando a federação internacional define que esses aspectos morais (sim, morais, porque todos eles são relativos à conduta pessoal) são centrais ao praticante, ela está enviesando sua forma de enxergar o esporte. Eu, por acaso, concordo com essa visão de que o rugby não seja apenas um jogo, ele é algo a mais, ele exprime uma forma de se relacionar com o mundo.

A revolta de um dos jogadores do Stade Français (Foot: Facebook)

Novamente, esses valores pode ser lidos e entendidos de formas completamente diferentes, de acordo com a visão de mundo do leitor. Para mim, quando juntamos os 3 primeiros pilares, “Integridade; Respeito; Solidariedade”, a ideia mais clara é de que falamos em um esporte coletivo, no qual o respeito ao próximo é aspecto central.

Seja ao amigo(a) de clube, seja ao adversário em campo. Seja ao árbitro, seja ao torcedor. Não é essa a leitura que na prática a maioria de nós no rugby temos dos valores?

Avançando na análise dos valores, o respeito ao próximo somado ao quinto pilar, o da “Disciplina”, me leva a mais uma conclusão dos valores da bola oval: o do jogo limpo.

Isto é, o respeito às regras do jogo, que tem como espírito por trás o bem comum. Certo? E quando se fala no respeito às lideranças, à hierarquia, trata-se de uma via de duas mãos, isto é, quem lidera ou quem arbitra tem igualmente que seguir os mesmos valores de quem respeita a liderança e a arbitragem.

O desdobramento mais lógico desse “jogo limpo”, na minha cabeça, é justamente o de que no rugby a vitória – que é movida pela “Paixão”, o quarto pilar, que gera o esforço e a dedicação em se fazer o melhor – é sempre uma consequência do trabalho e que não deve ser perseguida a qualquer custo. Exatamente. “Vencer de qualquer modo” não faz parte, na minha cabeça, dos valores do rugby.

O ganho pessoal deve ser consequência e compatível com a essência coletiva do jogo. Não é o que falamos sempre, que é o time que ganha junto e perde junto? Não por acaso o rugby foi amador por tanto tempo (de 1845 a 1995), para impedir que a “Paixão” seja trocada pela “Ganância” e que o ganho pessoal seja único fim, obtido por quaisquer meios.

E mais: a palavra “vencer” pode ser trocada por “crescer” também. “Crescer” a qualquer custo não faz parte do rugby do mesmo jeito. E por “crescer” eu volto ao segundo parágrafo deste texto, pois “crescer” com a ideia de “melhorar” é costumeiramente trocado pela ideia de “progresso”.

O “progresso” a qualquer custo, que não significa absolutamente nada se não for devidamente definido: o que é “progresso” nesse caso?  Ou ainda, “progresso” para quem? É preciso definir, colocar na mesa de qual “vitória”, de qual “crescimento” e de qual “progresso” se fala e, mais importante de tudo, qual é o caminho para eles. Justamente porque no rugby vencer a qualquer preço não é compatível com os pilares do esporte.

Mais que isso, a derrota é parte natural da vida, por consequência. Pelos valores do rugby que eu enxergo, a derrota não tem nenhuma desonra. A desonra está em não dar seu melhor, apenas isso.

Uma direcção, dois clubes (Foto: L’Equipe)

Torcedor é só consumidor e clube é só empresa?

No caso dos clubes de Paris citados, a fusão entrou em conflito, na minha visão, com os pilares do rugby. Mais precisamente com os 3 primeiros. Quando falamos de clubes profissionais, falamos de torcidas. Em qualquer esporte. O torcedor pode não ser o dono legal do clube, mas ele fornece os alicerces para o clube existir.

Sem torcida, não há o “negócio esporte”. É claro que essa lógica se aplica a qualquer mercadoria, mas o esporte vai além, pois o torcedor não é mero consumidor, ainda mais no rugby. O torcedor se baseia no exclusivismo, ele sempre torce para apenas um e faz o trabalho voluntário (“marketing” voluntário e incondicional) por paixão, não por mero gosto.

