RWC19: O detalhe da Ronda 2 – o Império do Breakdown nipónico

Francisco IsaacSetembro 30, 20194min0

RWC19: O detalhe da Ronda 2 – o Império do Breakdown nipónico

Francisco IsaacSetembro 30, 20194min0
Uruguai e Japão registaram vitórias memoráveis neste Mundial de Rugby, oferecendo emoção, espectáculo e surpresa, coincidindo a sua vitória no mesmo pormenor: breakdown!

O inesperado, um elemento que raramente incidiu/incide no Mundo de Rugby e menos ainda durante Campeonatos do Mundo, impondo-se sempre a lei do mais forte nestes encontros. Contudo, por vezes há surpresas como aconteceu em 2015 quando o Japão derrotou a inabalável África do Sul. Felizmente para a modalidade, o Campeonato do Mundo de 2019 já proporcionou dois resultados inesperados, com a vitória memorável e emocionante do Uruguai ante o Japão e do espectáculo apaixonante japonês que superou a favorita Irlanda.

Ambos resultados não foram só construídos na parte emocional, e dizer que ambas as vitórias explicam-se só por esse elemento é reduzir o esforço de ambas as selecções a um detalhe ou erro por parte do adversário. Não há dúvidas que a força de vontade, o espírito de sacrifício, a vontade de acreditar/continuar a trabalhar e a força de não desistir foram importantes quer na vitória histórica dos teros ou no “golpe de teatro” dos Cherry Blossoms, mas houve algo mais comum a ambos os lados: o breakdown.

A luta desenfreada no ruck é confundida algumas vezes por um embate caótico, anárquica e desprovida de “leis” e este é um pensamento errado. Existem leis, uma ordem própria que permite ao ataque manter a posse de bola caso tenha um apoio directo ou favorece a defesa caso consiga chegar mais rápido ao jogador caído no chão, atacando a oval com uma volatilidade letal.

Uruguaios e japoneses foram “reis” não só na construção do breakdown a atacar mas especialmente  como defender neste apontamento e os números não mentem: Japão com 22 turnovers, 13 dos quais foram conquistados a partir do breakdown, sendo que 7 foram recuperados no meio-campo irlandês e, mais importante, 11 entre os seus 30 metros e área de ensaio. Uruguai com 39 turnovers, 18 através de uma boa disputa no breakdown com especial incidência para 12 bolas recuperadas nos últimos 22 metros do terreno de jogo do Uruguai.

É verdade que estas recuperações no contacto e no ruck foram possíveis pela forma permeável como o ataque quer das Ilhas Fiji ou da Irlanda se apresentou nos encontros, onde o apoio foi lento e sem a agressividade necessária sendo elementos fulcrais para o quebrar da lógica de continuação de jogo de ambas as selecções. Mas negar a evolução do trabalho defensivo do Japão é negar o crescimento desta selecção a nível mundial, que cada vez mais se aproxima do Tier1… não será relevante o resultado ante a selecção que até à bem pouco tempo ocupava o 2º lugar do ranking da World Rugby?

A forma como os nipónicos lançaram a sua estratégia defensiva foi letal para os comandados de Joe Schmidt, abalando por completo com a lógica de jogo pensada para este encontro decisivo para o apuramento do 1º lugar do Grupo A. Com uma percentagem de 93% no que toca ao sucesso na placagem e apenas 6 penalidades concedidas dentro do seu meio-campo (4 cometidas durante os primeiros 25 minutos), a eficiência do breakdown deu eco à perfeição defensiva dos japoneses, destacando-se Kazuki Himeno, Michael Leitch, Pieter Labuschagne, Shota Horie (3 turnovers) e James Moore (24 placagens e um 100% de eficácia) nesta exibição de gala.

Já o Uruguai demonstrou que é uma formação com um sentido de compromisso defensivo colectivo genial, bloqueando por completo com a velocidade fijiana, que só recuperou e se encontrou quando Nikola Matawalu foi chamado para entrar na contenda… demasiado tarde, diga-se. A forma expressiva como os teros liam o ataque contrário foi sensacional, sabendo escolher o momento X para atacar o portador da bola no chão e garantir um turnover ou, melhor, uma penalidade. A atitude apaixonante, a concentração profunda e a excelente postura na defesa foram elementos mais que suficientes para garantir uma vitória memorável para o Uruguai.

A vitória do Japão ante a toda-poderosa Irlanda vai ficar recordada como uma das reviravoltas mais memoráveis do rugby mundial, não só porque os nipónicos fizeram o impossível, mas sobretudo pela genial e excelsa técnica defensiva, que vai desde a placagem feroz ao turnover espectacular.


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