O Sporting e as modalidades: a recuperação da identidade perdida?

José DuarteMaio 11, 20188min0

O Sporting e as modalidades: a recuperação da identidade perdida?

José DuarteMaio 11, 20188min0
O Sporting é famoso pelo seu ecletismo e por boas razões. Descobre o que tem feito o clube leonino para o seu sucesso nas modalidades!

À medida que se aproxima o final do ano desportivo tem saltado à vista de todos o regresso do Sporting aos títulos nacionais nas outrora chamadas modalidades amadoras, que hoje são tão ou mais profissionalizadas que o futebol. Mesmo que aos títulos de andebol e voleibol já obtidos não venham a ser acrescentados mais nenhum, é indesmentível que o nível de competitividade hoje oferecido pelas diferentes secções e departamentos é manifestamente superior ao dos anos transactos.

Esta inversão de tendência terá por base uma alteração na filosofia seguida anteriormente e que não estava a produzir os resultados desejados. Por exemplo, no andebol, o Sporting interrompeu, no ano passado, uma década inteira sem ganhar o campeonato nacional da modalidade. Ao repetir o feito este ano, não só repete o bis de há uma década, como confirma a interrupção da hegemonia do FC Porto, quer em termos relativos quer absolutos: o Sporting volta a ser o clube com mais campeonatos nacionais conquistados na modalidade.

Nessa inversão de tendência terão que ser considerados três pontos chave: o reforço do investimento, a recuperação e introdução de novas modalidades e a construção do Pavilhão João Rocha.

O investimento e o seu retorno

O reforço do investimento realizado nas modalidades é explicado oficialmente com canalização das verbas de quotização dos associados.  Embora os documentos oficiais não sejam claros relativamente aos valores em causa, uma vez que não existem rubricas especificas para cada modalidade e despesa, pode-se constatar, pelos valores dos honorários e despesas com pessoal, que tal permitiu a triplicação dos valores disponíveis no curto espaço de três anos. Os 3.803.143,00 € orçamentados nos honorários há três anos estão já bem perto dos nove milhões (8.389.230.00 €) do último orçamento.

O voleibol inaugurou uma nova série de vitórias (Foto: Sporting CP)

A questão dos orçamentos ganha actualmente maior relevo por via das “queixas” dos adversários, como ainda bem recentemente se assistiu após a “rasgadinha” e emocionante negra no voleibol. José Jardim e Hugo Silva, respectivamente treinadores do SL Benfica e Sporting, trocaram bolas na rede sobre esta questão, afirmando cada um que o adversário gasta o dobro. Na verdade ninguém saberá exactamente se assim é e de quanto se fala, mas tal revela, no essencial, que o Sporting voltou a contar para a modalidade que havia abandonado há vinte e três anos. Nesse período ninguém se preocupou com os orçamentos ou com a falta que o Sporting fazia para a competição.

Mas a questão dos meios financeiros empregues é importante, porque ela está relacionada com a sustentabilidade do clube. Foi precisamente por aí que o Sporting justificou o abandono, num processo infeliz, em que os sócios foram obrigados a escolher a que modalidade atribuir a pena de morte. Tal abriria uma ferida que agora parece encontrar finalmente a poção certa para sarar.

Embora o futebol seja a modalidade âncora do clube, as restantes modalidades alimentaram sempre uma parte substancial da matriz identitária do clube: o seu ecletismo. Foram elas, no passado, que proporcionaram as alegrias que o futebol paulatinamente deixou de proporcionar e construíram um palmarés que o clube reclama como sendo o melhor a nível nacional e o segundo maior a nível europeu. No cômputo geral de toda a sua actividade desportiva iniciada desde a sua fundação, em 1906, o Sporting regista vinte mil títulos, dos quais vinte oito são taças europeias em cinco modalidades diferentes, com particular relevo para as medalhas olímpicas (a primeira de sempre para Portugal, por Carlos Lopes) e um sem número de recordes de nível nacional e internacional.