Mais que isso na verdade, o torcedor é também produto do clube. Sim, ter uma torcida e as características da torcida agregam valor ao próprio clube, que usa o torcedor para ganhar justamente o apoio do patrocinador.

O fabricante de sabão em pó não usa seu número de consumidores e a fidelidade deles para que uma montadora de automóveis estampe sua marca na caixa de sabão em pó. E ninguém se prende a um produto se ele passa a ser de má qualidade.

O clube esportivo faz dinheiro também porque tem uma torcida e sua torcida é fiel ao clube independente da qualidade do time. Dinheiro esse que interessa à própria torcida, que quer vê-lo reinvestido na equipe para vê-la campeã ou simplesmente com resultados melhores.

O torcedor não abandona o time quando ele vai mal. O resultado ruim apenas inibe novos torcedores e fãs de aderirem ao time. Já uma mercadoria ruim (como o sabão em pó que citei aleatoriamente) afasta o consumidor, óbvio. Ele não é fiel por amor ao produto.

O título, por sua vez, não tem nenhum valor direto a não ser status para atrair mais torcedores, que gerarão mais patrocinadores e apoiadores, interessados na visibilidade e em agregarem valor às suas marcas (o valor da associação ao vitorioso, ao bem sucedido, à quem tem seriedade).

Diferente do torcedor aficionado, há o fã, que aprecia mais de um time ao mesmo tempo, é claro, e que muitas vezes tem seu carinho a um time movido pelas característica da torcida à qual ele quer momentaneamente se juntar.

Todos somos torcedores de uns e fãs de outros. E rivais de outros. No caso do rugby, a rivalidade se baseia nos pilares também, isto é, paixão com respeito e integridade. O rival é amigo, mas não deixa de ser rival.

É fato também que grandes empresários e empresas possam ser responsáveis pelo crescimento de equipes esportivas, pois o esporte profissional tem valores tão inflacionados hoje que não basta apenas o dinheiro dos torcedores – entendidos como clientes – para um time ser competitivo.

A realidade inflacionada do futebol e dos esportes americanos, movida por toda uma rede de ganhos pessoais que existem dentro da máquina esportiva, chegou ao rugby – para o pesadelo dos rugbiers do século passado e do século retrasado, que tinham horror ao esporte profissional, por razões que não cabem serem esmiuçadas aqui. Isso é uma realidade.

A questão agora é: quais os limites que os pilares do rugby deveriam impor às práticas econômicas (do “esporte como negócio”, que nasceu fora do rugby) dentro do esporte?

Afinal, qual a conclusão e o que os franceses tem a ver com isso?

Na minha opinião, se os pilares do rugby não limitarem certas práticas econômicas, o rugby estaria se transformando em outro esporte. E deveria, portanto, abrir mão de falar em seus valores, caso contrário seria hipocrisia.

Amarrando, todo o valor que a torcida e que os sócios hoje e ontem deram a uma equipe gerará em partes o que essa equipe será amanhã. Isto é, o valor de uma equipe é gerado por quem a construiu.

Quando um empresário compra uma equipe, ele não está montando um negócio dele do zero, ele está assumindo a responsabilidade de gerir algo que foi criado por outras pessoas e que segue em alguma medida preso à forma com que essas pessoas – os torcedores e sócios – se relacionam com a equipe.

Quando Racing e Stade Français, que são clubes rivais na mesma cidade, anunciam a fusão sem que antes tivessem consultado seus torcedores e com a alegação de que a união seria para se construir um clube ainda mais vitorioso, a única coisa que passa pela minha cabeça é que suas direções não tiveram o menor respeito pelo que pensam os torcedores.

Da noite para o dia, o torcedor que foi devoto de uma agremiação passará a ser obrigado a torcer por outra. Ele ou ela que emprestou sua dedicação na construção da instituição não foi consultado sobre isso.

Decidiram por ele ou ela que o mais importante é vencer e que seguindo cegamente a liderança (uma que não conduziu seu clube balizada pelos pilares do esporte, mas que apenas a comprou) a vitória será supostamente obtida.

Mais bizarro ainda vindo de um clube que foi o campeão nacional da França em 2015 (Stade Français) e do clube que foi o campeão nacional de 2016 (Racing), isto é, que já eram vencedores em suas histórias. No ano em que ambos estão indo mal, o risco da derrota levou a pulverização dos pilares do rugby. E de forma incrivelmente imediatista.

Isto é, para eles, tudo vale para vencer, pois apenas crescer é o que importa. Para mim, unir equipes é algo natural no rugby, pois rivais não são inimigos. Porém, as fusões devem, no mínimo, ser reflexo de uma vontade coletiva, não capricho de uma ambição pessoal.

Da forma com que houve a fusão na França, temo que ela vire um marco da viragem de que o rugby profissional estaria disposto a abrir mão de seus ideias em prol da vitória, do espetáculo ilimitado. Ou melhor, que o rugby estaria disposto a trocar de ideias, abrindo mão da quina “Integridade-Respeito-Solidariedade-Paixão-Disciplina” pela ideologia da vitória e do crescimento econômico a qualquer preço. E isso é uma questão de ideologias, passível de ocorrer em qualquer lugar do planeta oval.

A fusão no rugby: possível? (Foto: L’Equipe)
CveJn4sW8AAuX9v.jpg?fit=1024%2C802&ssl=1
Francisco IsaacOutubro 25, 201617min0

Segunda Jornada de sensações fortes: o “adeus” a Foley com uma vitória do Munster, Dan Carter deslumbra mas é o Leicester que sai com a vitória, Saracens continuam no seu domínio, Toulouse e Wasps uma “guerra” formidável e muito mais. 5 pontos sobre o fim-de-semana na Champions Cup

Segunda-semana de Liga dos Campeões do Rugby, com alguns resultados interessantes, derrotas assumidas, lendas em modo frenético e uma emoção total por todos os cantos do Mundo da Oval Europeu. 5 tópicos do fim-de-semana, com especial destaque para a grande exibição do Munster, a categoria dos Saracens, a brutalidade de Nadolo e a decepção no sul da Inglaterra.

Para os que não leram a 1ª jornada deixamos o link de acesso à mesma: goo.gl/mmuq8k

O “Adeus”: STAN’ UP AN’ FIGHT UNTIL YOUR HEAR DE BELL

O “adeus” final a Anthony Foley soou um pouco por toda a Europa, naquela que foi a despedida ao treinador da equipa dos Stags, o Munster. Foley foi um jogador exemplar, tanto no Munster (mais de 200 jogos) como da Selecção Irlandesa, tendo deixado o rugby europeu e Mundial rendido ao seu talento para mover “exércitos”, de mexer com as emoções de jogo e, até, para decidir encontros com a toda qualidade defensiva ou vontade arriscar que deixava qualquer adepto com o coração nas mãos. Neste fim-de-semana, o Munster recebeu os “vizinhos” do Glasgow Warriors, que vinham de uma vitória fenomenal frente aos Leicester Tigers. Seria um jogo “pesado”, carregado de emoção e tristeza, mas a equipa do Munster tinha de ir para a vitória para começar a sua campanha da melhor forma possível (lembrar que os irlandeses não jogaram na 1ª jornada em virtude do falecimento de A. Foley). Perante 26,000 pessoas, o jogo foi “quente”, espectacular, com o melhor que ambas as equipas têm para oferecer, onde até tivemos o “direito” de ver um cartão vermelho por Keith Earls, à passagem dos 18′. Quando tudo apontava para que isto beneficiasse os escoceses, a equipa do Munster (que já vencia por 14-03) ligou o “turbo” e realizou um dos melhores jogos de sempre no Thomond Park, com 5 ensaios e várias conversões.

