Giteau Law e o seu fim: consequências, vantagens e uma lição para todos

Francisco IsaacAgosto 16, 20216min0

Giteau Law e o seu fim: consequências, vantagens e uma lição para todos

Francisco IsaacAgosto 16, 20216min0
O possível fim da Giteau Law pode oferecer uma solução a curto-prazo para os Wallabies, mas o que vai oferecer a longo prazo?

Antes de mais, o que é a Giteau Law e como nasceu? Durante décadas a fio, o rugby australiano funcionou quase da mesma forma que o seu congénere neozelandês em termos de legislação e estrutura, sendo que uma das leis/regras exatamente igual passava por não permitir que jogadores a jogar fora do país tivessem oportunidade de representar a selecção, protegendo, desta forma, quem escolhia ficar e contribuir para a valorização da modalidade internamente.

Porém, a profissionalização, a diferença de moedas e de capacidade financeira e a abertura de novos mercados, acabou por começar a atrair jogadores das franquias australianas do Super Rugby para fora, com França e Inglaterra a oferecerem um peso sem igual de libras/euros, desequilibrando a balança “frágil” do Hemisfério Sul. +

Contudo, a Federação de Rugby da Austrália (Rugby Australia) manteve-se perene e foi evitando convocar atletas radicados em outros países que não a Austrália, o que significou não contar, por exemplo, com George Smith (supostamente estava retirado dos Test Matches, isto devido à sua saída para França e depois Japão) para o Mundial de Rugby em 2011, optando por não ter os seus melhores atletas mas mantendo uma coesão e lógica de trabalho dos jogadores se sacrificarem em prol da Pátria e Nação, mesmo que para isso tivessem de recusar um contrato milionário. Chegamos finalmente a 2015, e perante alguma pressão interna por parte de Michael Cheika (seleccionador na altura), a Rugby Australia decide emitir a sua 1ª lei que furava esse bloqueio internacional: Giteau Law. Esta legislação adveio de Matt Giteau, à altura um dos melhores jogadores do Mundo, que tinha saído em 2012 para França, tendo assinado pelo RC Toulon, significando um “adeus” prematuro aos Wallabies de um super polivalente 3/4’s e um líder com mentalidade vencedora.

Perante isto, a RA promulgou a tal lei que permitia a atletas australianos a jogar fora da Austrália a representar os Wallabies, desde que fossem respeitadas duas condicionantes: que tivessem um mínimo de 60 jogos pela Austrália e 7 temporadas (de contrato profissional e não como medical joker) de Super Rugby. Drew Mitchell e Matt Giteau foram os primeiros a conseguir estar presentes nos Wallabies estando a jogar fora do seu país de origem, abrindo-se um novo capítulo para o rugby australiano.

Apesar do aparecimento desta legislação, algumas vozes surgiram a favor de se deixar cair por completo qualquer impedimento de que jogadores a actuar fora não estivessem elegíveis para a selecção, aumentando de volume com o passar das temporadas, muito devido à queda constante das franquias australianas e da subida de rendimento de certos nomes, como Will Skelton (Saracens e depois Stade Rochellais), o 2ª linha que não preenche qualquer dos requisitos da Giteau Law, impedindo-o de estar presente no grupo de Dave Rennie, isto sem falar de Liam Gill, Rory Arnold ou Samu Kerevi.

Os últimos dois anos têm servido para adensar o número de apoiantes do fim da Giteau Law e da antiga imposição de que para se ser Wallaby, tem de se estar a jogar em “casa”, e as recentes derrotas por números preocupantes frente aos All Blacks, lançaram decididamente uma urgência para que novas decisões fossem tomadas, com vários antigos jogadores e referências a aludirem que para ganhar aos melhores, voltar ao nível do passado e terem capacidade de lutar pelo título mundial é preciso contar com todos os activos disponíveis, seja os que estão em França, Inglaterra, Japão ou Irlanda. Drew Mitchell, Adam Ashley-Cooper, Will Genia, George Gregan ou David Campese são alguns dos principais promotores do “rasgar” desta lei, sendo que oposição contrária também surgiu, pela voz de Stirling Mortlock por exemplo.

No meio da batalha de palavras e ideias, a palavra “curto-prazo” surge em força, especialmente do lado de quem quer manter a Giteau Law em funcionamento, pois a vinda de atletas extra-Austrália poderia ajudar aos Wallabies no imediato, oferecendo uma intensidade e confiança maior, só que a médio-prazo teria a capacidade para destruir ainda mais a credibilidade e valor das franquias australianas, dando o aspecto que Super Rugby AU, Reds, Brumbies, Rebels, Force e Waratahs eram só espécie de “berços” para os grandes jogadores jovens e de “casa” para os atletas de média-qualidade que preferiam ficar em território australiano, por via de terem a vida facilidade em agarrar um contrato profissional.

No reverso da moeda, os defensores do fim da Giteau Law, aludem que se os Wallabies continuarem em queda livre seja em resultados ou qualidade exibicional frente aos seus principais rivais, poderá fazer com haja um maior desinteresse da população australiana (que já se debate entre Australian Football, Rugby League e críquete) em acompanhar, apostar e investir no rugby union, podendo perder vários miúdos para outras modalidades, o que seria uma agravante ainda maior. Outro ponto, defendido por estes, vai para o facto do peso e importância da camisola da selecção campeã do Mundo em 1991 e 1999 já não ser a mesma, não tendo o mesmo significado para os atletas quando chega à altura de apostar numa ida para o estrangeiro e ganhar mais, ou ficar por uma das franquias australianas sem garantias de melhoria do salário ou das condições de vida.

Será que o fim desta regra poderia mesmo significar uma desvalorização do Super Rugby Au e as suas franquias? Ou a manutenção da mesma e o acreditar “cego” no processo e reestruturamento da Rugby Australia (a começar nas competições jovens, locais e semiprofissionais) poderia ainda levar a um maior declínio dos Wallabies, queda no ranking e perda da atenção por parte do seu público? Dos dois lados existem questões e pontos válidos, seja o fim do isolacionismo e proteção aos jogadores que estão na Austrália, ou o continuar a confiar e valorizar no produto local e dos atletas que optam por ficar em território australiano invés de tentarem a sua sorte fora do país, mas será importante perceber que o regresso imediato de Samu Kerevi, Will Skelton, Liam Gill, entre outros ao horizonte do Wallabies, não significa vitórias ou conquistas e, em caso que a situação se mantenha “igual”, os problemas poderão vir se adensar já que se tirou o suposto último bloqueio para uma maior fuga de atletas para fora da Austrália.

O cenário é, portanto, dual e problemático, sendo que a abertura construída em 2015 parece não ter sido suficiente para quem quer ver a Austrália a bater-se em pé de igualdade com os All Blacks, Springboks ou Inglaterra, e possivelmente um relaxar das leis de legibilidade actuais poderá criar um mal estar entre várias partes. Será uma solução de curto-prazo ou efectivamente é o caminho para o futuro?


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