Tri-Nations 2020 Jogo 5 – All Blacks acabam com o sonho dos Pumas

Francisco IsaacNovembro 28, 20209min0

Tri-Nations 2020 Jogo 5 – All Blacks acabam com o sonho dos Pumas

Francisco IsaacNovembro 28, 20209min0
Exibição em grande dos All Blacks no 5º jogo das Tri Nations 2020, pode ainda valer título na competição e explicamos como nesta análise

Depois de uma exibição desastrosa há 15 dias, os All Blacks decidiram dominar por completo o 2º encontro frente à Argentina e deram um passo certo pela captura do ceptro de campeões das Tri-Nations 2020, ficando a depender do resultado dos Pumas ante os Wallabies na última jornada da competição.

Mas a vitória por 38-00 foi total mérito dos neozelandeses, demérito dos argentinos ou um pouco de ambos? A nossa visão do encontro em quatro pontos.

MVP: ARDIE SAVEA (NOVA ZELÂNDIA)

Ardie Savea, Akira Ioane e Nepo Laulala foram as chaves-mestras para explicar o domínio totalmente avassalador dos All Blacks ante os Pumas, e a nossa opção para melhor do encontro recaiu no nº8 da Nova Zelândia, não só pelo belo ensaio conseguido, mas sobretudo pela enormidade na defesa (5 placagens e 2 turnovers) e ataque, tendo neste ponto criado constantes problemas aos placadores adversários que por só duas ocasiões foram capazes de efectivamente parar o terceira-linha centro no mesmo sítio em que recebeu a oval.

Depois de nos dois últimos jogados ter realizado exibições-carrossel, em que tanto era capaz de ser extraordinário e caótico num par de minutos, foi neste último jogo do ano para os neozelandeses que se mostrou totalmente decisivo imprimindo uma fisicalidade totalitária e destrutiva, como se prova pelos 8 tackle busts, 7 defesas batidos, 40 metros e 13 conquistas efectivas da linha-de-vantagem, forçando aos Pumas a recuar sempre que Ardie Savea entrava no contacto.

Com um timbre agressivo alto, a postura do nº8 deu aquilo que a Nova Zelândia tanto necessita em todos os parâmetros: capacidade física para empurrar os adversários para trás na defesa/ataque; agressividade para nunca desistir de trabalhar no contacto; e serenidade total quando surgem algumas crispações entre jogadores, evocando uma comunicação totalmente limpa e tranquilizadora. Fez falta “este” Ardie Savea nas duas derrotas anteriores, tendo voltado na hora que Ian Foster e os adeptos dos All Blacks mais necessitavam. É importante não esquecer a estrondosa exibição quer de Akira Ioane (focado no ponto seguinte) e Nepo Laulala, já que ambos foram excelentes nas fases-estáticas e ainda melhor quando chamados a participar na acção com bola, sendo que o asa foi providencial em dois momentos na defesa…

THE TACKLING MACHINE: AKIRA IOANE (NOVA ZELÂNDIA)

Como dizíamos, Akira Ioane foi essencial durante todo o encontro com 8 placagens efectivas, 2 turnovers, 10 conquistas de bola nos alinhamentos, estando em todo o lado ao mesmo tempo, impondo uma frescura física impressionante e um poder de colisão supremo, que fez mossa a adversários como Marcus Kremer ou Pablo Matera. Dizíamos anteriormente que Ioane se destacou em dois momentos defensivos, um dos quais talvez decisivo na maneira como o encontro acabou por se desenrolar: aos 41 minutos, 1 minuto depois da reentrada no encontro após vinda do intervalo, os Pumas desenharam a sua melhor e única jogada ao largo que ganhou metros e até forçou dois erros defensivos no bloco defensivo neozelandês.

Quando tudo se parecia encaminhar para um ensaio dos Pumas, uma entrada de Facundo Isa acabou “morta” nas mãos de Akira Ioane, que atacou e arrancou a bola do poder do nº8 argentino, devolvendo calma, paz e estabilidade para os All Blacks. Foi um detalhe que pôde ter passado despercebido na altura, mas que efectivamente demonstra a qualidade técnica do asa dos Blues, lendo bem a situação para depois tomar num par de micro segundos uma decisão correcta (porque correu bem ou porque efectivamente era a melhor opção?) que beneficiou a sua equipa a curto/médio/longo prazo.

Foi dos jogadores mais criticados em 2018 e 2019, porque detinha todo um potencial técnico e físico de nível mas que parecia completamente amarrada a alguma preguiça e falta de coesão mental, mostrando em 2020 o porquê de ter ser visto como um potencial dono sem discussão da camisola de nº6 dos All Blacks.

O BEST COACH: IAN FOSTER (NOVA ZELÂNDIA)

Durante estes Tri-Natios, Ian Foster conseguiu ser o pior e melhor seleccionador entre os seus pares, marcando as suas decisões em tons cinzentos, pois tanto foi capaz de ser justo e dar oportunidades aos jogadores que mais mereciam, como também atribui a titularidade a outros que não mereciam tal primazia.

Mantendo a maioria das mesmas peças que alinharam na derrota frente aos Pumas a 14 de Novembro, os All Blacks entraram em campo com outro foco e concentração, impondo uma dose de trabalho mais assertiva, em especial nas fases-estáticas, não perdendo qualquer alinhamento ou formação-ordenada própria e sendo capaz de recuperar uma série delas dos seus adversários (3 alinhamentos roubados e 3 penalidades impostas aos Pumas na formação-ordenada).

Principalmente foi na forma como conseguiram lidar com aquelas ganas da Argentina que a selecção neozelandesa conseguiu ganhar a frente do jogo, focando-se no que podiam controlar, segurando a posse de bola para tentar forçar um erro de defesa contrária ou arriscar num pontapé alto de grande perigo para quem fosse receber na Argentina (Boffelli e Cordero erraram em duas e uma ocasião, respectivamente), fechando os Pumas dentro do seu meio-campo.

A atitude dos jogadores neozelandeses foi totalmente diferente, imune às provocações ou a atitude física da Argentina (que caiu brutalmente entre este jogo e o primeiro, sobretudo nos últimos 20 minutos), capacitando-se que eram melhores na condução de bola e nas entradas no contacto, aceitando as placagens duras e leais/legais da Argentina sem se deixarem ir nessa fisicalidade dos seus adversários.
Mais calma, mais serenidade e mais seriedade, foram as receitas dos All Blacks para sair com uma vitória e ponto de bónus no seu último encontro da temporada.

Não houve qualquer discussão no resultado e os números finais provam esse facto: 533 metros conquistados (mais 400 que a Argentina), 71% de posse de bola, 82% de posse de território, 10 quebras-de-linha (mais 5 que os Pumas), 26 defesas batidos (mais 21 que os sul-americanos), 100% nas fases-estáticas e alinhamentos (Pumas estiveram nos 80%), 50 placagens efectivas e 5 falhadas (os Pumas fizeram 175 tentativas mas só foram capazes de acertar por 149 ocasiões o alvo), 7 penalidades (Pumas com 14) e mais uma série de dados estatísticos que mostram a diferença entre um lado e o outro.

A discussão Richie Mo’unga/Beauden Barrett vai “desparecer” em 2021, pois o atleta dos Blues vai jogar para o Japão durante 7 meses, o que permitirá ao nº10 dos Crusaders e ao seleccionador dos All Blacks não ter esta dicussão em seu redor durante, pelo menos, um ano. Mas será que este “fantasma” voltará a atacar quando a oportunidade for menos oportuna? E conseguirá Ian Foster perceber que os neozelandeses precisam de ser efectivamente melhores no aspecto mental, na capacidade de aguentar as provocações do adversário e sobreviver às surpresas que possam surgir dentro de campo?

O(S) LET DOWN(S): PUMAS SEM CAPACIDADE FÍSICA E MENTAL PARA ATACAR AO LARGO

Antes de mais, o aspecto da queda física dos Pumas é um argumento válido para a queda abismal entre o que se passou no primeiro embate frente aos All Blacks para o segundo, mas não explica tudo o que correu mal com os Pumas. Porque caso digamos que só a característica física é o denominador incomum entre ambas, então a argumentação cai por terra, já que os erros dos Pumas de 2017/2018/2019 continuam a surgir em 2020, e falamos da condução de bola no jogo contínuo, sector que está totalmente fragilizado e sem capacidade de resposta para quando é necessário surgir.

Nos 80 minutos deste encontro, só por uma vez a Argentina foi capaz de andar mais de 60 metros com a bola em seu poder, acontecendo isso aos 41 minutos, no único momento em que os Pumas podiam efectivamente ter acabado dentro da área de ensaio, sem que isso acontecesse por via da melhor agressividade e inteligência defensiva dos All Blacks.

E só conseguir fazer uma jogada com princípio (conquista de bola na fase-estática), meio (condução de bola entre as linhas atrasadas e criação de brechas na defesa contrária) e fim (formalmente fazer fases e ganhar metros) durante todo um jogo é absurdamente pouco para uma Argentina que em outros anos, nem muito distantes, eram capazes de fazer bem mais e melhor. A preocupação dos jogadores da Argentina recaia em tudo aquilo que não deviam se preocupar, constantemente a chamar a atenção do árbitro, a tentar destabilizar os seus adversários a nível emocional e a quererem se entregar mais à refrega do que efectivamente pensarem o jogo, elementos que servem para ganhar um par de jogos, mas não para se ganharem troféus ou campeonatos.

Faltou a garra daquele jogo de dia 14 de Novembro, a entrega física e o carisma total, não há dúvidas, contudo a pergunta que fica é se aquilo que aconteceu há duas semanas atrás foi uma excepção e algo saído dos confins dos jogadores da Argentina ou se o que se passou a 28 de Novembro é o verdadeiro retrato desta Argentina de Ledesma? Para a responder a esta pergunta, basta dizer que nenhum dos cenários é o verdadeiro, pois em ambos residem pormenores que se complementam e podem realmente nos dar a verdadeira imagem destes Pumas. Gigantes na alma, acérrimos placadores e grandes trabalhadores naqueles parâmetros de jogo mais complicados, mas sem o brilhantismo técnico que se espera de uma selecção do seu patamar.

STATS SHEET

Mais metros conquistados: Will Jordan (Nova Zelândia) – 125 metros;
Mais placagens: Marcus Kremer (Argentina) – 15 (3 falhadas)
Mais turnovers: Sam Cane (Nova Zelândia) – 2 turnovers
Melhor marcador de ensaios: Will Jordan (Nova Zelândia) – 2 ensaios
Mais defesas batidos: Ardie Savea (Nova Zelândia) – 7 defesas batidos
MVP do Fair Play: Ardie Savea (Nova Zeândia)


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter