Sofrimento e táctica entre ingleses e neozelandeses – Semana 2

Francisco IsaacNovembro 12, 201812min0

Sofrimento e táctica entre ingleses e neozelandeses – Semana 2

Francisco IsaacNovembro 12, 201812min0
A Inglaterra esteve perto do improvável mas os All Blacks saíram com a vitória. Como foi o jogo entre neozelandeses e ingleses? E entre 'Boks e Les Bleus em Paris?

Mais um fim-de-semana de rugby, com muito para se dizer: o País de Gales finalmente ganhou à Austrália (há 13 jogos que tal não acontecia); a África do Sul recuperou de um 09-16 ante a França, para terminar na frente por 29-26; a Nova Zelândia que esteve em sérios apuros terminou como vencedora do encontro em Twickenham; a Irlanda silenciou a revolução Ledesma com uma exibição irrepreensível; e a Escócia e Fiji deram um show inacreditável em Murrayfield.

Esta semana trocamos as voltas e não vamos ao “mau” (facilmente , o “bom” e o “excelente”, optando por ir ao factor inesperado, esperado e o espectacular!

O INESPERADO: A INGLATERRA OFERECE UMA RESISTÊNCIA ANTI-ALL BALCKS

Quem viu e quem vê agora esta Inglaterra, certo? Entre Fevereiro e Junho, Eddie Jones somou o seu período mais negro ao serviço da Rosa com cinco derrotas em oito jogos possíveis, perdendo pelo caminho o título de bicamepões das Seis Nações para a Irlanda e as Series ante a África do Sul. Agora em Novembro de 2018 derrotaram, de forma justa, a selecção sul-africana e por muito pouco não fizeram o supostamente “impossível”: ganhar aos All Blacks.

O encontro terminou num 16-15 a favor dos bicampeões mundiais em título, num jogo que foi até ao último sufoco e que teve 10 minutos de imprevisibilidade total para ambos os lados. Mas como é que a Inglaterra amordaçou os neozelandeses ao ponto de terem estado na frente do marcador com uma diferença de 15 pontos?

Eddie Jones montou uma estratégia que impunha pouco risco a nível de ataque, mas que iria forçar aos seus jogadores uma vontade extenuante de espírito de sacrifício, de trabalho constante e de intensidade no máximo durante 80 minutos a nível da defesa. A Inglaterra ofereceu a oval à Nova Zelândia, com boas sequências de jogo ao pé, que obrigavam os All Blacks a recuar e a repensar todo jogo, sem a oportunidade de lançar as suas linhas de ataque, retirando o poder de explosão típico desta formação das antípodas.

Na primeira-parte, ou melhor, nos primeiros 30 minutos a estratégia foi exemplar, com um ensaio marcado logo ao início do jogo, aproveitando uma entrada a “frio” dos adversários; outros 5 pontos chegaram através de um maul dinâmico indefensável; e um drop de categoria de Owen Farrell… ao todo 15 pontos. A Rosa conseguiu pontos em cinco das oito oportunidades em que passaram os 40 metros, num claro sinal de eficiência e eficácia.

A defender, a selecção inglesa baseou tudo numa pressão alta e de aproximação imediata que tirava possibilidades aos neozelandeses de jogarem com mais espaço, impedindo que Rieko Ioane ou Ben Smith fossem opções credíveis durante vários momentos do encontro.

A fisicalidade inglesa foi um contínuo problema para os All Blacks, com Sam Underhill e Mark Wilson a “caçarem” constantemente Damian McKenzie ou Jack Goodhue, limitando a acção atacante da Nova Zelândia que só se iria “encontrar” quando Ryan Crotty entrou em campo.

O centro substituiu o lesionado Sonny Bill Williams e a sua entrada garantiu às linhas atrasadas neozelandesas um princípio de jogo mais célere, onde a capacidade de choque e perfuração foram elementos fundamentais para o desequilibrar da balança de jogo. Com Beauden Barrett na plenitude ao pontapé (100% no ataque aos postes e nos pontapés tácticos), foi natural a chegada à área de ensaio depois de um bom movimento a partir da formação-ordenada.

Na segunda-parte só existiu a Nova Zelândia em termos de ataque, que viria a passar para a liderança do marcador com um drop e uma penalidade convertida de Beauden Barrett. Contudo, o domínio dos visitantes nunca se converteu em pontos devido a erros consentidos nos últimos 15 metros. Seja por perdas de bola no contacto, faltas no chão ou más combinações rápidas, o contra-ataque All Black nunca se converteu em pontos.

