Conheces a história do Super Rugby?

Fair PlayAgosto 6, 20209min0

Conheces a história do Super Rugby?

Fair PlayAgosto 6, 20209min0
Depois de 25 anos espectaculares, o Super Rugby como conhecemos chega ao seu fim e Victor Ramalho leva-nos numa viagem no tempo na competição do Hemisfério Sul.

A notícia do fim do Super Rugby como o conhecemos abalou a semana, com 2020 marcando a 25ª e última temporada da história de sucesso e declínio da competição tida por muitos como a melhor do mundo do rugby. Você conhece a trajetória da grande liga do Hemisfério Sul?

As origens

As origens do Super Rugby se confundem com a origem da Copa do Mundo e do rugby profissional. Até 1995, a federação internacional (IRB na época, atual World Rugby) proibia o profissionalismo no rugby e foi somente em 1985 que o IRB aprovou a criação da Copa do Mundo. A iniciativa foi encabeçada por Austrália e Nova Zelândia, que foram confirmadas como sedes da primeira edição, a ser jogada em 1987. Com isso, os dois países se prepararam criando em 1986 o South Pacific Championship (SPC), batizado depois como Super 6. Era uma competição anual envolvendo os 3 primeiros colocados da NPC (o Campeonato Neozelandês, atual Mitre 10 Cup, jogado por seleções provinciais), os 2 grandes times australianos (as seleções estaduais de New South Wales e Queensland) e o campeão do Pacific Tri Nations (o torneio entre Fiji, Samoa e Tonga).

A competição foi jogada anualmente até 1992, ano que o boicote internacional à África do Sul acabou, pela democratização do país que encerrava o regime racista do apartheid. Com isso, em 1993, o Super 6 foi transformado em Super 10. Jogado em 1993, 1994 e 1995, o Super 10 é a versão amadora do Super Rugby. Participavam dele os 4 primeiros colocados do NPC neozelandês, os 3 primeiros da Currie Cup (o Campeonato Sul-Africano), os 2 grandes times australianos e o campeão do Pacific Tri-Nations. Isto é, até 1995, Fiji, Samoa e Tonga foram parte da competição. Os Lions (na época chamados de Transvaal) foram os primeiro campeões, com François Pienaar levando a taça à África do Sul. Mas em 1994 e 1995 o dono do Super 10 foi o Queensland Reds, da Austrália, liderados por John Eales.


Nascimento junto do profissionalismo

Com o profissionalismo liberado no rugby mundial, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia somaram forças e criaram uma liga profissional de franquias. Até 1995, o Super 10 funcionava como uma Champions Cup do Hemisfério Sul, com os melhores de cada campeonato nacional.

A partir de 1996, o novo Super 12 passou a operar com franquias profissionais, com a competição sendo regida por uma nova entidade: a SANZAR (atual SANZAAR). Por isso o Super Rugby considera sua criação oficial sendo 1996. Pelo novo formato, cada franquia passou a representar uma região de seu país, englobando seleções provinciais diferentes.

O Super 12 foi inaugurado em 1996 com 12 equipes, sendo 5 da Nova Zelândia (Blues, Chiefs, Hurricanes, Crusaders e Highlanders), 4 da África do Sul (Bulls, Lions, Sharks e Stormers) e 3 da Austrália (Brumbies, Reds e Waratahs). O título foi dos Blues, de Jonah Lomu.

Com um sistema de todos contra todos, com 11 rodadas na temporada regular, seguidas de semifinais e final, o Super 12 garantia alta concentração de grande jogadores e grandes jogos.

A melhor liga do planeta

O Super 12 se consolidou nos anos seguintes como a grande liga do rugby mundial, com os jogadores de All Blacks, Wallabies e Springboks todos baseados em seus países.

A liga permaneceu com 12 times até 2004 e viu a apoteose de três gigantes: Crusaders, Blues e Brumbies. Primeiro, o Blues, de Lomu, reinou nos dois primeiros anos, mas viu os Crusaders começarem a construir sua história vencedora emplacando tricampeonato em 1998, 1999 e 2000 sob o comando do técnico Rob Deans. Em campo os Crusaders tinham nomes como Leon MacDonald (atual técnico dos Blues), Scott Robertson (atual técnico dos Crusaders), Reuben Thorne, Andrew Mehrtens, entre outros.

Em 2001, no entanto, já estava clara a força dos Brumbies, base da seleção australiana campeã do mundo de 1999. Os Brumbies, de George Gregan e Stephen Larkham, comandados pelo técnico Eddie Jones, venceram o título de 2001. Crusaders e Blues depois venceriam os títulos de 2002 e 2003, respectivamente, enquanto em 2004 a taça voltou aos Brumbies.
A principal alteração no período foi apenas a transformação em 1998 dos Lions em Cats, para representarem uma região maior. Entre os sul-africanos, os Sharks eram a força ascendente no período do Super 12, vice campeão em 2001.

Expansão a quatro continentes

Em 2005, o Super 12 foi expandido para Super 14. O sucesso da competição aumentara as ambições da região, que abriu as portas para novas equipes na África do Sul e Austrália, que queriam igualdade com os neozelandeses. Na Austrália, nasceu o Western Force, em Perth, ao passo que na África do Su o Cats foi dividido em Lions (renascido) e Cheetahs.

O sistema de todos contra todos seguiu, assim como o domínio dos Crusaders, que, já com Richie McCaw e Dan Carter no elenco, foram campeões em 2005 e 2006, afirmando-se como os maiores da competição. A hegemonia do time neozelandês foi quebrada apenas em 2007, quando finalmente um sul-africano foi campeão: o Bulls, base dos Springboks campeões do mundo em 2007, em uma final toda sul-africana contra os eternos vices do Sharks, mostrando a retomada da grandeza do rugby da África do Sul. Os Crusaders voltaram a ser campeões em 2008, mas em 2009 e 2010 o título retornou aos Bulls, de Fourie Du Preez, Bryan Habana, Victor Matfield, Bakkies Botha & cia. A final em 2010 mexeu com a África do Sul pois foi o maior clássico do país, Bulls e Stormers.


Já em 2011, o Super Rugby voltou a se expandir, com finalmente a Austrália se equiparando aos parceiros com sua quinta equipe, o Rebels, no disputado mercado de Melbourne, onde o rugby tem pouco espaço. O Super 14 se tornou Super Rugby e adotou o controverso modelo de conferências, abandonado o bem sucedido pontos corridos. O ano ainda marcou a volta da Austrália ao topo com o Reds, de Quade Cooper e Will Genia sendo campeão, contra os prognósticos.

A alternância de campeões se provou sadia no Super Rugby, com a Nova Zelândia vendo a ascensão de Chiefs (de Sonny Bill Williams, bicampeão em 2012 e 2013), Highlanders (de Aaron Smith, campeão em 2015) e Hurricanes (de Beauden Barrett, campeão em 2016) crescendo, quebrando a hegemonia nacional dos Crusaders – e assistindo ao profundo declínio dos Blues. Já na Austrália, os Waratahs, de Michael Hooper, levavam o título de 2014 para Sydney, a maior cidade australiana.

O sucesso da expansão levou à ambição e o Super Rugby tomou a decisão de se expandir outra vez, buscando novos países. Em 2016, Argentina e Japão entraram para a liga com a criação dos Jaguares e dos Sunwolves, ao passo que a África do Sul ganhou seu sexto time, o Kings. A demanda sul-africana buscava responder a uma disputa política interna do país. Em 2012, os sul-africanos criaram um controverso sistema de rebaixamento entre suas franquias, permitindo ao recém criado Kings jogar o Super Rugby em 2013. No entanto, a franquia que representava Port Elizabeth não se sustentou na elite, ficando ausente em 2014 e 2015. Com isso, em 2016 o Super Rugby ia de 15 para 18 times.

Declínio

A série de expansões se provou desastrosa. O Super Rugby já vivia um declínio econômico, pelos altos gastos com viagens e pela pressão que os cada vez mais ricos clubes ingleses e franceses colocavam sobre a competições, oferecendo contratos a grandes nomes de Springboks, Wallabies e All Blacks. As mudanças no regulamento do Super Rugby e o enfraquecimento das franquias australianas e sul-africanas afastaram o torcedor, com a média de público caindo, marcando um fim de década turbulento.

O formato de 18 times durou apenas 2 temporadas, com os Crusaders voltando a serem a potência maior, erguendo a taça em 2017. O desastre da expansão levou à pressão pelo retorno ao Super 15 e a SANZAAR operou uma drástica – e mal calculada – mudança na competição para 2018, excluindo Force, Cheetahs e Kings. Tal movimento gerou protestos na Austrália, com o Force obrigado a criar sua própria liga – a Global Rapid Rugby, que estreou em 2020, com times de Ásia e Oceania. Já Cheetahs e Kings apostaram no rugby europeu, migrando para o PRO14 – a antiga Liga Celta, de Irlanda, Gales, Escócia e Itália. Com isso, os sul-africanos davam um passo na direção de explorarem o rugby europeu como alternativa, pelo fuso horário mais amigável.

A mudança não resolveu os problemas e a competição seguiu perdendo dinheiro e público em 2018 e 2019, com a pandemia de 2020 se provando disruptiva. Nesse período final, os Crusaders seguiram reinando, sendo campeões em 2018 e 2019. Os Lions, da África do Sul, renasceram, com 3 vices seguidos (2016, 2017 e 2018), ao passo que os Jaguares argentinos mostraram com um vice campeonato em 2019 que o projeto era promissor. Porém, abreviado pela crise da liga. A SANZAAR ainda teve tempo de tomar outra decisão controversa, excluindo os japoneses do Sunwolves para 2021, agravando as relações do Japão (em franco crescimento) com a entidade. Com a pandemia de 2020, a Nova Zelândia se antecipou e rompeu com a organização da SANZAAR, como previsto, pondo fim à maior liga que o rugby já vira.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter