Ledesma devolve as garras aos Pumas – Rugby Championship 2018

Francisco IsaacAgosto 27, 20189min0

Ledesma devolve as garras aos Pumas – Rugby Championship 2018

Francisco IsaacAgosto 27, 20189min0
O novo timoneiro da Argentina repôs a seleção celeste no seu pico máximo com Ledesma a sair por cima do embate contra Erasmus. Como ganharam os argentinos aos Springboks?

HAY VIDA EN LOS PUMAS!

Balde de água fria para os Springboks de Rassie Erasmus, com a sua segunda derrota em 2018 (a primeira foi no jogo final das Series contra a Inglaterra) e esta para o Rugby Championship. Depois de uma vitória “positiva” na primeira ronda, a visita à Argentina correu da pior forma possível: derrota. Ainda por mais, foi uma derrota sem ponto de bónus defensivo o que prova as grandes dificuldades deste elenco sul-africano.

Em Mendoza, com 30 mil pessoas a assistir, os Pumas trucidaram por completo os ‘boks na defesa, realizando uma daqueles prestações memoráveis no que toca à placagem, reacção rápida à saída do chão e combate no breakdown. No final de contas, os argentinos somaram 133 placagens com uma percentagem de 86% de sucesso neste capítulo, algo que os colocou na rota da vitória. Foi inacreditável a defesa apresentada entre os 55-70 minutos de jogo, quando a África do Sul aplicou uma pressão total no ataque.

Contudo, entrada após entrada, os sul-africanos foram arremessados para trás, perdendo o fio à meada, com a perda total da lógica de jogo… Faf de Klerk não teve a clarividência suficiente para descortinar espaços (a forma como a avançada dos Pumas fechava a defesa junto ao ruck foi um dos factores de topo) e Handré Pollard nunca esteve ao seu melhor.

Com a ausência de uma boa exibição dos dois principais movimentadores e dinamizadores do ataque, os Springboks cingiram-se às entradas curtas, procurando ensaios através do choque físico e embate… não resultou. Foi um encontro extremamente físico e faltoso, com 23 penalidades, 30 alinhamentos, 15 formações-ordenadas e muitos rucks, conseguindo a equipa da casa encaixar os seus adversários no estilo de jogo que queriam jogar.

Mario Ledesma foi genial ao criar problemas constantes ao ataque dos Springboks, que não passou pelo atraso de jogo mas sim por placagens duras e que “amarravam” o portador da bola no contacto, forçando o apoio sul-africano a estar mais por perto, inviabilizado uma linha de ataque com mais unidades. Menos unidades no ataque, significa mais problemas na hora de defender o breakdown e que por sua vez significa mais hipóteses para a defesa arrancar a bola do ruck. Lógico, fácil e simples, como Ledesma prometeu no arranque para o Rugby Championship.

Por outro lado, o ataque sagaz dos Pumas foi fenomenal, denotando-se combinações explosivas em que o três de trás voltou a aumentar a velocidade a um ponto de extrema elegância, com Boffelli (está neste momento no top-3 dos melhores defesas do Mundo), Delguy e Moyano a serem extraordinários a explorar bem o jogo interior. Notar que perto do final do encontro, há uma recuperação de bola debaixo dos postes que Delguy recebe e parte para a aventura a partir de dentro da sua linha de ensaio… só parou quase nos 22 metros dos Springboks.

Esse momento mostra aquilo que Ledesma quer voltar a impor nos Pumas: alegria com a oval nas mãos, velocidade de movimentos, risco em momentos imprevisíveis, genialidade e autoridade dos melhores jogadores e uma sagacidade apaixonante na placagem. Estes aspectos passaram todos neste encontro seja pela forma como Agustín Creevy e Nicolás Sanchez “carregaram” os seus colegas nos momentos, pela forma como Matera e Kremer aplicaram placagens de pôr a andar para trás ou a tal loucura do seu três-de-trás.

Os Springboks tiveram mais posse de bola, mais metros corridos e mais território, mas nunca foram metade da equipa que a Argentina foi. Faltou algo que colasse os “departamentos” dos avançados com o dos três-quartos e o problema pode passar por François Louw, Warren Whiteley e, sobretudo, Handré Pollard. O número 10 foi um “vazio” de ideias, regressando aos jogos de baixa rodagem e bem longe do que se esperava de si.

Maus passes, péssimo a conduzir o jogo e a combinar com de Klerk, poucas foram as ocasiões em que montou boas saídas para o ataque. Faltou sobretudo eficiência ao longo dos últimos 20 minutos, altura em que estiveram claramente por cima mas em que só marcaram 7 pontos.

Do outro lado, Nicolás Sanchez deu um recital… um ensaio, pontos convertidos ao pé, um Mestre de Cerimónias a montar jogadas e uma dor de cabeça constante para quem tentava defender de forma pausada.

Ledesma demonstrou que os Pumas estão vivos e Erasmus voltou a cair nos mesmos problemas que Alistair Coetzee tinha tropeçado em: falhas nos básicos, erros tácticos e vazio de ideias em momentos de maior pressão. O 32-19 é um sinal positivo para Pumas e negativo para Springboks? Ou é um sinal que ambas estão no mesmo patamar?

SHOW DE RETTALICK E DE BARRETT PERANTE WALLABIES SEM “CABEÇA”

Se ainda restavam dúvidas, os All Blacks trataram de lhes pôr um fim: a Bledisloe Cup fica na Nova Zelândia por mais uma época. Duas partes diferentes, mas com os três mesmos protagonistas: Broadie Retallick, Ben Smith e Beauden Barrett. Poderíamos colocar aqui o menos mau dos australianos, de seu nome David Pocock, pois o nº8 realizou um jogo monumental durante 60 minutos, com 3 turnovers e três penalidades conquistadas a favor dos Wallabies, para além de ter conseguido atrasar o jogo dos neozelandeses de forma consecutiva.

Mas bem, o que mudou da semana passada para esta? Pouco… os All Blacks realizaram uns primeiros 20 minutos de domínio, depois perderam um pouco a consistência para no final da primeira parte voltarem a estar por cima do encontro, para nunca mais saírem de lá.

Os Wallabies não foram só “limpos” no factor físico (falamos em termos de resistência) como também no apontamento táctico, ao caírem nas constantes armadilhas ofensivas montadas pelos neozelandeses, sendo que na defesa os bicampeões mundiais voltaram a dar uma lição.

Há alguns pontos a rever para perceber que os australianos estão mais focados na parte emotiva do jogo que na lógica… exemplo: à passagem do minuto 23′ conseguiram chegar aos últimos 5 metros da equipa da casa e só faltava marcar o ensaio… com 5 jogadores disponíveis ao longo do campo, bastava a Will Genia lançar a bola rapidamente para Foley e este podia escolher qualquer um dos seus colegas para ser o autor dos 5 pontos. Todavia, a formação visitante optou por jogar curto por três vezes consecutivas perdendo desta forma um ensaio fácil.

Sim, na sequência desse lance os Wallabies vão marcar ensaio, mas é uma demonstração da falta de inteligência e noção de bom uso da oval em seu poder… questiona-se a liderança de Michael Hooper, muito longe da sua melhor forma tanto física como mental, e da voz de Bernard Foley no lançamento de fases ofensivas. Os Wallabies montaram boas fases de ataque, tiveram momentos de puro brilhantismo como foi o ensaio de Reece Hodge aos 55′, onde os offloads e apoios foram de ponta.

Todavia, do outro lado estava um grupo de jogadores que se entendem como ninguém e exploram as fraquezas do adversário da mesma forma… Beauden Barrett, no seu 3º ensaio, deu um puro “baile” a Foley, Hooper, Haylett-Petty, todos eles mal colocados no campo ou sem a postura ideal para uma boa defesa. O médio-de-abertura foi autor de quatro ensaios, um recorde na Bledisloe, pondo fim à discussão sobre a sua forma: 170 metros, 7 quebras-de-linhas, 6 defesas batidos, 86% dos pontapés convertidos, duas placagens salvadoras-de-ensaio e muitos outros detalhes que provam a sua imensidão como nº10 dos All Blacks.

É impossível dissociar o sucesso dos neozelandeses à capacidade de rasgo, magia, visão de jogo (os pontapés tácticos foram soberbos), velocidade e ritmo do abertura, da mesma forma como é impossível de não colarmos Broadie Retallick ou Ben Smith ao resultado final de 40-12.

O 2ª linha voltou a ser um powerhouse excêntrico, com mais uma série de detalhes técnicos ao nível dos melhores 3/4’s do Mundo, seja a fazer um falso, uma finta-de-passe ou uma dobra à ponta. É um atleta total, que tanto sabe tanto atacar com a oval nas mãos como percebe o momento X para recuperar-la no contacto. Três turnovers, um deles que resultou no 4º ensaio de Beauden Barrett, provam que é também ele um dos melhores do Mundo.

E, por fim, Ben Smith… seja na posição de defesa ou à ponta, dá uma cultura táctica e técnica completamente diferente aos All Blacks. Veja-se os saltos no ar em que recuperou a bola por quatro ocasiões (a ombrear com Israel Folau neste aspecto, num jogo em que o defesa australiano não alinhou por lesão), caindo no chão para partir logo para cima dos seus adversários. Cínico no jogo ao pé, genial na criação de movimentações ofensivas, foi a “ponte” da qual nasceram os dois primeiros ensaios da Nova Zelândia.

Uma 2ª parte assombrosa, com um rugby simples mas complexo, de uma respeito táctico enorme mas pejado de fantasia pôs termo à suposta revolução dos Wallabies. É um espectáculo digno de registo, que os mais críticos apontam como o desvirtuar da modalidade… mas que culpa têm os All Blacks de serem mais trabalhadores, mais geniais, mais delicados, mais sérios no rugby?

Para Michael Cheika chega agora a um momento crucial na sua estadia enquanto seleccionador dos Wallabies: do or die. O Rugby Championship acabou e só um 2º lugar pode salvá-lo do despedimento.

EQUIPA DA SEMANA: Joe Moody, Agustín Creevy, Owen Franks, Broadie Rettalick, Tomas Lavanini, Pablo Matera, Sam Cane, David Pocock, Aaron Smith, Beauden Barrett, Bautista Delguy, Matias Moroni, Jack Goodhue, Ben Smith e Emilliano Boffelli;

JOGADOR DA SEMANA: Beauden Barrett (Nova Zelândia)

PONTUADOR MÁXIMO: Beauden Barrett (Nova Zelândia) – 30 pontos

MELHOR ENSAIO: 4º ensaio de Beauden Barrett (Nova Zelândia) / 1º ensaio de Delguy (Argentina)


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