O equilíbrio regressou nos últimos 10 minutos de jogo, altura em que se dá o “caso” da semana: pontapé do ruck de TJ Perenara, Courtney Lawes carrega rapidamente, bloqueia a oval e Sam Underhill capta-a correndo praticamente sem oposição até à área de ensaio. Contudo, as imagens são elucidativas em relação ao posicionamento ilegal de Courtney Lawes que foi apanhado na “armadilha” de fora-de-jogo (inconscientemente) por um pé precioso de Ofa Tuungafasi. Os visitantes geriram a posse de bola até ao final dos 80′ e a vitória sorriu a Steve Hansen.

A Inglaterra voltou a dar um passo certo no caminho de recuperação da sua forma física, mental e técnica, com uma agressividade de qualidade no jogo curto (Maro Itoje e Sam Underhill foram intratáveis neste aspecto), de aproveitamento das poucas oportunidades para avançar no território (Jonny May e Chris Ashton excelentes nesta componente) e de dureza e exigência na defesa de excelência.

A Nova Zelândia sobreviveu a um jogo complicado, onde foi forçada a procurar soluções diferentes à sua normal abordagem ao jogo atacante, com sucesso muito devido ao trabalho incansável de Broadie Rettalick, Beauden Barrett, Kieran Read, Ben Smith, Sam Whitelock e Ardie Savea. Nota agridoce para Damian McKenzie que marcou o ensaio, bateu 12 defesas e realizou quatro quebras-de-linha, mas decidiu quase sempre mal no último passe, não teve o pé afinado e perdeu diversos confrontos no contacto.

O ESPERADO: A CAMINHADA DA IRLANDA ATÉ AO ANO (QUASE) PERFEITO

Novo jogo, nova vitória e a Irlanda em 10 encontros em 2018, ganhou 9, numa clara demonstração de força dos comandados de Joe Schmidt. Frente a uma Argentina enérgica mas demasiado errante no que fazer com bola e constantemente a cometer faltas no chão ou no contacto, a Irlanda voltou a sair por cima com uma vitória que não foi em nada fácil.

Os Pumas entraram definitivamente melhor no Aviva Stadium, expandindo o seu jogo de uma forma electrizante e estonteante, em que Nicolás Sanchez procurou acelerar o jogo de uma forma constante, sempre bem acompanhado por Matías Orlando e Emilliano Boffelli na criação de quebras-de-linha. Sanchez sempre que pôde apontou o pé aos postes e nos primeiros 10 minutos valeram 6 pontos.

A Irlanda encontrou dificuldades na lógica de criar um fio condutor, com Sexton a poder queixar-se da alguma lentidão dos seus pontas ou da falta de entrega dos avançados, que acabaram por se “salvar” com um par de extraordinárias formações-ordenadas. A Argentina sofreu bastante neste departamento, empurrada várias vezes para trás, sofrendo inclusivé um ensaio a partir desta fase estática, com Kieran Marmion a sair rápido e a mergulhar para o ensaio.

Com uma constante resposta da Argentina, a Irlanda esteve imersa num confronto físico e táctico durante largos períodos, sem conseguir fazer mais que uma quebra-de-linha durante todo o encontro… a defesa dos Pumas foi dura, paciente e inteligente, tirando possibilidade aos fantasistas como Jordan Larmour ou Jacob Stockdale de fazerem algo mais de surpreendente.

Porém, no jogo da paciência os irlandeses são neste momento “reis” e construíram boas fases de ataque que depois permitiam lançar pontapés estratégicos de Marmion, Sexton ou Larmour… a Argentina foi apanhada em falta por 10 ocasiões nos últimos 30 minutos e a equipa da casa não perdoou, transformando em pontos pelo pé do seu médio-de-abertura.

A formação sul-americana continua a ser excessivamente errática na abordagem ao breakdown, onde há uma clara má leitura de como e quando abordar o ruck, com constantes atrasos no apoio ao portador da bola que vai ao chão e frente à Irlanda, uma selecção reconhecida pela sua velocidade e agressividade na disputa no chão, os Pumas foram apanhados em constantes penalidades.

Mesmo assim, aos 65′ a diferença no marcador era de um ponto a favorecer os campeões actuais das Seis Nações e um erro podia repor a formação visitante na frente. Contudo, a impaciência da Argentina foi “letal” e aos 66′ Luke McGrath foge bem de uma formação-ordenada para fazer o ensaio da acalmia. O 25-17 silenciou os sul-americanos e a Irlanda demonstrou novamente que o pragmatismo, paciência e trabalho exemplar no breakdown, fases estáticas ou no controlo da oval, são “armas” mais que suficientes para ganhar.