Um jogo fenomenal do nº10, T. Bleyendaal (um ensaio, três quebras de linha, três defesas batidos e 6 placagens) levaram a que o Munster conseguisse ter uma linha atrasada bem mexida, em que Zebo, Rory Scannell (um ensaio e duas assistências, grandes detalhes do jovem irlandês que começa a dar alguns sinais a J. Schmidt, seleccionador da Irlanda) ou Murray aproveitaram para “destruir” a boa estratégia de Towsend que acabou por não resultar. Movidos por uma força fenomenal, a equipa do Munster chegou ao intervalo com o ponto de bónus de vitória com um 24-03, algo que já algum tempo não se via em jogos da Europa. A equipa de Glasgow ainda teve uma “espécie” de reacção com 14 pontos em 15 minutos, mas já nada foi contra os irlandeses que conseguiram os 5 pontos e puderam dar uma despedida em grande ao grande Anthony Foley, que marcou e marcará, para sempre, a formação dos Stags. Não percam a atenção de Bleyendaal, Scnnaell ou Darren Sweetnam, jogadores que farão parte da “Constelação” da Irlanda dentro de pouco tempo. Uma palavra final ao grande jogo da 3ª linha do Munster, composta pelos suas melhores opções com Peter O’Mahony, Tommy O’Donnell e CJ Stander (jogou com o nº24, uma vez que o nº8 de Foley foi retirado em Honra de Foley), somando 30 placagens, 60 metros conquistados e 20 carries, sacrificando em prol da equipa.

A Disputa: A GUERRA DAS ROSAS EM TOULOUSE

Grande jogo entre Wasps e Toulouse, naquilo que era sempre um encontro entre antigos campeões da Heyneken/Champions Cup, com duas formações na mesma situação: sedentas de títulos. Todos sabiam que ia ser um combate feroz entre as duas avançadas, que iam ter que trazer o seu melhor (e pior) para o campo, para conseguirem quebrar os seus adversários e sair com a vitória. Embora a grande vontade do Toulouse ou o acreditar dos Wasps, a contenda terminou com um empate (20-20) no final dos 80 minutos. Um jogo pouco bonito, já que o terreno pesado não permitiu grandes fugas (apenas 9 quebras de linha, 2 para os franceses e 7 para ingleses), espectaculares jogadas (C. Wade ainda esboçou três jogadas fenomenais mas que acabaram por dar em nada para os Wasps, uma vez que perderam a bola no contacto na sequência seguinte) ou um jogo rápido e vibrante. Os ingleses tiveram algumas dificuldades com o jogo no chão, com 8 das 12 faltas cometidas a serem nesse departamento, principalmente quando atacavam com a oval, permitindo que existisse uma distância complicada entre o apoio e o portador da bola o que permitiu um turnover fácil para os homens de Ugo Mola. Foi um jogo sobretudo virado para os avançados e para o que eles conseguiam fazer nas fases estáticas, com o Toulouse a imperar na 2ª parte nesse departamento, porém sem grande expressão em termos de pontos. Veja-se que tivemos 24 alinhamentos e 18 formações ordenas, tirando bastante tempo útil de jogo, quebrando ritmos, impondo combinações simples e esperando pelo erro do adversário.

Thierry Dusautoir regressou a jogos europeus (falhou a 1ª jornada) e consegui sair como o placador da tarde, com 15 placagens efectivas e um jogo brilhante a nível defensivo. A postura do capitão passou para o resto da equipa que conseguiram chegar ao ensaio por duas vezes, ambos após 15 fases consecutivas… isto, devido ao grande trabalho defensivo dos Wasps (Elliot Daly esteve a um nível incrível, com 4 placagens de “bombeiro”, parando adversários que iam soltos para a área de validação) que foram tentando bloquear a maior ferocidade da equipa da casa para atacar o contacto. Quando faltavam apenas 3 minutos para o final do jogo, em que o Toulouse estava com a vitória no “bolso” por 20-13, surgiu um erro defensivo dos franceses, que permitiu a Ashley Johnson correr pelo flanco e passar à ponta para a “besta” Nathan Hughes (que grande ano do nº8 inglês) que arremessou Perez para o chão e aguentou uma placagem de Doussain para chegar ao ensaio… Jimmy Gopperth converteu e o 20-20 final estava aí. Uma batalha acérrima, com 200 placagens (apenas 20 falhadas!), 130 rucks, 13 turnovers e uma série de outros pormenores que fizeram jus à Guerra das Rosas. A equipa do Toulouse pode e deve ficar chateada com o resultado final, já que só tinham de gerir melhor a posse de bola e os Wasps podem retirar pontos positivos deste empate, raro nesta competição.

