Um questão de maça (sim, com ç) – Coluna de Hélio Pires

Fair PlayNovembro 2, 20186min0

Um questão de maça (sim, com ç) – Coluna de Hélio Pires

Fair PlayNovembro 2, 20186min0
O maul é um maça autêntica para a defesa, mas do que se trata realmente desta opção de ataque? É assim tão importante no rugby?

Quando um não-adepto de râguebi ou um aficionado recente assiste a uma partida, não se espantem se essa pessoa ficar confusa ao ver um maul.

Pode ser claro e fácil de seguir para quem tem experiência de jogo, mas para quem observa de fora ou não o faz há muito tempo, é provável que seja uma coisa caótica e sem nexo aparente para além do empurrar em grupo.

O ruck, note-se, pode desencadear uma reacção semelhante, mas acaba por ser mais fácil de perceber graças a uma linha de fora de jogo clara que separa os jogadores em campos bem delimitados, tanto que eles evitam ir à bola mesmo quando ela parece estar à mão de semear, e o árbitro está lá por via das dúvidas com indicações pró-activas. Mas um maul dinâmico? O que é que se passa ali?

Veteranos da modalidade, jogadores e adeptos de longa data, não precisam que lhes expliquem. Na volta, não têm sequer dúvidas sobre o assunto, mas o mesmo pode não ser verdade para os novatos, os curiosos e os observadores ocasionais, que até podem estar interessados em seguir o râguebi, mas não sabem por onde puxar o fio à meada do maul. Permitam-me por isso que faça uso da minha relativa inexperiência – e por isso de alguém que ainda tem um pé fora da modalidade – para arriscar uma explicação.

A teoria

A definição legal de um maul, segundo a lei 17 do regulamento, obriga a que haja pelo menos três jogadores de pé e agarrados uns aos outros. Friso: agarrados!

Mãozinha nas costas ou contacto de cotovelo não basta, é preciso que estejam presos uns aos outros. Um deve ter a bola e ser apoiado por um colega de equipa e a travá-los no sentido oposto deve estar um ou mais jogadores adversários. Isto pode acontecer em qualquer parte do campo e termina quando a bola sai do maul, quando o jogador que a tem fica no chão – caso em que passa a ser um ruck – quando a coisa não vai a lado nenhum ou então quando colapsa ao ponto de não se conseguir usar a bola.

Como em quase tudo no râguebi, também aqui há uma linha de fora de jogo ou antes duas, uma para cada equipa, marcadas pelo pé mais recuado do jogador mais recuado.

E esta referência serve também para determinar por onde é que uma pessoa se pode somar a um maul: não é pelos lados ou por cima, mas sempre atrás ou junto do companheiro de equipa mais recuado. Se for noutro ponto, é fora de jogo. E por motivos de segurança, não se pode fazê-lo tendo a cabeça e joelhos mais baixos do que as coxas.

Dito assim, parece ser relativamente simples. Relativamente! Não é tão fácil quanto dois grupos compactos a empurrarem em sentidos opostos, porque há nuances e regras, as mesmas que fazem com que um maul não seja um aglomerado caótico sem nexo.

Mas uma coisa é a teoria e outra a prática e, qualquer que seja a clareza da primeira, ela tende a desvanecer na segunda, porque indivíduos misturados e em movimento, com os pés sempre a mexer e por isso a mudar de sítio, tem pouca semelhança com ideias bem arrumadas num papel. Não é uma coisa tão nítida quanto as linhas paralelas de jogadores num ruck.

A lógica da maça

Neste ponto, pode ser útil recorrer à etimologia, isto é, à raiz das palavras: maul vem do latim malleus, que quer dizer martelo, moca ou maça.

Não tanto o vulgar martelo de extremidade bifurcada para ajudar a arrancar pregos, mas o mais compacto de cabeça solidamente rectangular. E o objectivo desta informação não é entrar numa lição de carpintaria – o Tom Wood é muito melhor nisso do que eu – mas retirar disto uma analogia que talvez ajude a decifrar o maul.

Imaginem-se a querer cravar um prego numa tábua. Não estou a falar em pregar, mas cravar empurrando-o de forma persistente com a cabeça do martelo, quase como se fosse um parafuso, mas sem ranhuras e por isso sem que valha a pena rodá-lo. O esforço está todo na pressão contra a tábua, obrigando-a a abrir caminho para o prego à medida que ele é empurrado. Um maul tem qualquer coisa de parecido com isso.

O objetivo é empurrar a bola rumo à linha de ensaio adversária, rompendo a defesa, e fazê-lo de forma compacta, não fluída e de passe em passe ao longo de toda a largura do campo.

Os jogadores não se podem juntar pelos lados, do mesmo modo que o martelo que empurra o prego não pode ser agarrado lateralmente, mas pela ponta do cabo se forma a concentrar a pressão. E porque o propósito é empurrar e não pregar, o martelo por vezes não se mantém direito, fugindo para os lados do mesmo modo que um maul pode girar em vez de seguir em linha recta.

E sempre de olho na oval

A analogia da maça não explica tudo, mas pode ajudar a construir uma ideia geral que, para quem não tenha experiência de jogo, dê sentido à dinâmica e às regras. Depois… depois é não perder de vista a bola.

Lembrem-se: é ao jogador que a tem que os colegas de equipa se ligam fisicamente e é contra ele que os adversários se juntam; e por isso também os jogadores mais recuados de cada lado – os que marcam as linhas de fora de jogo – devem, em princípio, estar mais ou menos em linha com o portador da bola.

É verdade que também aqui uma coisa é a teoria e outra a prática, mas se não se conseguir ver a bola – e é bem possível que isso aconteça no meio da confusão – olhe-se para o árbitro, que está no terreno, mais perto da acção e por isso mais bem posicionado para localizar a oval. Por vezes, ele próprio diz onde ela está, por isso nada como ficar de olho também no senhor do apito.

De resto, é sentar e desfrutar dos jogos. Como em tudo, a perfeição está na prática, por isso não se espere perceber logo à primeira e que se tenha o olho treinado ao final de uma ou duas partidas. Eu estou a escrever isto, mas ainda me perco a seguir mauls. Mas se ajudar, eis a minha cábula: maça, bola e árbitro.


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