The Springboks Affair – o futuro (in)certo do The Rugby Championship

Francisco IsaacOutubro 20, 20208min0

The Springboks Affair – o futuro (in)certo do The Rugby Championship

Francisco IsaacOutubro 20, 20208min0
Não haverá o The Rugby Championship 2020 nos moldes normais, pois a África do Sul confirmou a sua não comparência na competição. O que isto vai implicar para o futuro deste torneio entre as 4 principais selecções do Hemisfério Sul?

Histórico será o ano de 2020 quase inteira e exclusivamente pelas piores razões possíveis, seja pela situação actual a nível da saúde, em que se acentuaram e surgiram novos extremos tanto em termos de opinião como de medidas a adoptar, como pelos impactos locais e nacionais que fizeram desabar com supostas uniões inquebráveis, caso do Super Rugby, competição que cessou a sua existência em Março de 2020.

Para ainda adensar o problema do Hemisfério Sul, e voltando agora só para o mundo do rugby, os Springboks decidiram não participar no The Rugby Championship deste ano, voltando atrás na decisão tomada em Agosto. Nessa altura, as quatro nações participantes (Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Argentina) confirmaram alguns dos detalhes, como o local e mês, seguindo-se o alinhamento das datas e jogos em meados de Setembro, com todos os participantes a vincarem a sua vontade de estarem presentes na competição que iria decorrer de 28 de Outubro a 12 de Novembro.

A África do Sul já sabia que só teria competição local a partir do fim de Setembro (na forma do Super Rugby Unlocked, Showdown e Green vs Gold), tendo noção de que a sua preparação física não atingiria o mesmo timbre dos seus dois principais adversários pelo título, aquando do primeiro contacto para participar no reformulado The Rugby Championship 2020.

Agora, em véspera de se dar o pontapé de saída, os campeões em título do TRC abdicaram de participar, alegando problemas de calendário, logística e da saúde dos seus atletas, optando pela decisão mais difícil mas mais lógica de acordo com a direção da SARU. Levantou-se um véu de suspeita e de dúvidas perante tal posicionamento dos campeões mundiais, que surpreenderam tudo e todos pela tomada de posição, tendo encontrado solidariedade e compreensão por parte de uma parte da massa humana da modalidade, sem deixarem de surgir também os contestatários depreciativos. “Limpando” toda a situação e passando para uma análise crítica e fria, há algumas questões que deviam ser respondidas de maneira se entender o “problema”. São elas:

– Se a África do Sul já sabia de antemão das dificuldades acrescidas para assegurarem uma participação estável e equilibrada no The Rugby Championship, porque é que não avisou desde logo que seria difícil ou quase impossível de participar? O impacto do SARS-CoV-2 nunca iria esmorecer, haveriam protocolos sempre complicados de trabalhar com e o nível competitivo dos atletas sul-africanos seria sempre abaixo dos seus adversários. Ou seja, apresentar estes factos agora como atenuante ou desculpa da decisão tomada é no mínimo questionável.

– Ao contrário da Austrália e Nova Zelândia, que só baseia as suas convocatórias em jogadores locais, a África do Sul podia chamar os seus atletas do Hemisfério Norte. Se convocasse pelo menos os 20 de alta qualidade que actuam entre a Premiership, TOP14 ou PRO14, não seria suficiente para montar um elenco de qualidade e em grande forma? Existe uma questão que bloqueia com a possibilidade de utilização dos atletas, e é o acordo com os clubes detentores dos contratos profissionais. Para jogadores como Cobus Reinach, Faf de Klerk, Cheslin Kolbe ou Eben Etzebeth não seria fácil convencer a sua entidade empregadora de os dispensar à selecção, no mínimo seis semanas, correndo o risco de se lesionarem fora da janela de internacionais de Inverno (o TRC nos seus moldes normais iria decorrer durante todo o mês de Novembro, um fim-de-semana de Outubro e dois de Dezembro) ou contraírem uma infeção que forçasse isolamento durante um período de 10 dias.

Os fundos das transmissões (e bilheteira) do TRC não seriam fundamentais para a sobrevivência da federação sul-africana? É a questão mais delicada porque efectivamente a SARU encontra-se numa situação financeira delicada e a não utilização da marca Springboks em 2020 pode representar perdas consideráveis, com os principais investidores a deterem poder para paralisar com o patrocínio ou até levar a um romper de contratos de forma mais facilitada (exemplo da companhia de aviação da Qantas, que devido ao impacto do SARS-CoV-2 decidiu não investir mais na federação australiana de rugby, podendo retornar em 2021 mediante renegociação dos apoios concedidos). Contudo, o Super Rugby Unlocked está a decorrer e a nível interno pode gerar alguma receita, dependendo como o produto é vendido, lembrando que não tem a espectacularidade e qualidade das competições regionais australiana e neozelandesa.

Em suma, a África do Sul rejeitou participar à última hora devido à situação estranha vivida neste momento, não conseguindo ter as melhores condições para trabalhar e que para participar na competição teria de chegar a consensos e acordos com as entidades responsáveis pelos passes dos atletas que actuam no Hemisfério Norte, sem esquecer que a não presença dos principais atletas sul-africanos no Super Rugby Unlocked iria ter importância e qualidade às equipas participantes, o que até poderia significar um desinteresse da SARU na sua própria competição interna de franquias.

Se os Springboks podem sair com a sua imagem algo danificada devido a esta decisão? Possível e provável, especialmente ao nível da fiabilidade em termos de palavra e de lógica de organização interna. A demora em dar uma resposta clara às suas congéneres revela que a SARU não realizou um bom “trabalho de casa” junto da sua equipa técnica sénior (terá Rassie Erasmus concordado com a participação dos ‘boks desde o início?) e o facto de já não perder o 1º lugar do ranking – a World Rugby decretou que não haveria alteração no ranking em 2020, tirando mérito às selecções que realizaram uma temporada de nível, como Portugal e França, entre outras -, demonstra uma certa frieza e falta de lógica colectiva, que até poderá ser aceite perante este período de dúvidas e conflitos. Mas onde está realmente a razão? E até onde vai a hostilidade entre África do Sul, Austrália e Nova Zelândia?

A Argentina, tendo uma situação similar à dos Springboks – uma boa parte dos atletas virão das ligas europeias-, optou por participar no TRC porque necessita dos fundos provenientes das transmissões e de continuar a moldar o seu grupo de trabalho para os reais desafios que se seguem em 2021. Há uma necessidade dos Pumas em obter um fluxo positivo na tesouraria, de maneira a evitar uma situação ainda mais calamitosa que poderia advir de uma não participação numa competição internacional de selecções.

O problema real não advém da Nova Zelândia, Austrália, Argentina ou África do Sul, mas sim da SANZAAR, a entidade responsável pelas maiores competições do Hemisfério Sul transcontinental, que não tem poder real para forçar as federações a cumprir com os acordos estabelecidos ou chegar a consensos minimamente razoáveis. Esta decisão dos Springboks levanta sérias questões relacionadas com o futuro do Hemisfério Sul, na convivência destas quatro selecções na hora de procurar um caminho em conjunto (a Nova Zelândia foi a primeira a fazer mossa neste aspecto, ao sair do Super Rugby de forma unilateral e sem penalizações) e no profissionalismo de todas entidades, governadas cada vez mais como um feudo e menos como uma instituição desportiva.

Não poderia a África do Sul, como campeã mundial e última detentora do The Rugby Championship, ter desde o início alertado os seus parceiros que não estaria em posição de viajar e competir? A situação de pandemia actual não pode servir constantemente de desculpa para todas as acções menos positivas ou bem “pensadas”, sob consequência de se abrirem ainda mais frentes de guerra e problemas de resolução e convivência entre todos os participantes.

No fim, a dúvida fica se o The Rugby Championship terá futuro em 2021, sobrevivendo a um ano atípico mas que expôs na realidade as verdadeiras caras de cada um dos participantes, demonstrando que existe claramente um espírito nocivo e contrário aos princípios do colectivo e de trabalho em conjunto para engradecer a modalidade tanto como valores e negócio. A SANZAAR, as federações do Hemisfério Sul participantes e alguns dos seus comentadores/adeptos têm de perceber que o rugby é um negócio mundial e que tem de estar virado não só para o seu nicho, mas para todo um público que gosta de desporto e está disposto a seguir desde que haja estabilidade, lógica e qualidade, algo que em 2019 e 2020 não tem acontecido, principalmente nas mesas de negociação e de decisão neozelandesas, australianas e sul-africanas.


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