Hughes on the way! (Foto: L'Equipe)
Hughes on the way! (Foto: L’Equipe)

O Jogador: NEVER TURN YOUR BACK ON FARRELL

Owen Farrell… jogador fenomenal da Selecção inglesa e que tem espalhado elegância, qualidade e velocidade por onde passa. O médio de abertura dos Saracens sabia que ia ter uma noite difícil contra os Scarlets, equipa galesa que placa duro, defende com veemência (nem sempre bem) e não desiste do jogo esteja a perder por 10 ou 50. É importante que partam destes dois números: 4 carries e 7 metros. E agora fica a questão: como é que Farrell fez a diferença com tão poucos carries em sua mão? Bem, no final terminou com 3 assistências para ensaio (Wyles, Vunipola e Rhodes), dizimando a equipa dos Scarlets, quando os galeses estavam a reagir bem ao ensaio de Bosch (aos 49′), realizando um show ao jeito dos grandes nº10’s. Farrell terminou o jogo com 26 passes, o que prova que o jogo dos Saracens passa muito pela qualidade técnica e visão de jogo do abertura, que sabe do apoio excelente que tem em Billy Vunipola (15 carries e 70 metros), Michael Rhodes (11 carries e 65 metros, com o tal ensaio) e Schalk Burger (11 carries e 11 metros), para além das restantes opções. O jogo dos Saracens permite a Farrell mexer-se, encontrar opções válidas (sem ter que procurar muito, uma vez que o apoio apresenta-se logo no imediato) e fazer a equipa jogar da melhor forma possível.

É o rugby mais efectivo, dominante e territorial do rugby europeu de clubes, não há dúvidas. É uma missão complicada parar os Saracens, muito pelo ritmo que tentam imprimir ao longo de 80 minutos, pela forma como atacam o espaço ou pela maneira que “dobram” as defesas a seu favor. Se isto tudo falhar, há sempre a possibilidade de pedir a Owen Farrell que chute aos postes… só neste jogo converteu cerca de 19 pontos (5 conversões e 3 penalidades), atingindo os 35 em duas jornadas e, subsequentemente, o topo da lista de melhores marcadores. Vale a pena ver a sua técnica de pontapé aos postes, que é tão bem trabalhada e delineada que demonstra que Farrell é um dos melhores (senão o melhor actualmente) neste capítulo a nível internacional, para além dos seus pontapés in game serem de excelência e de um recorte técnico de altíssimo nível. Concluindo, Owen Farrell é um nº10 versátil, completo e que se entrega ao jogo por completo, fazendo diferença com os seus passes (vejam o ensaio de Rhodes, a forma como Farrell abre a defesa com uma simulação de passe) ou destruindo defesas com os seus pontapés. A 2ª jornada foi dele, num jogo complicado frente aos Dragões dos Scarlet’s.

O Reforço: NADOLO RAN OVER THE ENTIRE LEINSTER TEAM

Nemani Nadolo e a formação do Montpellier passaram por cima do Leinster e conseguiram uma vitória fundamental em casa, nas aspirações dos franceses em seguir para a fase seguinte. Sim, estamos no início da competição mas estas vitórias acabam por marcar o tempo ” de jogo” e dão uma motivação-extra para o que se segue… no jogo frente ao Leinster a equipa do Montpellier teve um factor que mudou, por completo, a toada: Nemani Nadolo. O ponta fijiano, com os seus 138 kilos decidiu estragar a “vida” ao Leinster que queria capitalizar o resultado da semana passada… bem, o jogo nem começou com Nadolo a distribuir pontos, já que foi Isa Nacewa a dar os primeiros três pontos ao seu Leinster, que estava a sentir amplas dificuldades em furar a excelente defesa dos franceses (terminaram com 138 placagens efectivas) optando por ir aos postes. Porém, à passagem dos 28′ (logo a seguir à conversão de Nacewa) Vincent Martin apanha uma bola aos “saltos” no chão, agarra na mesma e sai disparado… perante Mike Ross, Mich Kearney e, até, o mítico Sean O’Brien, Martin fez uma “brincadeira feia” e escapou em direcção à linha de ensaio sem que ninguém o conseguisse derrubar. Aqui estava dado o mote para o Montpellier, que iria expor a defesa débil do Leinster (várias placagens falhadas, a nível de defesa individual foi uma total confusão e falta de qualidade gritante) ao longo de todo o jogo. À passagem do minuto 34 surgiu Nadolo… e que surgimento. Joffrey Michel, o defesa dos franceses, recebe a bola e vê que à ponta está Nadolo, no qual transmite a oval de imediato. Primeiro veio Kearney lançado para uma placagem, que acabou por ressaltar nas pernas de Nadolo e dar em nada, com Luke McGrath na mesma situação. Este ensaio confirmou a ida para o balneário com uma vantagem confortável de 14-03, complicado a missão do Leinster.

Para acabar o insult to injury, Nadolo ainda faria um segundo ensaio aos 57′ quando o resultado estava num 17-06. Uma formação ordenada do Leinster acabaria em ensaio para o Montpellier? Como? Bem, Jamie Heaslip, o experiente nº8 da Irlanda, sai dessa fase estática e tenta sair a jogar no lado fechado… Nadolo intercepta o passe e a defesa irlandesa nem teve possibilidade de sequer ver o movimento do fijiano. 22-06 com 20 minutos para jogar… Nadolo tinha acabado de infligir dupla estocada no Leinster, que precisava de manter o ritmo de vitórias na Champions Cup. Isa Nacewa ainda conseguiu dar o ponto de bónus defensivo com um ensaio aos 79′, mas a vitória já não fugiu a Jake White e aos seus Les Cistes, que continuam a demonstrar uma predilecção para as vitórias em casa na Europa. Com um “monstro” como Nadolo à ponta, tudo se torna mais fácil… e imaginem quando Tomane, o internacional Wallabie, recuperar e se juntar do outro lado ao fijiano? Será uma dupla de destruição maciça, que sonha com os quartos-de-final para a sua equipa… será possível? Para já estão bem na tabela, com cunho de Nadolo que em duas semanas marcou dois ensaios, assistiu outro e correu mais de 120 metros e realizou mais de 6 quebras de linha. Quem se arrisca a parar o incrível Hulk do rugby?

A Desilusão: HAS THE LEGEND OF THE EXETER CHIEFS ENDED?

Confirma-se o cenário que apontávamos para os Chiefs de Exeter… tremenda desilusão. Dois jogos, duas derrotas, um ponto de bónus e um défice pontual de -28, provam que algo se passa com a formação comandada por Rob Baxter. O rugby não é o mesmo, com uma qualidade questionável, onde o rugby estático, pouco efervescente e sem dinâmicas fora de série, acaba por ultimar a derrota nestes jogos do “tudo ou nada”. A Champions Cup em rugby é “madrasta” nesse sentido… só passam os tais 4 1ºs lugares, logo de seguida os 3 melhores 2ºs e nada mais… pelo caminho vão ficar outras formações que não conseguiram ganhar jogos, demonstrar qualidade, tiveram azar nos momentos X ou que simplesmente não estavam preparados para o exigente nível europeu. Infelizmente, os Chiefs estão em todas as categorias à passagem da 2ª jornada… azar pelas lesões de Nowell, Cowan-Dickie, Don Armand e não só, os jogadores que chegaram acabaram por não trazer nada de novo (Devoto, Turner ou Holmes) e a falta de qualidade táctica/técnica tem decepcionado todos aqueles que esperavam por uma “revolta” dos Chiefs como em 2015-2016. A derrota com o Ulster por 19-18, na Irlanda, crivou uma “espinha” que Baxter terá de remover com muito cuidado e sob uma forte análise, já que o treinador inglês tem de perceber que esta forma de jogar dos Chiefs (que é largamente diferente do que foi na época passada) só trará resultados que o treinador não quer. Fez regressar James Short, o explosivo ponta que entre os primeiros 6 meses do ano passado fez as delícias dos adeptos; voltou a meter a dupla Slade-Whitten, um duo que pode criar dificuldades às equipas que procurem a penetração pelo eixo central. Porém, os Chiefs estiveram quase sempre na defensiva, tendo terminado o jogo com 180 placagens (25 falhadas) e só 160 metros conquistados com a bola em seu poder… não é que seja criticável, já que várias equipas fazem deste estilo uma forma de chegar às vitórias (Highlanders no Hemisfério Sul por exemplo), mas para isso é preciso total eficácia nos momentos cruciais da partida e frente ao Ulster isso não aconteceu.