Carlos Lopes, uma bandeira do ecletismo sportinguista (Foto: Sporting com Filtro)

A chicotada necessária e os rivais

O sucesso agora alcançado no voleibol foi alicerçado por uma solução que se pode considerar de chave na mão: na prática o Sporting comprou de raiz uma equipa e assim conquistou um titulo. A ideia de planeamento e crescimento sustentado pereceu em função da necessidade de recuperação da aura vencedora. Algo de muito semelhante ao que já havia sido feito na formação do actual grupo de trabalho de andebol, onde o clube tem uma componente de formação muito importante, mas cujos atletas sentirão como muito difícil a ascensão ao plantel principal.

Todas as estratégias são criticáveis, especialmente quando não se ganha. E aquelas pouco interessam em dias glória, muito embora quando é a sustentabilidade que está em causa há vitórias que no futuro representam um pesado fardo. Creio porém que, nas circunstâncias em que o clube se encontrava, além da indispensável chicotada psicológica que o arrancasse do marasmo, a chicotada dada nos orçamentos também o era. Chicotadas essas que finalmente recolocaram o clube em proximidade de circunstâncias com os seus rivais.

Bruno de Carvalho apostou nas modalidades e com sucesso (Foto: Notícias ao Minuto)

O exemplo do andebol no campeonato do ano passado é paradigmático. Foram muitos os altos e baixos. Só a qualidade e experiência dos jogadores, muito bem aproveitada e potenciada pela equipa de Hugo Canela, chamado já in extremis, após os sinais de incapacidade de Zuppo, permitiram quebrar finalmente o jejum. Jogadores como Azanin, Cudic e Ruesga não são pagáveis em saldo mas são atletas como eles, cujas mãos acertam mais e tremem menos na hora das decisões e que assim justificam os cheques. O andebol é também um bom exemplo, se se tiver em linha de conta a importância de ganhar na formação do espírito de conquista. Pode ser mera coincidência ou talvez não, mas a confiança e segurança que tantas vezes pareceu faltar, especialmente nos confrontos com o FC Porto para matar os jogos, esteve muitas vezes presente este ano, terminando no epílogo feliz.

Se há um mérito acima de qualquer prova que pode ser atribuído a Bruno de Carvalho e ao elementos dos órgãos sociais que o acompanham é ter percebido que o restauro do quadro ecléctico do clube era vital para a sobrevivência do modelo que os fundadores em hora feliz idealizaram. Modelo esse responsável pela replicação de seguidores e que tornaram o Sporting num clube popular e transversal, apesar do elitismo das suas origens. Neste âmbito, e por maior que fosse o investimento, as condições de sucesso deste projecto de revitalização do clube dificilmente estariam reunidas em plenitude sem jogar em casa condigna e apoiado pela força dos seus adeptos.

A nova casa e o seu peso

Não podia por isso ser mais feliz a escolha do nome para o Pavilhão João Rocha bem como a obra efectuada. Honrou-se assim não apenas o nome e a memória de um presidente que deixou títulos e saudade, bem como de tantos outros, nomes conhecidos e anónimos que este pavilhão também homenageia. Como por exemplo, Salazar Carreira, de quem Moniz Pereira, outro nome imortal, dizia:

A grande figura do Sporting é o Dr. José Salazar Carreira. Ele era médico. Foi presidente do Sporting, da Federação Portuguesa de Atletismo e da Federação Portuguesa de Futebol; vice-presidente da Federação Internacional de Voleibol; treinador de atletismo, de voleibol e de remo; membro honorário da Comissão Técnica da Federação Internacional de Atletismo, de Remo e de Andebol; e membro do Comité Olímpico de Portugal, de 1920 a 1924. Escreveu vários livros, publicou trabalhos em muitos jornais e ainda foi recordista de Portugal em 400 metros barreiras, 4×100 e 4×400, além de jogador e campeão de râguebi. Julgo que não há nenhum dirigente português que possa ter um currículo igual. Se não fosse ele, eu não era hoje aquilo que sou. Na minha opinião, está por fazer uma justa homenagem a esse senhor. Era um homem com uma cultura desportiva ímpar”.

Reabriu-se, assim se espera, o caminho de muitas e novas histórias para contar!

A nova casa das vitórias das modalidades dos leões (Foto: Sporting com Filtro)

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