RWC19: o Harakiri Argentino

Fair PlayOutubro 26, 20196min0

RWC19: o Harakiri Argentino

Fair PlayOutubro 26, 20196min0
No Japão os Pumas despenharam-se com toda força e há uma série de questões a responder... o Harakiri da Argentina explicado neste artigo de Frederico Melim

Desde 2007 que a Argentina não falhava os quartos-de-final do Mundial de Rugby, regressando cedo a casa pela primeira vez em muito tempo, mais exatamente a 18.000km de distância já na Argentina. Será duro e nada fácil apreciar a espetacularidade dos Allblacks, do pragmatismo da Inglaterra, da fortitude dos Springboks ou do atrevimento e dinamismo do Japão, sabendo que os Pumas tinham talento de sobra para estar pelo menos nos 8 melhores nesta fase final.

Daniel Hourcade tomou as rédeas dos Pumas em Outubro 2013 e desde esse momento o objetivo final passava pelo Mundial do Japão 2019, dito pelo mesmo e focando-se na aposta em jogadores jovens que conhecia dos antigos Pampas XV. Mudou o paradigma de jogo Argentino e renovou-o cujo resultado foi um grande Mundial de 2015 dando a continuidade necessária aos resultados já fantásticos em 2007 e 2011. No entanto, o quarto lugar de 2015 seria apenas o começo e o produto inacabado, com muito para crescer e amadurecer, com um fim inesperado e curto. A transição com a entrada no Super Rugby, através dos Jaguares, teve um efeito traumático desde início, sendo que Mario Ledesma assumiu a liderança da mesma ano passado com o objetivo de remodelar e revigorar a equipa. Pela primeira vez os Pumas ganharam 2 jogos num Rugby Championship, sendo que a queda foi imediata e abrupta com resultados e exibições muito fracas.

Como diz Ledesma, é certo que os jovens neste Mundial tiveram uma grande experiência e a UAR desempenhou um grande trabalho no desenvolvimento de jogadores de alto rendimento e a matéria prima para sonhar mais alto em 2023 é um dado seguro. No entanto, esta eliminação foi claramente uma grande oportunidade desperdiçada por um grande grupo de jogadores que estava com a idade ideal para explorar todo o seu potencial e dar o máximo. A falta de experiência é uma desculpa fútil quando olhamos para os jogadores fantásticos de nível mundial que não foram convocados, alguns com atributos de liderança vitais nestas grandes competições. Todos estavam disponíveis, incluindo os que jogam na Europa.

Santiago Carreras, de 21 anos, que acabou como o melhor ¾ dos Pumas na competição, teve problemas defensivos, especialmente devido a erros de posicionamento e não apenas de placagem. Numa posição com uma melhor solução com Ramiro Moyano, este acabou apenas com 40 minutos e Bautista Delguy, que chegou 100% focado e em forma como o mesmo e o treinador confirmaram antes do início em entrevista, começou a titular apenas em 1 jogo. Estamos a falar apenas dos titulares de 2018.

O mais difícil de explicar e o que se torna incompreensível foi o baixo nível exibicional pelos jogadores de elite além de  Nicolás Sánchez, Agustín Creevy e Jerónimo de la Fuente terem passado despercebidos perante o potencial a que têm e nos habituaram. Inexcedíveis foram Pablo Matera, Guido Petti e Marcos Kremer, com melhor rendimento e exibições na generalidade mas insuficientes na totalidade.

Os Pumas finalmente voltaram a exibir mêlées fortíssimas e excelentes  (exceto contra os EUA) e apresentaram consistência na disciplina. As falhas vieram fundamentalmente da falta de fluidez do ataque, que apenas apareceu no ultimo encontro sem nada a perder ou ganhar (nos primeiros três a bola não chegou ao 2º centro) e sobretudo na defesa, totalmente incaracterística e permissiva. A identidade defensiva é um dos pontos mais fortes dos Pumas que desapareceu inexplicavelmente e como qualquer equipa de topo sabe, é a diferença entre o êxito e o falhanço

A responsabilidade está toda com Mario Ledesma, o líder. Na última conferencia de imprensa, no Kumagaya Rugby Stadium, o tom altivo que usou após a derrota com Inglaterra mudou radicalmente e admitiu com uma profunda autocrítica e mea culpa que falhou na preparação da tática e estratégia corretas além da parte emocional e relacional com os jogadores pois a pressão de um Mundial em tudo diferem de um Rugby Championship ou Test Match normal.

Ledesma é um dos poucos treinadores argentinos que tem a preparação a nível elite, tanto pelo seu passado como Puma como experiência em ambos os hemisférios, no entanto nunca esteve à frente de uma Selecção Nacional como treinador principal. Dizer que foi demasiado rígido ou que lhe faltou empatia seria ir longe demais. Dizer que houve lutas internas dentro da equipa seria irresponsável. O que é imperdoável é a grande maioria do jogadores renderem muito abaixo das suas capacidades sem qualquer desculpa ou razão, caindo a responsabilidade inevitavelmente sobre o treinador.

O sorteio do próximo Mundial realizar-se-á em Maio 2021 e o futuro dos Pumas, se mantiverem o critério de anos anteriores, dependerá do ranking da World Rugby nessa altura. Neste momento estão em 10º lugar, tendo assim 75% probabilidades de cair num Grupo da Morte (os 25% restantes enfrentariam a Escócia), e têm apenas 1 ano para o melhorar, sendo possível que isto modifique. O próximo passo deve incluir o plano da utilização a ser feita dos Jaguares e a política de convocatórias dos jogadores que se encontram fora da Argentina (2 fatores intimamente correlacionados e que se alternam entre si).

As condições atuais estão muito distantes de uma Nova Zelândia ou Inglaterra, cuja pool e base profissional é muito ampla. Mas, estando envolvidos no Rugby Championship e Super Rugby não deixa de ser um privilégio reservado para poucos. Os vários avisos e vozes de descontentamento global quando Hourcade decidiu a ostracização dos jogadores “europeus” no fim de 2014, revertendo para um plantel de apenas 35 jogadores a jogar, viajar e conviver juntos na janela de 1 Fevereiro a 31 Novembro, sobre ser provavelmente contraproducente acabaram por se verificar e com um grande estrondo. O capitão Pablo Matera afirmou não saber como seria o seu futuro nos Pumas pois seria um dos muitos jogadores a emigrar no término deste Mundial.

A solução passa por um planeamento e estrutura mais flexível que traria maior concorrência por lugares na equipa e gerava uma maior diferenciação natural e importante entre Pumas e Jaguares. O que quer que se decida para o futuro deve ser no melhor interesse dos Pumas e do Rugby Argentino


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