Segue-se agora o maior desafio de 2018: All Blacks. Sem Sean O’Brien (partiu o braço) e possivelmente com Conor Murray (recuperação milagrosa do formação), é a ocasião perfeita para a Irlanda reafirmar o seu estatuto de uma das favoritas para sonhar alto no próximo Mundial em 2019.

O ESPECTACULAR: O COMEBACK DOS SPRINGBOKS QUE DERRUBOU A MURALHA FRANCESA

Se não foi possível contra a Inglaterra, agora contra a França os Springboks conseguiram ir buscar a vitória já para lá dos 80 minutos, quando poucos acreditavam nesta reviravolta nos acontecimentos depois de terem chegado a perder por uma diferença de 14 pontos quando faltavam só 35 minutos para o tocar do “sino”.

Comecemos pelo princípio e pela primeira pergunta que pode surgir após o preâmbulo: como é que estes renovados Springboks estiveram sujeitos a uma diferença tão lata no resultado? Três factores podem ajudar a explicar: sucessivos erros na abordagem à bola (13 bolas perdidas no contacto ou no manuseamento da bola), excessivo uso do pontapé quando se pedia melhor condução de bola (Faf de Klerk pontapeaou em demasia a oval, quando podia ter confiado nas linhas atrasadas) e diversas placagens falhadas nos últimos 30 metros.

Não significa isto que a França não tenha tido mérito na vantagem que obteve, mas houve uma clara entrada em falso da África do Sul com uma má leitura de jogo e um erro crasso na estratégia que apresentou durante os primeiros 50 minutos. Os Les Bleus foram claramente agressivos no contacto, evidenciando uma nova vivacidade no momento de criar soluções no ataque.

Jacques Brunel repôs alguns traços da velha França, onde a tentativa de criar linhas de apoio rápidas para depois lançar uma segunda vaga rápida logo à procura de perfuração e de uma situação de ensaio iminente. Com Teddy Thomas e Maxime Médard em grande (6 quebras-de-linha e 6 defesas batidos), a equipa da casa foi dando forma ao seu crescente domínio na primeira-parte, com ensaio de Guilhem Guirado e pontapés certeiros de Baptiste Serin.

A avançada francesa foi sempre bem liderada pelo talonador, com a 3ª linha a pautar pelo controlo e gestão da oval, domínio nos rucks e “silenciamento” dos seus adversários com Vermeulen, Kolisi e Whiteley a ficarem constantemente arredados do encontro. Malcolm Marx ficou-se pelo trabalho defensivo (11 placagens e 2 turnovers), quando podia ter intervido mais no factor atacante.

Aí esteve precisamente o problema dos visitantes, saber atacar. Como começámos por dizer, se a defesa foi algo perdulária na abordagem ao jogo ao largo (sérias dificuldades no entendimento de como defender ao largo), o ataque voltou a demonstrar-se pouco claro e inteligente, com claras culpas no cartório para o par de médios. Ora se Handré Pollard não esteve bem na liderança nas operações das linhas atrasadas, já Faf de Klerk optou sempre pela pior decisão nos últimos 15 metros.

Quando podia ter exigido fases mais curtos mas dinâmicas dos seus avançados, confiando num avanço progressivo, o formação atirou a bola ao pé para trás da defesa francesa sem que esta tremesse perante estas situações de jogo. Esta estratégia foi a principal responsável pela falta de conclusão ofensiva dos Springboks, que só se alteraria na 2ª metade do jogo.

Nkosi reduziu aos 44 com um ensaio oportunista e Pollard meteu os pontapés necessários para que a África do Sul ficasse a um ensaio de distância da reviravolta, que chegaria por Mbonami já aos 80+5. Depois de sucessivas tentativas e subidas no terreno, os Springoks conseguiram o tal ensaio da vitória com o talonador a sair bem após um alinhamento.

Como se diz na gíria, jogo impróprio para cardíacos e com total mérito da África do Sul a ir em busca da vitória mesmo quando o cenário se apresentava complicado. Depois de uma derrota amarga, os Springboks repõem os níveis de confiança num bom patamar e agora segue-se uma visita à Escócia.

OS PRÉMIOS DA SEMANA 1

Melhor Ensaio: Tommy Seymour (Escócia, vs Fiji – 3º ensaio do ponta)
Melhor Placador: Matías Alemanno (Argentina, 22 placagens, 98% de eficácia)
Melhor Jogador: Semi Radradra (Fij – 1 ensaio, 75 metros conquistados, três quebras-de-linha, 5 defesas batidos, 2 turnovers)
Melhor Marcador: Handré Pollard (África do Sul, 19 pontos – 5 penalidades e 2 conversões)
Melhor Estreante: Não houve
Melhor Jogo: Escócia-Fiji


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