No filme do jogo Paddy Jackson assumiu-se como maior tormento, com vários pontapés de alta categoria que foram somando pontos para o seu Ulster, com Gareth Steenson (como é que Baxter o deixou de fora dos titulares nas primeiros três jornadas da Aviva Premiership) sempre a responder da melhor forma, com grandes penalidades, boas decisões e uma cultura de jogo inesquecível. Aos 77′ Paddy armou um drop que acertou no meio dos postes, o que deu, nova reviravolta (o jogo foi todo de “cambalhotas”) para o 19-18 final. É verdade que Steenson, abertura dos Chiefs, ainda teve nos pés a possibilidade dar uma vitória encima dos 80′, mas a tentativa de drop saiu algo ao lado e confirmou a 2ª derrota dos Chiefs em duas jornadas. Azar, falta de qualidade e algumas escolhas questionáveis, parece ser o caminho dos Chiefs para a Champions Cup desta temporada… dificilmente Baxter irá mudar a forma de ser da sua equipa e dar outra qualidade de jogo, pois o objectivo será garantir uma boa prestação na liga inglesa, um cenário que lamentamos já que os Chiefs eram das equipas mais ambiciosas, mais fora do “sistema” e que tinham rugby muito próximo do que se pratica pelo Hemisfério Sul, sem perder o “charme” da luta de avançados. Como melhorar? Soltar as linhas atrasadas, tirar peso dos avançados, garantir um apoio melhor ao portador da bola (neste jogo já foi bastante melhor) e querer assumir o papel activo de atacante e não cingir-se à defesa. Haverá espaço para recuperação? Duvidamos que haja… mas Baxter já surpreendeu a Europa.

Piutau wrecking havoc between Chiefs (Foto: Irish News)
Piutau wrecking havoc between Chiefs (Foto: Irish News)

Extra: DAN CARTER STILL HAS THE MOVES

Será curto este extra, já que serve só para demonstrar o quão bom ainda é Daniel Carter, o mítico All Black. Depois de ter conquistado o Top-14, de ter somado dois mundiais com a sua “bota” e de ter espalhado “magia” por todo o lado, o abertura com 34 voltou a fazer uma “brincadeira” que os jogadores do Leicester Tigers ficaram completamente bloqueados, sendo que os adeptos ingleses bateram palmas de respeito pelo tremendo ensaio do nº10. O Racing 92′ não está a atravessar os seus melhores dias, de forma alguma… mas Carter sempre que joga, tenta trazer o seu melhor de forma a levantar as hostes parisienses em rumo à vitória. Como é que Carter com 34 anos faz uma maldade daquelas? Talento puro com uma dose de trabalho gigantesca para atingir o sucesso. Numa época em que a Nova Zelândia regozija-se com o seu “menino” novo, Beauden Barrett, o mito de Dan Carter continua bem presente na memória de todos… que digam os Tigers que ainda apanharam uns valentes sustos com as arrancadas e construção de jogo do nº10.

Para ver as tabelas classificativas siga o seguinte link: goo.gl/DZ9I2S
Para ver a próxima jornada siga o seguinte link: goo.gl/ORDqbh
Para ver os Highlights dos vários jogos ver: goo.gl/rj1d4P

 


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS